About Núcleo UNISex

Núcleo Universidade da Diversidade Sexual, cujo objetivo é conhecer e reconhecer a diversidade sexual.

Quando um homossexual comete um crime

Sobre os dois rapazes gays que foram presos sob acusação de maus-tratos a uma criança, o que se sabe até agora pelas reportagens:

1) Ao contrário do que é repetido em redes sociais não são pais da criança, não adotaram a criança, nem são parentes, muito menos passaram por qualquer meio legal para obter sua guarda. Ao que parece, eles a aceitaram “para criar/cuidar”: um costume antigo e ainda comum na classe média de receber um criança de alguém sem condições para sustentá-la. Essa prática, além de ilegal, é comumente associada com alguma violência à criança por parte daqueles que a recebem (mas não vêem como filho e esperam, normalmente, uma contrapartida de trabalho infantil). Se foi este o caso, eles são apenas mais um exemplo dessa tradição com tons escravistas que é vista como ato de caridade de famílias com mais recursos (mas raramente o é).  Pode-se dizer que até demorou para que algum gay cometesse o mesmo tipo de imbecilidade historicamente repetida entre famílias heterossexuais. Afinal, orientação sexual não determina caráter nem conhecimento legal.

2) A polícia trabalha no momento com o registro de maus tratos e não de abuso sexual já que, felizmente para criança, não existe evidência que isso tenha ocorrido. Pode ter acontecido? Pode, não falta gente abjecta no mundo capaz de qualquer coisa. Mas não dá para ignorar que existe uma grande expectativa, quase uma torcida por esta hipótese. Isso porque, no que se refere a aspectos negativos, as minorias absorvem o estigma de qualquer mal exemplo, mesmo que seja um único caso contra vários positivos. A numerosa maioria dos abusos infantis é de natureza heterossexual e realizada por familiares, mas cada episódio é tratado como um evento isolado e não uma generalização sobre homens heterossexuais ou sobre a instituição familiar. Quando o criminoso coincide de ser homossexual, lésbica, negro, etc o crime é usado para estigmatizar toda comunidade (afinal não são comuns noticias que destacam: homem “branco” é suspeito, um “heterossexual” foi preso, etc.)

Quando um homossexual comete um crime, o esperado é que ocorra o mesmo quando um heterossexual comete um crime: investigação adequada, julgamento justo e aplicação da punição prescrita. A punição não é estendida a outros heterossexuais que nada tem com o episódio. Simples, mas parece difícil para homofóbicos entenderem.

Previsivelmente vemos essa notícia ser explorada por oportunistas e fundamentalistas salivando felizes em cima do sofrimento da criança. Mas, na verdade, esse episódio tem o mesmo valor que usar notícias policiais com suspeitos negros para validar teorias racistas. Ainda hoje, há quem fique muito satisfeito em usar esses dois exemplos.

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Cine PsiQueer


Nesta sexta, dia 09 de Setembro, ocorre sessão do filme “Minha Vida em Cor-de-Rosa” promovida pelo PsiQueer, na Biblioteca Pública do Estado da Bahia seguida pelo debate de tema: “Pelo direito de fechar”. Com participação de Dr. Leandro Colling e Leonardo Pires (Projeto Bafão). Entrada franca.

Cine Psiqueer: MILK

Nesta sexta, dia 12 de Agosto, ocorre o Cine Psiqueer que discute o filme “MILK – A Voz da Igualdade“.

Após a exibição do filme, será realizado um debate sobre: A política revolucionária do cotidiano com Murilo Arruda – Doutorando em Ciências Sociais pela UFBA e Paulo Duarte – Coord. Grupo Unisex. Esta atividade faz parte de um ciclo de 06 encontros. As pessoas que se inscreverem e tiverem mais de 80% de frequência nos 6 encontros, serão certificadas pelo IHAC/UFBA.

Evento: Gratuito

Inscrições pode ser feita no site PsiQueer.

Ciclo de Cine Debates: Orações para Bobby

Nesta sexta-feira, das 17:30 as 21:00, será realizada pelo IHAC/UFBA, Grupo de Estudos em Psicologia e Teoria Queer (PSIQUEER) a exibição do  filme “Orações para Bobby” seguida de uma discussão sobre Homossexualidade e Religião.

Debatedores: Gilmaro Nogueira (Psicólogo CRP 03/ 5381) e o Reverendo Bruno Almeida (Igreja Anglicana).

Este debate faz parte de um ciclo de 06 encontros mensais e será certificado pelo IHAC/UFBA.

Para receber o certificado é preciso ter frequência em pelo menos 5 dos 6 encontros.

Os encontros serão realizados toda segunda sexta feira do mês.

 

Inscrição no site: Psiqueer

O evento é gratuito Classificação; 16 anos Dúvidas: gilnog@yahoo.com.br
Realização: IHAC/UFBA, Grupo de Estudos em Psicologia e Teoria Queer (PSIQUEER) Apoios: Fundação Pedro Calmon, Conselho Regional de Psicologo (GTCH).

Lançamento do Observatório: Homofobia

Hoje, 17 de Maio, Dia Internacional de Combate a Homofobia, nós do Núcleo UNISex lançamos oficalmente a iniciativa do Observatório: Homofobia que pretende reunir um histórico dos episódios de discriminação, violência e assassinato de gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros em território nacional.

Trata-se de um site coletivo e colaborativo, onde qualquer um pode inscrever-se e enviar notificações, para manter a memória das vítimas fatais de crimes de ódio contra homossexuais, resgatar a dignidade daqueles que sofreram alguma forma de agressão ou discriminação e servir de espelho para que a sociedade brasileira perceba a situação a que submete parte de seus cidadãos.

Conheça detalhes da proposta do projeto, os critérios para submissão e faça sua inscrição para colaborar com novas notificações.

Jean Wyllys: “Sempre senti que há um propósito em minha presença neste mundo. E o propósito é fazer, dele, um lugar melhor”

Jean Wyllys, deputado federal eleito pelo PSOL do Rio de Janeiro e hoje uma das vozes mais ativas no Congresso em favor dos direitos humanos, em especial dos direitos de LGBT, negros e mulheres, recebeu ameaças de morte na última sexta-feira, 18 de março. Longe de serem um fato isolado, essas ameaças são recorrentes e têm caráter altamente homofóbico e fundamentalista, numa clara represália ao notável trabalho que o parlamentar desenvolve há tão pouco tempo naquela casa. Entre alguns impropérios descabidos, seus ofensores dizem: “é por ofender a bondade de Deus que você deve morrer”“cuidado ao sair de casa, você pode não voltar”“a morte chega, você não tarda por esperar”. Sobre o assunto, Jean Wyllys concedeu entrevista ao Instituto Adé Diversidade. Confira abaixo.

Adé – Houve ameaças anteriores? Caso sim, elas continham o mesmo grau de violência?

Jean Wyllys – Ameaças de morte já haviam acontecido na época em que escrevi um artigo no meu blog sobre a homofobia mobilizada pelo participante da décima edição do BBB, Dourado. Não as levei a sério naquela época. Desde que me elegi, crescem as ofensas de homofóbicos e conservadores à minha pessoa. Ofensas impublicáveis de tão violentas e cheias de ódio. Na segunda semana depois que tomei posse, quando se noticiou que estava reestruturando a Frente Parlamentar pela Cidadania LGBT, conseguiram, numa ação orquestrada, tirar meu perfil no Facebook do ar. As novas ameaças de morte começaram de sexta para cá.

Adé – Houve novas ameaças depois daquelas noticiadas pela imprensa no dia 18?

Jean Wyllys – Sim. E novas ofensas, cada vez mais cheias de ódio e rancor.

Adé – O que pode estar por trás disso?

Jean Wyllys – O que está por trás disso é a minha atuação na Câmara dos deputados em prol dos direitos humanos e da dignidade da pessoa humana de LGBTs, negros e mulheres; a minha visibilidade positiva e a minha coragem de questionar os privilégios e as ações daqueles que enriqueceram e enriquecem à custa da ignorância alheia e da violação de direitos dos LGBTs e do povo de santo.

Adé – São cães que apenas ladram ou é preciso estar atento e forte?

Jean Wyllys – Dessa são cães ferozes, capazes de morder e matar. Eu preciso estar atento e forte, sim, mesmo sendo um deputado federal. Esses cães estão vendo que, comigo na Câmara, há uma possibilidade concreta de se avançar na garantia de direitos humanos de minorias que eles perseguem para melhor enriquecerem.

Adé – Quais as providências que você tomou até agora? Algo de concreto já foi feito em seu favor? Pretende reforçar sua segurança pessoal?

Jean Wyllys – Por enquanto, não vou pedir segurança pessoal. As ameaças já foram divulgadas. O que quer que aconteça comigo será da responsabilidade dessas pessoas, direta ou indiretamente. Estou rastreando os IP dos computadores de onde partiram as ameaças e ofensas. Quando identificados, eles serão denunciados e pagarão pelos seus crimes.

Adé – Qual foi a repercussão do fato no meio político e qual repercussão social você espera?

Jean Wyllys – Ainda não apurei. Mas recebi a solidariedade de apenas quatro deputados, e, mesmo assim, não publicamente. Estão todos preocupados em não contrariar os eleitores conservadores para garantir suas reeleições (e, logo, seus privilégios). Estão todos reféns da ignorância e do atraso porque são estas que impedem as pessoas de ascenderem à condição de cidadãos críticos, preocupados, por exemplo, com o mau da corrupção.

Adé – Como tem reagido a comunidade LGBT à notícia?

Jean Wyllys – Esta, em sua expressão nas redes sociais, tem me dado apoio. Mas a grande comunidade LGBT está afastada da política. Às vezes vitimada pela homofobia internalizada, que lhe impede de eleger representantes e/ou se identificar com quem luta por seus direitos; às vezes escravizada ao consumo e ao hedonismo por ter sido constituída em nicho de mercado apenas, a grande comunidade LGBT é, em sua maioria (há exceções, claro), alienada e ignorante (e arrogante). Ela só vai se dar conta de que sua liberdade está ameaçada quando a perder de fato e por lei. Quando os fundamentalistas cristãos, através de seus representantes eleitos, conseguirem fechar, por lei, as boates e saunas e começar a patrulhar ainda mais os espaços se sociabilidade, aí, sim, a grande comunidade LGBT vai se dar conta, mas será tarde demais. Há pessoas na comunidade que perdem tempo precioso com rancores e invejas que não levam a outro lugar senão a desorganização política. Não fui eleito pelo voto LGBT, mas nem por isso vou deixar de lutar por esta comunidade da qual faço parte. O princípio da dignidade humana é soberano e eu luto por ele mesmo que os diretamente interessados não estejam nem aí para isso.

Adé – É possível ao movimento LGBT apropriar-se positivamente deste episódio? De que forma? Você acha que o efeito pode ser inverso ao desejado pelos seus algozes e o fato acabar projetando mais sua imagem e suas ações políticas?

Jean Wyllys – O ideal seria que isto acontecesse. Estou me esforçando para articular o movimento com o meu mandato. Para somarmos forças em nome de nossa causa, que é suprapartidária. O momento é este. Se há reação, é porque estou no caminho certo. Logo, o movimento não pode me abandonar agora. Com minha legislatura, o movimento está diante da chance de deixar de ser aquele que se contenta com migalhas para paradas gays e viagens de seus líderes para eventos internacionais, para ser um instrumento político de garantia de direitos, que é o que se espera de um movimento social. Vamos ver qual vai ser a opção.

Adé – As agressões contra LGBT noticiadas na mídia de forma cada vez mais freqüente podem ter algum impacto na condução no PLC 122/2006, que criminaliza a homofobia? Qual?

Jean Wyllys – Talvez. Se soubermos conduzir as coisas de maneira certa, o impacto pode ser positivo. Mas o PLC 122 não criminaliza a homofobia. Ele amplia a lei do racismo para incluir, como alvo das sanções previstas naquela lei, discriminações por orientação sexual e identidade de gênero. O projeto que criminaliza a homofobia será proposto por mim em breve.

Adé – Você acredita que o aumento da violência contra LGBT no Brasil é uma reação à crescente visibilidade da comunidade gay ou fruto da impunidade?

Jean Wyllys – As duas coisas.

Adé – O gay é tolerante com a intolerância no Brasil?

Jean Wyllys – Sim. Como já disse, a grande comunidade LGBT (há exceções, claro) tem sua mentalidade colonizada pelos valores que sustentam o status quo. Fico horrorizado quando me deparo com gays racistas e classistas! E há muitos! Há muita misoginia e machismo entre os gays e mesmo entre lésbicas. É lamentável. Eu comecei a formar minha identidade numa época em que ser gay ainda era sinônimo de ser culto e inteligente. Hoje em dia, a grande comunidade se dedica às festas temáticas, às drogas sintéticas, ao culto ao corpo e ao consumismo desenfreado e pedante, inclusive de sexo rápido e anônimo. É uma pena. Queria desenvolver um programa de educação política para LGBTs. Talvez me dedique a isso um dia.

Adé – A história da humanidade está cheia de personalidades perseguidas por lutarem por uma causa nobre, como Jesus Cristo, Gandhi, Martin Luther King, Harvey Milk, Chico Mendes, irmã Dorothy Stang, entre muitos outros. Por que tanto ódio aos justos?

Jean Wyllys – Tenho medo de integrar essa lista (risos). Quero viver porque só vivo posso dar minha contribuição para um mundo melhor. Mas os justos são abatidos porque as pessoas de bem se calam e cruzam os braços. Há mais gente boa que má. Mas as más têm mais iniciativa e fazem mais barulho. Já notou isso?

Adé – E no seu caso específico, por que você desperta reações tão estúpidas? Serão elas manifestações de ódio, medo ou inveja?

Jean Wyllys – Uma combinação das três coisas. Mas, como disse Dom Quixote, no clássico de Cervantes, “os cães ladram, Sancho, é sinal de que estamos avançando”.

Adé – Toda essa história lhe esmorece ou dá mais fôlego à sua luta pelos direitos humanos, em especial os direitos de LGBT?

Jean Wyllys – Estaria mentindo se eu dissesse que, em alguns momentos, não me dá cansaço e medo. Mas sou alimentado por uma chama que não se apaga e que me chama. Sempre senti que há um propósito em minha presença neste mundo. Sou dos mistérios. Desde menino sentia isso. E o propósito é fazer, dele, um lugar melhor.

 

(Reprodução, Fonte: Instituto Adé Diversidade)

Do Começo ao Fim


O que caracteriza um tabu é o veto, implícito ou explícito, de sua manifestação. Do Começo ao Fim apresentou-se como um filme que tocaria na polêmica questão do incesto. Esqueceu, no entanto, de trazer a questão do veto para cena e criou um filme esvaziado de seu próprio tema.

O longa ganhou bastante repercursão com o público gay pelo destaque da relação homossexual dos meio-irmãos, sendo esta expectativa confirmada na fase adulta do filme, onde o parentesco de ambos é irrelevante à trama e são esbanjadas as cenas de sexo entre os atores. Belas, as cenas satisfazem os que queriam ver alguma ação entre homens no cinema brasileiro e só choca os desavisados sobre a natureza do filme.

Aluisio Abranches não examina a homossexualidade, nem como tabu, nem como vivência dos personagens, abstendo-se também do que seria a polêmica secundária do filme. O que torna-se razoável, já que no universo em que se passa o filme a relação incestuosa é plenamente incomporada, tornando  sem sentido encontrar alguma oposição à experiência homossexual. Outra boa razão é que, de fato, os personagens não precisariam se identificar como gays para que se configurasse aquela relação entre os irmãos.

Restaria então dizer que esta seria uma história de amor, mas esta é talvez a verdadeira questão do filme. Ao alienar os personagens de qualquer questionamento pessoal ou do mundo a sua volta sobre suas escolhas, Abranches criou um ambiente estéril típico de uma obsessão e não de amor.  O único episódio de distânciamento físico (e possível impasse para a relação) é traduzido na incapacidade de existir sem o outro, num desmoronamento subjetivo. Intencional ou não, o possível mérito do filme estaria em apresentar esse desequilibro afetivo sem pautar na homossexualidade ou no incesto como causalidade.

Canções de Amor

Canções de Amor (Les Chansons d’Amour – França, 2007)

Drama / Musical

Direção: Christophe Honoré

Roteiro: Christophe Honoré

Elenco: Louis Garrel, Ludivine Sagnier, Clotilde Hesme, Chiara Mastroianni, Grégoire Leprince-Ringuet, Alice Butaud, Brigitte Roüan, Jean-Marie Winling

É interessante ver um musical com personagens com uma dose real de espontaneidade. O fato de terem sido delineados após a composição das músicas, que poderia ser um problema, acabou por torná-los deliciosamente humanos ao seguirem um fluxo meio inconstante e incoerente de reações emocionais. Afinal coerência, em particular no campo do amor, é uma característica rara e neste filme as coisas simplesmente acontecem, as emoções oscilam e poucos sabem o que realmente querem.

Uma certa melancolia é constante no filme e atravessa a todos, menos um personagem que justamente representa a esperança do amor novo (e não apenas um novo amor). Nos demais, quase o tempo todo aceita-se, lamenta-se ou inveja-se o amor. É como se dissessem: “o amor esteve aqui, mas já foi” (o que ganha representação material num episódio trágico, mas presente desde o começo do filme). Nesta ausência, cada um decide como lidar com o amor: não vou amar mais, vou ocupar o lugar do ser amado, etc.

O personagem de Garrel não sabe o que fazer com o amor (que estava aqui mas já foi) , não corresponde necessariamente aos lugares amorosos que lhe esperam (de filho postiço, de amante) e acaba por se aventurar em uma solução inesperada. Honoré consegue capturar um instantâneo do amor, mesmo que para isso precise congelar o tempo.