Relacionamentos LGBT no cinema

Os clichês e lugares comuns

If These Walls Could Talk 2
Desejo Proibido (If These Walls Could Talk 2, 2000)

Introdução: Os clichês e lugares comuns

Embora nem todos roteiristas concordem, para muitos um bom filme precisa de um conflito. Nos filmes com protagonistas LGBT há várias escolhas fáceis para essa lacuna: sair do armário, encontrar o primeiro (ou derradeiro) amor, enfrentar o preconceito da comunidade, ajudar o interesse amoroso a sair do armário, etc. No que se refere aos relacionamentos as escolhas óbvias são a busca por amor ou o desfecho da relação, que comumente envolve a ruptura motivada por alguma forma de abuso ou traição. Esse são clichês que também atingem protagonistas heterossexuais em certos romances e dramas, no entanto existem diferenças importantes.

Protagonistas ou coadjuvantes em relacionamentos heterossexuais aparecem em uma variedade de filmes de todos os gêneros, onde outros eventos ocupam amplo tempo de narrativa sem que seus relacionamentos sejam muitas vezes sequer postos em questão. Aliás em muitas dessas películas ocorre o contrário, as dificuldades e dilemas que vivenciam aproximam essas pessoas ou revigora suas relações.

Pessoas LGBT no entanto têm a presença no cinema mais limitada, muitas vezes as narrativas tem como próprio tema o escrutínio de suas identidades ou suas relações. Um personagem não será gay, lésbica ou transgênero por acaso no cinema. Na dúvida, o protagonista será um (homem) heterossexual. Isso faz com que as escolhas narrativas para LGBT não devam ser consideradas, a princípio, casuais ou acidentais.

Há diversos tipos de conflitos e aventuras os quais pessoas LGBT poderiam estar protagonizando e que dariam excelentes histórias além das situações de estarem a procura de um relacionamento, sofrendo por um ou saindo deste. Certas produções vem, felizmente, explorando algumas novas possibilidades de temas, embora ainda limitadas a situações em que ser LGBT é prerrequisito da trama. Um exemplo são os filmes que exploram casais homoafetivos e as implicações de sua nova visibilidade social e jurídica, onde aparecem temas mais corriqueiros e cotidianos como a adoção de crianças, lidar com as famílias dos parceiros e, claro, o envelhecimento, por exemplo. Apesar disso, mesmo nessas relativamente inovadoras escolhas narrativas, poucas resistem a tentação de fazer os relacionamentos percorrerem os mesmos caminhos já pavimentados.

A questão das representações LGBT no cinema é maior do que a forma que os relacionamentos são tratados nessas narrativas e diversos outros aspectos merecem reflexões semelhantes ou mais profundas. A escolha pelos relacionamentos como ponto de análise está em uma série motivos, além de viabilizar uma ferramenta comparativa interessante, é um aspecto relevante e recorrente tanto em filmes protagonizados por heterossexuais ou não. Como efeito adicional, elimina a necessidade de considerar a utilização de coadjuvantes LGBT em figuração em algumas produções que, apesar de serem vistos como presença positiva, não possuem vida própria, muito menos desenvolvem relacionamentos.

Inspirando-se no famoso teste de Bechdel, esta série de artigos propõem um desafio para identificar filmes que retratam relacionamentos de pessoas LGBT que apresentem as seguintes características:

  • A história principal acontece em um momento posterior ao começo da relação;
  • O relacionamento se mantém ao longo da narrativa;
  • Existe uma relação de confiança que não é quebrada;

Individualmente, nenhum filme pode ser acusado de ser estigmatizante por conter relações LGBT que não seguem essa narrativas. Ignorá-las são escolhas de roteiro válidas e muitos filmes excelentes e relevantes não atendem nenhum desses critérios.  A reflexão com base nesse desafio vem da repetição de possibilidades narrativas limitadas em comparação com a variedade possibilidades que podemos  já ver representadas no cinema por heterossexuais.

Essas características, é claro, não garantem a qualidade do filme e não é essa a sua finalidade senão iniciar esta série de artigos. Neles serão aprofundados os critérios do desafio, suas implicações e limitações além de uma análise de alguns filmes nesta questão e as possíveis distinções quanto a forma de retratar, no cinema, relações envolvendo gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros.


Sobre Paulo Duarte 56 Artigos
(Coordenador, Editor) Fundador do Núcleo UNISex, idealizador e facilitador do projeto Tardes de Cinema desde 2007.