Bent (1997)

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Bent (Bent, 1997)

Ficha Técnica:
Direção: Sean Mathias
Escrito por: Martin Sherman
Estúdio: Channel four
Duração: 104 minutos.

Sinopse: Max (Clive Owen) é um jovem e bonito, frequentador da noite gay da Berlim dos anos 1930 e namorado de Rudy (Brian Webber II) dançarino no lugar. Uma noite, ele se envolve com um membro das S.A., as tropas de assalto nazistas. Infelizmente, naquela noite Ernst Röhm, líder das S.A. e seus aliados foram eliminados sob os auspícios de Adolf Hitler. Max decide fugir junto com Rudy, mas termina capturado e levado ao campo de concentração de Dachau. Um vez ali, Max decide carregar a estrela amarela dos judeus em lugar do triângulo rosa que Horst (Lothaire Bluteau) usa orgulhosamente. A questão posta para Max e Horst é: como sobreviver ao campo de concentração sem permitir que aquele lugar termine destruindo a humanidade de seus prisioneiros?

Porque ver esse filme: Filmado em 1997, foi um dos primeiros longa-metragens a registrar a perseguição nazista aos homossexuais. Apesar de pontual, mostra o papel da violência como uma ferramenta de terror de Estado pela S.S. e pela Gestapo. Além disso, o processo de enraizamento do nazismo e do horror na sociedade alemã da época pode ser observado a partir da apatia que os personagens mostram em relação as transformações políticas do período. O desenvolvimento do afeto pelos personagens, marcado pela proibição do toque entre os prisioneiros também representa algumas das cenas mais bonitas do filme.

Temas e questões: Um dos maiores méritos do filme é apresentar uma reflexão extrema sobre a acomodação que a tolerância pode gerar em sujeitos desviantes. Afinal de contas, tanto Max como Rudy parecem muito pouco interessados nas transformações da política alemã naquele momento, o que termina por ter consequências muito negativas para o futuro de ambos.

Comentário (Spoilers): Bent foi baseado na peça do mesmo nome, que estreou em West End no ano de 1979, com ninguém menos que sir Ian Mckellen como protagonista. Na época, gerou uma tremenda reação por ter colocado em debate a quase desconhecida perseguição dos homossexuais durante o regime nazista. Ela foi representada na Broadway em 1980, protagonizada por Richard Gere e David Dukes, respectivamente como Max e Rudy.

O começo do filme possui alguns problemas. A opção que o diretor adota para retratar a vivência homoerótica em Berlim nos anos 1930, marcada pela promiscuidade e decadência, é bem questionável. É certo que a homossexualidade se confundia com a boemia durante boa parte dos primeiros quarenta anos do século XX e filmes como Christopher and his kind mostram esse universo amalgamado que era a noite berlinense pré-nazismo. Igualmente, o período de maior brilho e aceitação social de ideias progressistas, inclusive sobre a homossexualidade nos anos 1920 cedem espaço para pessimismo e crise sócio-econômica nos anos 1930. Contudo, a apresentação da maioria dos homossexuais do começo do filme como alienados, fúteis e ou promíscuos é incômoda. Esta impressão começa a ser desfeita com a personagem de Horst, que salva a vida de Max no trem para Dachau e usa o triângulo rosa com orgulho. Ele revela, inclusive, que foi preso por ter assinado uma petição para a libertação de Magnus Hirschfeld, um dos pioneiros dos direitos dos homossexuais, ativista pelos direitos civis de gays, lésbicas e trans e fundador do Instituto para o Estudo da Sexualidade, centro de estudos que visava desfazer preconceitos sobre o assunto, por meio do incentivo de pesquisas, atividades educativas, consultas médicas, tratamento endocrinológico para transexuais, etc. Vale ressaltar que em 1919 foi produzido um filme sobre o assunto, profundamente crítico ao código 175 do Código Criminal do Reich, que punia relações sexuais entre homens.

A segunda parte do filme, que retrata a vida em um campo de concentração e o conjunto de atividades sem sentido que visavam destruir a humanidade dos sujeitos considerados perigosos e problemáticos para o IIIº Reich é certamente a mais interessante e emocionante. Max suborna um dos guardas para que Horst trabalhe com ele carregando e organizando pilhas e pedras em diferentes lugares do campo de concentração. Uma vez juntos, os personagens têm a oportunidade de descobrir o verdadeiro significado de afeto, amor e sacrifício, e transformam o cotidiano numa luta constante para não enlouquecer e sobreviver resguardando a capacidade humana de amar.