About Luiz Fernando Calaça

Psicólogo, psicoterapeuta, professor substituto do curso de Psicologia da UFBa e aluno especial de Filosofia Contemporânea (UFBa). Membro do UNISEX.

Eu sou, eu estou, eu estou sendo…

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A questão identitária no processo terapêutico

No dia-a-dia, no que tange a questão da homossexualidade, discutimos bastante a questão dos rótulos e das verdades que existem nos discursos de cada pessoa.

Nós, psicólogos, propomos muitas vezes, no processo terapêutico, a relativização dessas verdades e a descristalização desses rótulos, buscando favorecer a emergência de uma pessoa que possa lidar com a vida e suas dificuldades de forma mais fluida e menos cristalizada. Quando se propõe a mudança da idéia do “Eu sou” para o “Eu estou”, se tem em foco a possibilidade de entrever a vida como um processo e não como uma estrutura rígida e determinista, e, com isso, a possibilidade de mudança. Essa compreensão é o que está na base das abordagens humanistas. A visão existencial do homem como um devir, como um vir-a-ser, como processo em constante mutação e transcendência.

Para todo o “Eu sou” existe um “Eu não sou”. “Ser” e “não ser” são dialéticamente complementares. São questionamentos existenciais que remetem ao conflito existencial de Hamlet, personagem clássico de Shakespeare, que de certa forma funda a idéia de indivíduo. Quem afirma, nega. Quem afirma algo, nega o não-algo que existe na afirmação. Será? Essa idéia perpassa os dualismos homem-mulher, macho-fêmea, branco-preto, heterossexual-homossexual, etc. Ao afirmar que se é homossexual, se nega o heterossexual e se restringe a possibilidade de vir-a-ser. Nega-se o fluxo, e a possibilidade de trânsito. Ao mesmo tempo, afirmar-se homossexual significa admitir-se como individuo, dar consistência a uma vivência, integrá-la como parte de si.

Ser homossexual e afirmar-se como tal tornou-se luta política, movimento social, revolução cultural que perpassa gerações e culmina hoje em um momento em que muitos direitos antes inimagináveis já se entrevêem e já são realidade em diversos paises mais “liberais”. Essa idéia funda os movimentos de “ações afirmativas”, de consolidação de uma luta pelo pleno exercício da cidadania.

Por outro lado, afirmar-se homossexual pode alienar o não-homossexual como parte de si, como elemento presente no campo de possibilidades do existir humano. Ser homossexual, pode até se opor – nesse movimento de afirmação – ao ser heterossexual, incorrendo no perigo do fundamentalismo e da “heterofobia”. Pensar nisso não é absurdo! Afirmar-se homossexual, sem levar em conta o heterossexual que está no “fundo” desse campo de possibilidades, pode significar cristalizar-se, interromper o fluxo, o vir-a-ser. Mas AFIRMAR-SE é – ou parece ser – necessário. Afirmar-se como pessoa integral. Se homossexual, heterossexual, bissexual, pansexual, depende da vivencia de cada um, a cada momento.

“Estar” traz a compreensão do momento, do aqui e agora, o presente vivido, experienciado. “Eu estou homossexual”, no entanto, parece algo que soa estranho. Para alguns pode soar como preconceituoso, até. Como posso afirmar “estando algo” que vejo que “faz parte” de mim, como elemento que é a “essência” de minha vivência, de minha sexualidade? Nesse ponto, o “estar”, por mais que seja o adequado ideologicamente, parece ser um descompasso com o que a pessoa busca, na afirmação de si, como “indivíduo”.

As pessoas, ao buscar terapia, querem “se conhecer”, chegar no final do caminho e dizerem: “Eu sou assim”. Querem se ver por inteiro e como inteiro. Nós, psicólogos humanistas, nos propomos a mostrar o “Eu estou assim”. Ao dizer “Eu estou”, tomo consciência de meu momento presente, me aproprio de mim, de minhas necessidades, de minhas dores, e, nessa consciência, posso entrever as possibilidades que existem no meu campo existencial. Posso ver o heterossexual, o bissexual, a travesti, a mulher, o homem, a criança, a mãe, que existe em mim. São elementos que compõem o todo, de um todo existe inteiro, porém múltiplo. Mas para integrar esses elementos se faz necessário tomar consciência deles, dizer “Eu sou isso, também”.

Assim, o dizer “Eu sou”, que antes só parecia me cristalizar num rótulo, pode representar uma outra função, a de possibilitar a apropriação do “si mesmo” integrando partes possíveis, antes alienadas de nossa personalidade. Assim podemos nos ver em nossas múltiplas possibilidades de SER, sendo.

Somos porque existimos. Somos a cada momento, existindo. Somos sendo, a cada momento – nesse continuum que é a vida, em que “estamos sendo” nós mesmos. Temos a consciência de nossa integralidade como pessoas, de que somos alguém, que tem nome, que tem sexo, idade, que nasceu ou viveu em algum lugar, que teve pessoas a quem teve ou tem como família. Nascemos imersos no mundo e construímos referenciais para nós mesmos. Buscamos faróis que possam nos guiar. Buscamos a estabilidade e a coerência no caos. Nos organizamos em sociedades complexas e vivenciamos a idéia da cidadania, da comunidade. E sou um “estou sendo”, pois não me perco completamente da noção de EU.

Quando “estamos sendo”, vivemos integralmente nossa essência enquanto processo. Podemos transitar pelos diversos papéis, podemos transitar pelas múltiplas identidades, sabendo quem somos, como somos e quando queremos ser. Podemos ser e vivenciar os múltiplos e as múltiplas faces de nossa identidade, de nossa pessoa.

O importante não é o “Eu sou” – que aparentemente cristaliza, mas que também define, delineia, dá contorno – nem o “Eu estou” – que presentifica e relativiza, que pode diluir nossas “frágeis certezas e verdades” às vezes necessárias para termos uma mínima compreensão de nós mesmos. O importante é o EU de cada pessoa, em sua descoberta de si.

Nós, terapeutas, podemos caminhar junto ao outro, em seu processo. O outro nos diz quem é, como está, o que deseja alcançar, o que deseja construir e o que deseja deixar no caminho percorrido. Não dissolvemos verdades, certezas, paradigmas, mas propomos o “olhar para”, o “contemplar”, o “tomar consciência” e o “apoderar-se de si”. O outro decide quais verdades e certezas devem continuar existindo, e quais precisam ser mudadas. Somos facilitadores de mudança, mas quem decide o que mudar – ou se mudar – é o outro, a pessoa que nos busca e nos traz sua vida.

A primeira vez de um gay

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“A primeira vez ninguém esquece!” – diz o dito popular. Quando e como ela será é difícil predizer. Quando será o primeiro beijo, a primeira transa. Se o paquerinha da festa vai ser também o primeiro namorado… A primeira paixão. O primeiro olhar… A adolescência é, em geral, a fase da vida onde se dá esses encontros e primeiras descobertas. O mundo se mostra como uma grande aventura, excitante e, ao mesmo tempo, cheio de medos e perigos.

O começo da sexualidade de um jovem gay de classe média pode ser tardio, em relação a outros jovens. Refiro-me ao “jovem gay de classe média” pois essa é uma realidade mais próxima da que vivencio e tive pouco contato com histórias de jovens gays de outras classes sociais. Os gays e lésbicas que eu conheço, em geral, começaram a vida sexual – homossexual – após os 18 anos, podendo ter ou não relações heterossexuais antes de vivenciarem a homossexualidade. Muito disso se dá em função das dúvidas e conflitos consigo mesmos, pela formação familiar heteronormativa, pelas expectativas sociais em torno dos papéis sociais e sexuais esperados para o homem e a mulher, que podem ser vivenciados de forma muito mais rígida na classe média.

A classe média, em geral, prima pela tradição e pelo respeito de certos valores morais convencionais e cristalizados. Estão sempre “na média”, no “meio termo”, seguindo os ensinamentos clássicos da “temperança” e “justa medida”, evitando os “excessos” ou o que é “desviante” da norma, do padrão. A classe média é, muitas vezes, a vivência do pensamento binário sim-não, bem-mal, certo-errado, homem-mulher, céu-inferno, que ignora ou evita admitir as outras possibilidades de existência que fogem a essa visão dicotômica de mundo.

Não duvido, no entanto, que para gays de outras classes sociais, e inclusive da classe média, essa descoberta se dê mais cedo. Essa questão do tempo da descoberta me parece pouco relevante, pois o tempo é relativo a cada pessoa, a cada subjetividade, e cada um tem seu próprio “ritmo”, sua própria história. O tempo certo para aprender a dançar a primeira dança, descobrindo os passos e se envolvendo aos poucos pela música, até que chega o momento em que já não é mais possível deixar de dançar. É o tempo de cada um.

Às vezes tem-se colegas na escola que são gays, mas é muitas vezes difícil estabelecer uma identificação, se ver como um “igual”, mesmo porque ninguém é igual a ninguém. Cada um tem seu próprio jeito de ser e demonstrar sua sexualidade. E. para muitos adolescentes, a própria sexualidade é uma incógnita, podendo ser negada, rejeitada, levantando-se inclusive a possibilidade de se ver como um ser “assexuado”. Infelizmente, apesar da grande exposição do jovem à “produtos sexuais”, muito pouco se tem praticado para se realizar uma educação sexual, que não se restrinja a descrições anatômicas dos aparelhos sexuais, seu funcionamento, e possíveis doenças sexualmente transmissíveis.

Essa educação sexual, em geral, se dá de forma informal, pelo contato com outros adolescentes, que buscam por conta própria informações, ou experimentam entre si essas múltiplas possibilidades de excitação e descoberta. Um contato mais próximo com outros gays mais prematuramente, pode favorecer a vivência da homossexualidade mais cedo, porém isso não é determinante ou causa da homossexualidade. “Sair do armário” pra si mesmo, ver-se e afirmar a si mesmo como gay, pode ser facilitado pela inclusão e legitimação do grupo, a partir do contato com outros gays e lésbicas, ou pela simples possibilidade de, nos contatos interpessoais, nas interações pessoa-pessoa, ver despertar o desejo.

Muitas vezes a homossexualidade pode ser muito nítida para as outras pessoas e obscura demais para nós mesmos, por estarmos existencialmente mergulhados em nossas dúvidas e angústias, entorpecidos ou cegos acerca dos nossos próprios desejos e necessidades.  É quando não temos consciência de nossos desejos, não nomeamos, não temos uma visão clara de nossos objetos de atração.

As formas como essa “descoberta” da sexualidade pode se dar é bastante variada. Os “jogos homossexuais” de sedução podem acontecer na adolescência, sem que, necessariamente, a pessoa se descubra ou se torne gay posteriormente. A adolescência tende a ser uma fase de experimentação, de curiosidade, e não é raro que meninos e meninas se iniciem sexualmente com amigos e amigas do mesmo sexo. Porém, quando o desejo se torna presente, quando a brincadeira se torna algo sério, se converte em necessidade, pode, o jogo sexual, passar a ser um divisor de águas na definição da orientação sexual do jovem. O que, na maioria das vezes, é vivenciado com dúvidas, medos, conflitos e sentimentos de culpa e remorso.

É possível também que essas experiências iniciais, realizadas na adolescência, só sejam significadas a posteriori, em outro contexto, quando o sujeito tem outra consciência de si mesmo, de seu corpo e de seus desejos. Às vezes é importante respeitar seu próprio tempo, os limites da maturação (e maturidade), de consolidação da personalidade e da formação de visão de mundo mais estável e constante – a personalidade. Para alguns, a descoberta se dá através de uma brincadeira gostosa, para outros, é um processo longo e doloroso, que se dá a curtos passos, por meio de conquistas árduas, conflitos e batalhas cotidianas, consigo mesmo e com aqueles que estão a nossa volta.

Talvez essas batalhas a serem vencidas, esses encontros e desencontros necessários, essa “abertura e fechamento de questões inacabadas”, nem sejam tão “bélicos”, quanto se imagina. Mas, na fantasia do jovem homossexual, ainda são passos imensos a serem dados, precisando de tempo e amadurecimento, de maior independência, da aquisição de “forças internas” ou de um “contexto” favoráveis e necessários para o enfrentamento. O “necessário” é variável e é preciso estar atento a cada circunstância, a cada oportunidade e a cada sensação que sentimos em nós mesmos – sinais que podem orientar nossas escolhas e ações.

Considerações sobre o filme “Delicada Atração”

Delicada Atração

Assisti recentemente ao filme “Delicada Atração”. O filme traz a história da descoberta da sexualidade de dois garotos que viviam em um bairro periférico da Inglaterra, esboçando os conflitos em relação aos papéis sociais esperados dentro de uma heteronormatividade, os tabus familiares e da comunidade.

Steve (ou Stea) é um adolescente que foge da aula de educação física, por não gostar de praticar esportes. É filho de Sally, uma garçonete, mãe solteira, de 35 anos, que tem relacionamentos pouco duradouros e, atualmente mora com um homem 8 anos mais novo que ela. Segundo Steve, os homens com quem Sally se relaciona são usados por ela.

Steve tem dois visinhos: Leah, uma garota negra fã de Mama Cass, que mora com a avó e Jamie, colega de escola de Steve, que mora com um pai bêbado e com o irmão mais velho que batem nele frequentemente. Entre Steve e Jamie inicia-se um movimento de aproximação, a partir do convívio na escola e do acolhimento de Jamie por Sally, após ele sofrer violência do pai e irmão. Ao contrário de Steve, Jamie é integrado ao grupo de colegas que participa da aula de educação física.

Uma noite, após sofrer violência do pai, Jamie vai para a casa de Steve e eles dormem juntos, dividindo a mesma cama. Steve vê as marcas deixadas pelas surras do pai de Jamie em seu corpo, e cuida dele, passando-lhe um creme nas costas. Nesse momento de toque, Jamie fica excitado com as carícias. Steve, que aparentemente já tinha consciência de sua atração por meninos – e pelo Jamie – pergunta-lhe se já beijou alguma vez na boca. Jamie responde que não, por “ter se tornado feio”, devido às violências sofridas dentro de casa. Nesta noite eles dormem juntos, e iniciam um movimento de maior envolvimento e apaixonamento.

Jamie entre num movimento inicial de recusa e evitação da relação amorosa com Steve, por não compreender seus sentimentos e sensações e por isso ir de encontro às expectativas sociais de masculinidade e da heterossexualidade. Não consegue se ver como um gay, uma bicha. Steve, por sua vez, se aproxima mais facilmente dessa construção de identidade, buscando informações em revistas gays, buscando adentrar nesse mundo, e, mostrando para Jamie essa possibilidade de existência.

Vão a um bar gay, onde são aceitos e acolhidos, encontrando um espaço de legitimação de sua orientação sexual.

Ao longo desse processo, Sally, a mãe de Steve, é informada por Leah da relação entre ele e Jamie e de que o filho sofre preconceito na escola, sendo vítima de xingamentos e violência física. Num primeiro momento, Sally não sabe como lidar com a situação. Segue o filho e o vê entrando no bar gay, e quando ele chega em casa, confronta-o.

A relação entre Sally e Steve se mostra ambivalente. Sally não manifesta carinho pelo filho, embrutecida pela vida, não tendo referenciais de maternidade, por ter sido abandonada desde cedo pela mãe. Ao mesmo tempo, percebe forte identificação com o filho, “esquisito”, diferente dos outros garotos. Na conversa que é travada entre eles, Steve antecipa os possíveis medos e fantasias da mãe, sobre o risco de contrair AIDS, a crença de que aquele momento é só uma “fase”. Sally admite que o filho a conhece muito bem.

A partir desse ponto o filme se desenrola em direção ao desfecho. Sally encontra um novo emprego, e têm expectativas de sair do bairro em que vivem, em direção a uma nova vida. Steve e Jamie assumem publicamente seu relacionamento e dançam na rua, com símbolo do “sair do armário”. Sally acolhe – após um choque inicial – e entra na dança, despindo-se da dura couraça da mulher lutadora, e entregando-se a um momento de leveza, na dança com Leah. Nesta última cena, toda a comunidade em volta observa e reage de formas diversas, com choque, espanto ou cumplicidade.

Após esse breve resumo da história, é possível destacar alguns aspectos dignos de análise:

1) O contexto familiar do jovem homossexual

Um dos pontos muito discutidos após o filme foi o contexto que favoreceria a emergência do jovem homossexual. Famílias desestruturadas, com a ausência de uma das figuras parentais, a violência doméstica e a carência afetiva. Às vezes existe de fato essa “desestruturação”, por as famílias não se organizarem mais segundo um ideal de família nuclear burguesa, por os casais se dissolverem, e haver rotatividade de parceiros, pelos pais, porém isso não determina a homossexualidade, embora faça parte do campo em que o sujeito está inserido e constitui sua personalidade.

Não é possível desprezar o contexto familiar do qual o sujeito fez ou faz parte. A homossexualidade é um fenômeno de origem multifatorial, multideterminada, e todos os fatores constituintes da história de vida do sujeito, quando temos acesso a eles, precisam ser levados em consideração para a compreensão do sujeito atual, em sua totalidade. Olhar para o contexto é indispensável para a compreensão do sujeito enquanto interação organismo-meio, contextualizado no tempo-espaço. O sujeito, a pessoa, não é uma abstração, mas uma relação de contato constante, integrando, assimilando e selecionando a cada momento os elementos que irão constituir sua personalidade, seu self.

2) O estereótipo dos papéis sociais (e sexuais) esperados do homem

Representado pelo jogo de futebol e pelas expectativas da mãe quando a filho participar de “atividades de meninos”, as representações sociais sobre os papéis sociais, sexuais e de gênero, se mostram como elementos importantes na constituição da pessoa, desde o momento em que nasce e é incorporado à cultura.

Tais representações, introjetadas pelo sujeito na constituição de sua personalidade, posteriormente se torna fatores de conflito interno da pessoa, ao descobrir-se homossexual, ao descobrir-se atraído por uma pessoa do mesmo sexo, não sendo possível responder às expectativas sociais do que se tem como “normal”. O confronto com essas representações, põe em choque o “ser gay”, “ser bicha” e outras expressões marcadas por forte preconceito e difíceis de serem integradas sem conflito. O sujeito entre em crise, no embate consigo mesmo e com a sociedade.

3) As estratégias adotadas por uma mãe solteira para cuidar sozinha de um filho

Não é incomum que mães solteiras, como a Sally, tenham múltiplos parceiros. Por vezes isso se constitui uma estratégia de sobrevivência, diante de dificuldades reais de manutenção de si mesmo e dos filhos. Uma mãe solteira ainda hoje sofre estigmas por não ter um marido, uma figura masculina que lhe sirva de proteção e de referência para os filhos. Principalmente em meios sociais de baixa renda, ter um companheiro – por pior que ele seja – representa segurança e respeito diante da comunidade. Às vezes as relações – que espera-se idealmente seja regida pelo amor e por sentimentos elevados e “transcendentes” – se dão por questões utilitárias, por questões econômicas ou pela esperança de se ter um pouco mais de segurança, ao ter uma figura masculina presente. Não é incomum que mulheres fortes e independentes se submetam a relações conflituosas com companheiros, pela necessidade de se ter um companheiro, alguém a quem se possa dizer “é meu marido, meu homem”.

Por outro lado, o cuidar sozinha de um filho, repercute de diversas formas sobre a subjetividade da mãe solteira, que se vê tendo que adotar os dois papéis parentais – de mãe e pai – às vezes se embrutecendo, deixando em segundo plano a dimensão feminina, da sexualidade e da busca pelo amor e a felicidade. Ser mãe passa a ser o elemento identitário mais pregnante, a “figura” principal constituinte de sua personadidade.

4) O preconceito e a violência (homofobia) vivenciada na escola

Desde muito cedo o jovem homossexual é vítima de preconceito, ao não se adequar a todos os papéis esperados pela heteronormatividade. Não é incomum que um jovem mais quieto, que não gosta de esportes, que não se aventura na conquista de meninas, seja desde cedo discriminado e vitimado por violências verbais e até físicas.

A presença de uma educação sexual mais abrangente nas escolas, que levasse em consideração a homossexualidade com uma outra possibilidade de vivência da sexualidade, descaracterizada de estereótipos negativos, seria uma alternativa necessária para reconfigurar as relações estabelecidas no contexto escolar – um dos principais contextos de socialização, de consolidação de valores, de formação de opinião e de identidade.

5) A vivencia em comunidade, o público e o privado interferindo nas relações interpessoais e no processo de vivência e afirmação da homossexualidade

Ao olhar novamente para o contexto em que o sujeito se insere, numa perspectiva mais ampla, englobando a comunidade – o prédio, a rua, o bairro, a cidade… – podemos intuir as diversas micro-relações de poder que se estabelecem. Um contexto mais amplo, que interfere na constituição do sujeito de forma subliminar, ao mesmo tempo em que defronta-o cotidianamente em situações de conflito com o outro, de choque ou de confirmação.

O bairro em que o Steve morava era um bairro periférico, de população negra, suburbana, com imigrantes indianos (a professora de educação física) e de outras nacionalidades, etnias e religiões. Um contexto complexo, heterogêneo, propiciador de situações de conflito e, ao mesmo tempo, relativizadora de “verdades”. No contexto mais próximo, do prédio, percebemos intrigas, conflitos entre visinhos, em que a vida privada é partilhada por todos, pelas “paredes finas” que dividem os apartamentos e pelos corredores, onde cada um atua como atores na trama cotidiana.

Conflitos entre Sally e Leah, por exemplo, em torno do papel e do valor da mulher, mostra perspectivas distintas sobre a sexualidade feminina, trazendo representações sociais do que seria uma “mulher decente” e uma “mulherzinha”. Questões como a rotatividade de parceiros, os amores entre visinhos, a descoberta da sexualidade, o aborto, tudo é discutino nas tramas sutis que se dão nas fofocas, nas ofensas, nos chistes. Esse é o palco da vida cotidiana e do senso comum, em que a vida é vivida de forma real, sem mascaramentos.

Neste contexto, também a homossexualidade é posta em cena, encenada, dramatizada, interpretada, submetida a avaliações do público, submetida a críticas, atravessadas por valores morais, por estereótipos, pelo senso comum – comunitário.

6) A iniciação sexual na adolescência

Representada tanto pelo casal Steve e Jamie, quanto por Leah e pelas meninas da festa em que participam, o filme traz de forma clara a “ebulição” que se dão na adolescência em torno da descoberta e experimentação da sexualidade. Podendo ser vivida com euforia, no movimento de busca insaciável pela experimentação, pela procura por parceiros, por beijos e transas, ou de forma mais retraída, cheia de dúvidas, com passos inseguros, temerosos, cheios de prudência. Nesse ponto, a sexualidade é vivenciada de forma paradoxal, variando as vivência de acordo com cada pessoa, com os contextos e oportunidades que surgem, em ritmos e tempos diferentes.

Steve traz um elemento a mais: a busca por informação através de veículos de comunicação (filmes, revistas), que podem funcionar como meios de orientação para a sexualidade, dando pistas e discas sobre os caminhos. Um contexto mais amplo, da cultura, que interfere na construção da identidade e da orientação sexual, através da construção e disseminação de discursos – canônicos ou de desconstrução da norma.

7) Os guetos como ambiente de socialização e de legitimação da homossexualidade

O bar gay em que Steve e Jamie foram pode ser visto como um gueto – um espaço social em que a homossexualidade é permitida e legitimada, diferentemente do contexto mais amplo da sociedade, que segue modelos e valores heteronormativos. No bar gay se experimenta a diversidade, a multiplicidade de manifestações e performances – gays, lésbicas, travestis, bissexuais, etc, todos tem seu espaço, sendo vistos e apreciados em suas diferenças. Os guetos aparecem como território aliado, espaço de vivência autêntica e espontânea, em que é possível viver papéis e fantasia, onde se pode ser a si mesmo ou travestir-se para o outro, nas conquistas, nas brincadeiras e nos encontros entre pessoas.

8) O confrontamento com a família – contar para os pais que se é gay. O movimento de choque e assimilação pela família do filho gay

Nos conflitos entre Steve e Sally e entre Jamie e o pai, se dá várias facetas que estão por trás do assumir-se gay diante da família. A família em geral é vista como a matriz primeira de socialização e construção de identidade. Assumir-se gay é confrontar-se com as expectativas dos pais sobre os filhos, as crenças sobre o que é certo e errado, o mitos e estereótipos que perpassam a fantasia dos pais sobre o que é homossexualidade. Ao mesmo tempo, essa questão transcende apenas a esfera da homossexualidade. Falar sobre sexo é um tabu familiar. Em geral, pouco se fala sobre o tema, e quando se fala, se reproduz representações e estereótipos, ou se restringe a orientações de como se deve prevenir contra gravidez, doenças sexualmente transmissíveis, etc.

No caso de Sally, esta já sofrido com preconceitos e dificuldades, por ser mãe solteira, por ter de cuidar sozinha do filho, por ter vários parceiros. Defrontar-se com a homossexualidade do filho era mais um estigma a ser enfrentado, mais uma batalha a ser travada, consigo e diante da sociedade. Ao mesmo tempo em que entra em crise, em conflito e desorientação, ela também abre um espaço para o acolhimento, o diálogo, a troca. Ela se transforma nesse contato com o filho, se desarma, ressignifica a si mesmo, encarna outro papel e pode experimentar a dança.

No caso de Jamie com o pai e o irmão, “ser gay” passa a ser uma questão muito mais difícil de ser encarada a admitida. Ser gay, num primeiro momento, pode significar ser fraco, não se homem, ser mais suceptível à violência e ao despreso. Suas experiências de sofrimento tornaram-no rígido – o que se traduz na sua forma de vestir, em sua postura, em sua expressão facial. Experimentar contato com o outro, com Steve, é vivenciar um outro lado, que não o da dor. E ele só consegue se entregar à essa experiência quando ressignifica a figura do pai, ao vê-lo não mais como uma figura de força, temida e respeitada, mas como um estorvo, um bêbado, jogado na sargeta.

É inegável, a meu ver, os diferentes papeis exercidos pelos pais no processo de afirmação da homossexualidade.

9) O “sair do armário”, a afirmação social do “ser gay”

O “sair do armário” num contexto mais amplo, como assumir e encarnar o papel num contexto mais amplo se dá, no filme, com o caminhar de mãos dadas e dançar no meio da rua. Metaforicamente, a cena final do filme, traz a questão da “visibilidade” gay, do mostrar-se, do assumir publicamente, o que para muitos é algo absolutamente necessário, para se reivindicar direitos, ser reconhecido e respeitado, confirmado.

Esse movimento de sair do armário, no entanto, me parece como um dos últimos passos no processo de aceitação de si mesmo e de integração da identidade homossexual. É o desfecho do filme, o ponto ápice, a partir do qual irá se desdobrar outro enredo imprevisível. Mostrar-se é um exercício de liberdade, é sustentar uma escolha e responsabilizar-se por ela, é ter consciência de si e de que, na visibilidade, é visto, apreciado e avaliado pelo olhar do outro, porém de um outro ponto, do ponto de quem afirma a si mesmo com EU, podendo confrontar-se e negociar diretamente com o outro.

Essas foram as minhas impressões sobre o filme. Acredito que haja muitos outros pontos ainda que podem ser vistos e trabalhados. Cada personagem é construído de forma complexa e densa, cheios de faces, tensões e paradoxos.

Creio que o que se torna elemento fundamental dessa análise é a tentativa de se compreender a história a partir de vários pontos, levando em consideração os diversos elementos que constituem o todo o filme. Os múltiplos contextos (casa, escola, prédio, bairro, bar gay), o diversos níveis (individual, familiar, comunitário e cultural), que fazem parte do campo psicológico, do espaço vital de cada personagem. A construção das subjetividades se dá nas trocas, nas relações intersubjetivas, no trânsito de signos e representações, na emergência e descoberta de necessidades, nas múltiplas determinações da sexualidade vivida cotidianamente, a cada momento.

Beijos, Carícias, Guetos e Lugares Públicos

Aqui em Salvador ainda é raro ver casais gays beijando em público e fazendo carícias, segurando as mãos, caminhando com os braços em volta da cintura do/as companheiro/as, mexendo nos cabelos do outro, olhando nos olhos… Quando vejo algo parecido sinto uma felicidade enorme, sinto que as coisas estão mudando, que essa nova geração está se criando com mais autonomia e espontaneidade, com menos medos.
Há sempre o risco de agressões e manifestações de homofobia. Muitas vezes é isso o que nos paralisa. Penso nos manejos do controle sutil da nossa sociedade. Deixamos de fazer as coisas, de expressar nosso amor e nosso carinho por medo de um fantasma sutil e implícito que não necessariamente existe de forma tão imediata. Embora agressões existam, elas não me parecem sistemáticas. Segurar a mão do/a namorado/a não necessariamente terá como conseqüência um xingamento ou uma agressão física.
Algumas vezes já presenciei coisas curiosas. Um dia dois amigos estavam caminhando pela Barra de mãos dadas, próximo aos bares que ficam no entorno do farol. As pessoas que estavam nos bares olharam com curiosidade, certo estranhamento, e riam. O rir pode parecer para alguns como uma resposta homofóbica, mas pode também ser uma reação diante do estranho, do novo, do que foge ao convencional. Sabe aquela risada nervosa de quando não sabemos ao certo como nos comportarmos numa situação nova? Pois é isso! Ver casais gays em público é estranho, por ser pouco comum, pelo simples fato de os gays não tornarem explicitas suas carícias.
Sou jovem. Tenho 22 anos. Convivo com gays de outras faixas de idade e é evidente os diferentes comportamentos. Creio que provavelmente sou muito mais conservador e temeroso em expressar meus afetos que um jovem gay de 15, 17 anos. Ao mesmo tempo em que me vejo menos contido que outros de 30, 35 anos. Talvez seja o “choque” de gerações. As mudanças sociais vem ocorrendo de forma muito rápida. Acredito que a sociedade está mudando, tanto por uma maior consciência e aceitação da diferença como por os gays estarem se mostrando mais.
Mostrar-se, tornar-se visível, entrar em cena, ao meu ver não tem nada a ver com militância, mas com atitude cotidiana. É caminhar pelas ruas como qualquer um, fazer o que qualquer pessoa faz, sem que o ser homossexual seja, necessariamente, um elemento primordial e definidor de atitudes. Ao meu ver, temos mais estranhamento sobre nós mesmos que os outros de nós. Idealizamos nossa auto-imagem e a partir dela nos comportamos. Agimos de acordo com nossas expectativas. Se esperamos sofrer agressões, agiremos de tal forma a nos protegermos o máximo possível delas, às vezes reprimindo nossos desejos e ansiedades, às vezes nos arriscando mais do que o necessário.
Os guetos – bares e becos GLS – nos parecem os locais mais seguros para demonstrar nossos afetos e carícias. Nos sentimos protegidos o meio de outros “iguais” a nós. Alguns freqüentam saunas por ser um local aparentemente em que o anonimato é garantido. Me pergunto se isso não é uma ilusão que construímos para nós mesmos.
Posso freqüentar bares, teatros, museus, cinema, praias, ruas, shopping centers, barzinhos como qualquer pessoa. Minha sexualidade não será o meu elemento definidor. Posso ser um transeunte, um consumidor, um sujeito, em todos esses contextos sem, necessariamente, se vítima de violência. Violência existe em qualquer lugar, e podemos ser vítima dela a qualquer momento sem, necessariamente que algo específico como nossa sexualidade seja elemento definidor e mais relevante.
Não quero dizer com isso que não existe homofobia e crimes contra homossexuais. Existe! Existe cotidianamente. E, creio eu, existe muito mais em nossos locais seguros, em nossas casas, nos nossos empregos, na faculdade, entre colegas, amigos e familiares, e entre nós mesmos. Somos nós mesmos, homofóbicos e preconceituosos. Olhamos para o “estranho” que existe no outro, rimos e sentimos desconforto, criticamos os excessos, o espalhafato, o estereótipo que, nós mesmos, rejeitamos em nós. Criamos nossos limites invisíveis e nos violentamos pela não aceitação de nós mesmos, de nossa forma de ser e sentir.
Sinto um grande carinho por quem eu amo. Nem sempre expressamos isso em público. Mas caminhamos lado a lado, olhamos nos olhos, almoçamos e tomamos sorvete juntos, vamos ao cinema, caminhamos pela cidade, um do lado do outro. Caminhar lado a lado é manifestação de afeto e intimidade. Às vezes nos tocamos nesse caminhar. Às vezes fazemos carícias. E o mais importante é não pensar sobre o que estamos fazendo, se, como, onde ou quando estamos fazendo. O importante é ser nós mesmos nesse caminhar e ter cuidado para não deixar que nossas fantasias e medos se realizem por torná-las mais reais do que são.

No entorno da criança intersexual

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Durante cerca de um ano e meio participei de um grupo de pesquisa da UFBA sobre o tema da maternidade. Uma das mestrandas do grupo era psicóloga de um centro de referência em intersexualidade que funciona no Hospital das Clínicas – HUPES. Nas nossas discussões, a partir das entrevistas realizadas com as mães e avós de crianças intersexuais se evidenciava as angústias e incertezas vividas por familiares e profissionais para se determinar qual o sexo da criança.

Geralmente associado a questões genéticas, a intersexualidade está ligada à má formação das genitálias masculina ou feminina da criança. O problema maior é que, logo que a criança nasce esta é registrada em cartório com nome de menino ou menina, a depender do sexo biológico evidente.

Um recurso que pode ser realizado para se determinar o sexo da criança seria a investigação do genótipo, para se detectar se a criança é XX ou XY. Entretanto, a intersexualidade muitas vezes pode estar relacionada a síndromes genéticas que transcendem a questão fenotípica, sem contar que, o acesso aos testes genéticos são restritos e não é prática difundida, principalmente no interior, onde a definição do sexo da criança se dá de forma aleatória.

Por se tratar de genitália ambígua, dizer se é menino ou menina é um impasse para todos – família e profissional de saúde. Às vezes a má formação das genitálias requer a realização de cirurgia de correção imediata, com fins anatômico-funcionais e estéticos, porém nem sempre o resultado é satisfatório.

Vem se discutindo as implicações éticas dessas cirurgias de correção de sexo, levando-se em consideração que, atualmente, a genitália não é o elemento fundamental para se determinar o sexo e, principalmente, a orientação sexual do indivíduo. As discussões sobre os/as transexuais é um do exemplos desse impasse.

Alguns são a favor de que seja realizada uma primeira cirurgia na infância e que a cirurgia definitiva se dê na adolescência, quando se pressupõe que o sexo do sujeito esteja definido. O que acontece, no entanto, é que muito dessa definição sexual se dá pela socialização, em que papéis sociais que diferenciam “menino” e “menina” são transmitidos e interiorizados.

Além da nossa constituição – e “determinação” – genética, somos principalmente seres sociais e nossa identidade se constitui nas relações estabelecidas com os diversos papéis que nos são apresentados. A família se constitui a matriz de formação desse elementos identitários, e a definição do sexo é um dos primeiros elementos que perpassam essa formação. O não saber sobre o sexo da criança implica num não saber sobre o sujeito que acaba de vir ao mundo. Este acaba ficando no limbo, podendo ser estigmatizado desde cedo.

Tanto a família como a criança sofrem pressões sociais e são submetidos a julgamentos. A mãe se culpa por ter gerado uma criança “defeituosa”, quando a questão não envereda pelo campo da crença, quando associada a punições divinas, a possessões demoníacas, ao mal olhado, e outras tantas possíveis explicações mágicas sobre o fenômeno.

É neste momento que a ciência é chamada a dar seu parecer. Médicos, psicólogos, educadores acabam sendo interlocutores importantes da família, co-responsáveis pelos caminhos de formação dessa criança. É importante acompanhar o desenvolvimento dessas crianças não como meros objetos de estudo científico, mas como sujeitos plenos de direitos que precisam ser integralmente respeitados na sua condição de humano e cidadão. Definições identitárias, por mais que convencionalmente sejam ainda necessárias, também precisam ser (re)pensadas, para que possamos construir, no futuro, uma sociedade capaz de integrar as diversas manifestações da natureza, no humano.

Amor e (homo) sexualidade: casamento, parcerias, relacionamentos e homoparentalidade

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O relacionamento homossexual foi por muito tempo estigmatizado, tanto por hetero como por homossexuais.

Para muitos heterossexuais, a vivência da sexualidade homossexual é/era vista como promíscua, marcada pela grande rotatividade de parceiros, por práticas livres e descomprometidas de sexo com múltiplos parceiros.

Essa imagem, creio eu, está provavelmente associada ao movimento de liberação sexual vivido intensamente na década de 60, tendo suas repercussões negativas acentuadas pelo surgimento da AIDS, e pela associação do grupo gay no chamado “grupo de risco”, sendo a AIDS a “Praga Gay”.

Nos últimos 20 anos, com a propagação da AIDS a outros grupos sociais, incluído as “mulheres casadas e monogâmicas”, deixou-se de falar em grupo de risco, passando a enfocar os comportamentos de risco, como transar sem camisinha e o uso de drogas injetáveis. Durante esse período, os grupos GLBTT vem militado do sentido da conscientização da sociedade, atuando em campanhas pelo uso da camisinha e orientação sexual.

No entanto, a representação social da sexualidade homossexual continua, ainda sendo associada à promiscuidade, irresponsabilidade, grande rotatividade de parceiros, por práticas livres e descomprometidas de sexo, inclusive dentre os homossexuais.

Muitas lésbicas criticam os gays pela falta de estabilidade nas relações, pelo comportamento de “caça” masculino e machista, pela irresponsabilidade e pela fugacidade com que lidam com o sexo e os relacionamentos a dois.

Muitos gays vêem as lésbicas como ciumentas, possessivas e soltam piadas de que, no segundo encontro, duas lésbicas já pegam as malas e vão morar juntas.

Além disso, associa-se as travestis a imagens de submissão, sempre mantendo relacionamentos desiguais, em que elas sustentam gigolôs e sofrem violência deles, menosprezando a possibilidade de vivência de um relacionamento constituído a partir do amor.

Todas essas perspectivas e representações podem, de fato, ocorrer com certa freqüencia, não sendo de todo inverdades. No entanto, não creio que devem ser as únicas representações e vivências possíveis de relação amorosa.

Nos anos, e principalmente, nos últimos meses, com a realização das conferências GLBTT no Brasil, vem sendo discutido de forma mais efetiva questões como o casamento gay e a homoparentalidade. Tais temas demonstram uma preocupação tanto no sentido da igualdade de direitos, como na mudança de postura, e de representação social sobre o que os homossexuais compreendem, vivenciam e desejam, como relacionamento a dois e como constituição de família.

Desde sempre já existem casais que moram e convivem de forma estável e duradoura, que criam filhos e constituem famílias. As organizações às vezes variam, não seguindo necessariamente o modelo heterossexual, com divisão de papéis sexuais bem estabelecidos, em que um dos pares adota o papel masculino e ativo, e outro adota o papel feminino, materno e submisso, voltado para o cuidado do lar e dos filhos.

Vivemos numa sociedade cada vez mais complexa, em que o casal tem, igualmente, que trabalhar fora de casa, e, as posições sexuais passivo-ativo não necessariamente condizem com uma prática real, configurando-se muito mais como um mito ou como mais uma representação social culturalmente construída.

A própria instituição da família, que foi por muito tempo criticada, questionada e descaracterizada como uma importante matriz de constituição social, vem, neste movimento, sendo resgatada, a partir de uma outra configuração, mais flexível, baseada no desejo de uma estabilidade não aprisionante, construída a partir do desejo de viver um relacionamento baseado na aposta no amor e no companheirismo e sustentado pelo desejo de desfrutar igualmente dos direitos usufruídos pelos heterossexuais.

O casamento gay aparece então, tanto como um símbolo de legitimação do relacionamento homossexual, na tentativa de desconstruir estigmas e preconceitos, como para garantir direitos civis, como o benefício social da aposentadoria-pensão, da propriedade, de seguros de vida, além do direito da adoção homoparental.

Durante muito tempo os casais homossexuais vêm sendo denominados como “parceiros” ou “companheiros”, e não vistos como um “casal”. Essa idéia de parceria às vezes é sentida com certo incomodo, como se fosse inferior ao “casal” que se constituiria com o casamento, como se fossem menos válidos, pouco dignos de respeito e credibilidade. No entanto, pensar um relacionamento sem parceria, sem companheirismo e sem cumplicidade pode ser, isso sim, a descaracterização dos valores que, efetivamente, deveria significar a união a dois, seja homo, seja heterossexual.

Caímos, então, no ponto crítico e polêmico dos valores. Valores que atravessam todo esse meu texto. Num mundo em que a idéia de valor e ética são postos em dúvida, nos vemos num movimento, creio eu, de transfiguração, de transvaloração, e, principalmente de resgate. Resgate do humano, transcendendo estigmas, dirigidos à utopia de uma sociedade e um mundo de igualdade a partir da integração da diversidade.

Sobre a (in)visibilidade gay na sociedade do consumo e do espetáculo

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Ontem houve a parada do orgulho gay em Salvador. Não compareci a ela. Não sei ao certo o motivo de não tê-lo feito. Poderia rascunhar algumas razões, tentar racionalizar sobre o tema, ou simplesmente levar para terapia. Por que precisamos ir para as paradas? Deixo essa questão em aberto.

Ao mesmo tempo, deitado a poucos minutos em minha cama, pronto para dormir, me vieram lapsos de idéias que considero importantes de serem discutidas. O primeiro se trata da visibilidade gay. Participar de paradas significa, em parte, dar visibilidade, dentro da sociedade, da existência da homossexualidade, transexualidade, das travestis, e de toda essa diversidade de manifestações e expressões do humano.

As paradas tem um objetivo político, de ocupação do espaço público e da afirmação de identidades múltiplas, de luta pela conquista de direitos, da crítica à homofobia e à indiferença à singularidade humana. Essa é, a meu ver, o sentido radical da existência das paradas.

Por outro lado, vejo uma certa confusão e banalização do evento, muitas vezes desvirtuado e associado ao carnaval. Já obtive relatos de pessoas que participaram da parada de São Paulo, por exemplo, este ano, que presenciaram situações de assédio sexual e violência, com forte teor de homofobia, por pessoas que compreendiam – miseravelmente – que a parada era uma grande festa em que ninguém era de ninguém.

Assim, não me parece de todo inverdade minha percepção de que a parada, que antes se configurava como um momento de ruptura, de estranhamento – queer – de transgressão, passa a se tornar produto, objeto de venda, impregnando-se de interesses comerciais. Curiosamente, dias antes da parada, vi duas pessoas no ponto de ônibus em frente ao Hotel Othon, vindos de um congresso sobre turismo GLS, em que havia estampado numa pasta em preto a frase “Eu amo viajar”, tendo o “amo” a forma de um coração com as cores do arco-íris.

Por um lado, essa iniciativa pode ser vista com bons olhos, como um avanço sobre os direitos GLBTT, ao ser incluído um serviço diferenciado voltado este público. Por outro lado me causa certo estranhamento, pois o bom atendimento nos serviços de hotelaria e turismo que deveria ser natural para todos, independente de cor, gênero e orientação sexual, passa a se dar a partir de uma discriminação de um público “consumidor”. Qual é o foco: o bom atendimento do cidadão ou o gay que tem dinheiro e pode consumir?

(Sem contar que nem sempre aquele que serve, necessariamente, deixa de ter seus preconceitos revistos e passa a respeitar autenticamente o gay em sua diferença).

Incomoda-me ser visto como um consumidor em potencial, e não como um humano como qualquer outro. Seria ingenuidade, no entanto, pensar que é possível que as coisas se dêem de forma diferente numa sociedade capitalista, em que tudo se converte em produto e consumo.

Outro aspecto que me incomoda e me põe a refletir é a inserção de personagens gays em novelas da TV. Lembra-me muito o caminho percorrido pelo movimento negro, em que passou a existir cotas, x% de representantes negros entre os personagens das novelas, nas propagandas de televisão. Agora vemos cotas para gays nas novelas, oras expressando a diversidade do fenômeno, oras reproduzindo estereótipos, mas nem sempre aprofundando temas verdadeiramente relevantes, tangenciados apenas, ensaiados e não exibidos.

E, novamente, há por traz os interesses e a lógica do mercado, da importância, nos meios de comunicação de massa, de se criar uma marca, um rótulo que atraia um público consumidor “G”.

Fico me perguntando com meus botões: de que vale essa visibilidade? Ela realmente traz consigo um movimento de desvelamento ou é encobridora? O lado que se revela, encobre o, que em sua aparição? E, principalmente, o que tudo isso me espelha, me reflete e me projeta, me faz pensar sobre minha própria condição?

Em que o meu revelar, o meu tornar-me visível, faz de mim diferente, muda verdadeiramente minha condição perante a sociedade? Sou, em meu revelar, verdadeiramente aceito e respeitado, ou sou concebido como aquele que, apesar de tudo, sou apenas consumidor, consumido na engrenagem da máquina do capital. E, neste revelar, me singularizo ou mergulho na massa? Sou humano, converto-me em humano, ou me (des)humanizo? O que tudo isso significa afinal, o que me significa?

Penso se posso ser estranho em minha singularidade, não sendo nada e sendo eu mesmo. Não me parece absurdo pensar isso! Creio mesmo que seja bastante queer. Não ser nada e ser tudo. Mostrar-me e/ou esconder-me, revelar e ocultar, transitar pelos espaços no espaço invisível da singularidade, no anonimato daquele que simplesmente é, em si, único. Não sei se isso é possível, nem impossível.

Posso caminhar na multidão? Posso ser, sozinho, multidão?

O Armário: como e quando sair dele

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A metáfora do armário já é mais do que conhecida no meio GLBT, mas seus significados, a meu ver, podem ser os mais diversos. Em geral, significar se assumir como homossexual, mas isso muitas é por demais complexo. O que é se assumir? Como se assumir? Que comportamentos podem servir como medida para que se possa afirmar que um gay é assumido.

Já travei debates acalourados sobre o assunto. Minha própria experiência e contatos com outras pessoas me mostram que a questão não é simples. O primeiro passo, geralmente, é o de contar para os pais e familiares mais próximos. O que é, desde o começo, um investimento muito grande devido ao medo de ser rejeitado, de ser expulso de casa, de ser renegado à condição de “ovelha negra” na família. Para muitos, assumir tais “riscos” é insuportável, devido aos vínculos de dependência emocional e financeiro em relação aos pais.

Para um adolescente gay, por exemplo, assumir-se para a família – a depender do tipo de formação moral, valores e postura adotada por ela – pode ser por demais difícil, pois implica muitas vezes em sofrer o preconceito dos pais e irmãos, sendo vítima de violência moral ou física, podendo até mesmo ser expulso de casa e passar por maus bocados. Situações como essas não são raras, sendo, infelizmente, mas comum do que imaginamos e um dos principais medos do jovem gay, afinal não podemos deixar de considerar que a família se constitui no primeiro e principal contexto de socialização do indivíduo, onde introjetamos nossos valores e adquirimos os nossos primeiros papéis sociais e repertórios identitários.

Se opor à família pode significar, muitas vezes, separar-se de uma parte de si mesmo, enlutar-se, morrer e renascer das cinzas. O que para alguns pode ser uma vitória, uma carta de alforria, assumir o rumo de suas próprias vidas, para outros pode causar uma dor muito grande, insuportável, que leva a depressão e a atos de auto-destruição, como o suicídio. Negar-se a si mesmo, no entanto, pode ter os mesmo efeitos negativos sobre si.

Na escola, também, desde cedo os jovens gays são submetidos a modelos de gênero. Meninos e meninas são separados e cada um aprende a assumir certos papéis sexuais. O que é ensinado em casa, na escola é sedimentado. Na aula de educação física, meninas jogam vôlei e baleado e meninos jogam futebol. Principalmente na adolescência, há a pressão de assumir certos comportamentos sexuais. As paqueras começam a rolar, o desejo, o interesse pelo amiguinho ou amiguinha. Na adolescência se experimenta. Mas “assumir” o próprio desejo, ainda tão incerto, indefinido, é difícil, pois o tempo inteiro os colegas soltam piadas, há a fofoca do banheiro e do corredor: “Fulano pegou cicrana”, “Mariazinha te de olho em Joãozinho”, “Acho que Pedrinho é gay, pois não joga futebol!”, “Joaninha é sapata, tava de pegação no banheiro!”.

Nesse primeiro momento enfoco a família e a escola, pois são nossas matrizes e os primeiros contextos de socialização. As experiências que travamos nesses contextos deixam marcas permanentes em nossa história de vida, marcas essas que podem causar impactos enormes no amadurecimento emocional, nas estratégias futuras de enfrentamento em outros contextos interacionais.

Já conheci gays que aos 30 anos ainda não tinham contado para os pais que são gays. Outros, tiveram a coragem de contar para os pais na adolescência e foram expulsos de casa ainda cursando o segundo grau, tendo de abandonar ou postergar os sonhos de fazer medicina. Outro, na mesma situação, saiu de casa e entrou para a prostituição como alternativa que lhe permitiu o sustento e a vivência da sexualidade. Tive amigos que, mesmo com o canudo universitário, sofrem preconceito em congressos e eventos científicos e temem pelo preconceito dos clientes e de colegas. Alguns são militantes e lutam pelo direito de casar, ter filhos, partilhar bens com o companheiro. Para alguns, o medo de se assumir implica na impossibilidade de viver uma vida a dois, na descrença na possibilidade de um relacionamento duradouro, com amor e respeito, mesmo mantendo ainda o sonho de um dia encontrar o par ideal partilhar a vida e a velhice.

Quando escrevo isso, penso em mim mesmo, em meus caminhos escolhidos até agora, nos medos que alimento, nos passos corajosos que dei, mesmo temeroso, na cautela de me assumir para alguns amigos e me esconder para outros, de manter minha aparente heterossexualidade, mesmo vivendo a amando outro homem. Escrever esse artigo, em si, já é um passo para fora do armário. Assinar essas palavras com meu nome é me assumir gay, ao mesmo tempo em que digo que sou homem, sou estudante, amo, sinto, desejo, trabalho, sonho e vivo. E estar com outros “iguais”, tão diferentes de mim, tão únicos, é ver que somos humanos, independente de qualquer rótulo.

O armário, como a casca de um ovo, pode nos proteger e nos assegurar a preservação de nossa própria essência humana. Às vezes precisamos nos esconder dentro dele, ficar quietinho, pensando, dormindo, sonhando. Outras vezes precisamos fazer uma faxina, jogar tudo em cima da cama, pegar as coisas velhas e sem utilidade e jogar fora. Sair e ver de fora o que somos, quem somos e como somos, com a consciência de que não somos sozinhos no mundo, e que outra pessoa também pode vir, abrir a porta do armário e adentrar nossa intimidade. Não nos tranquemos em nossos armários com cadeados. Mantenhamos eles, pois somos nós mesmos, com as portas sempre entreabertas!