Bombadeira (2007)

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Bombadeira foi  filmado em Salvador e retrata o universo de transgêneros (travestis, transexuais e outras possíveis identidades) de regiões populares tendo como ponto de partida o uso ou não uso de silicone industrial para realizar a adequação do corpo à identidade e aquelas que fazem a aplicação desse produto nas outras: as bombadeiras. Sejam casos de aplicações bem sucedidas ou as que resultaram desastrosas, esse aspecto é  apenas o fio condutor para sermos apresentados à uma mosaico de personalidades onde cada história é contada nas cores fortes em que foram vividas. O documentário de Luis Carlos Alencar nos aproxima do cotidiano de suas personagens, em toda sua riqueza e impacto causado pelas experiências de preconceito e exclusão.

Vivendo a margem, abandonadas diante do poder público e sujeitas à todos os tipos de violência – física, simbólica, psicológica, cada uma constrói suas soluções para se relacionar com aspectos de sua vida: afetiva, financeira, familiar e religosa. A religião, fora do universo das denominações cristãs, aparece como possibilidade de diálogo menos excludente com a esfera social e a construção de lugares próprios. O mesmo não ocorre com o universo familiar, composto de tensões passadas ou presentes, as vezes de experiências radicalmente violentas, na maioria dos casos em que é mencionado. As relações afetivas mesmo sob um contexto pouco favorável, não apenas acontecem como resultam em histórias comoventes e ternas. A condição financeira de muitas é, talvez, o ponto em que a exclusão se torna radical e impossível de esconder ao olhar da câmera.

As condições duras, onde a transformação do corpo depende de questões bastante práticas, como a oferta de clientes no caso das muitas que precisam recorrer a prostituição, a relação entre a travesti e a bombadeira é ambígua: se, por um lado, ela pode ser uma fada madrinha, por outro pode deformar irremediavelmente o corpo cirurgiado. Feitas em condições precárias e com material inadequado, é frequentemente a única opção diante de cirurgias caríssimas – o SUS não subsidiava as intervenções, consideradas meramente estéticas e não parte do processo de adequação sexual, e as clínicas de estética são uma opção muito cara. Quando o silicone gerava algum tipo de problema, a solução era o recorrer a saúde pública, e ser alvo de chacotas ou do descaso dos agentes de saúde.

Longe dos holofotes e da fetichização das travestis, ou da imagem nebulosa das pistas da orla, o documentário retrata o cotidiano: relacionamentos amorosos e amizades; a dura relação entre as travestis e suas famílias – tanto as que abandonaram irremediavelmente qualquer contato, quanto as que aceitaram esta nova identidade acompanhada de um novo jeito de corpo; e, até mesmo,  num dos relatos mais interessantes, a construção de um espaço de autoridade e respeito no candomblé pela travesti Mara\Pai Neném, invertendo em certa medida o lugar de sublternidade. Bombadeira mostra uma pequeno amostra do universo trans da capital soteropolitana mas é suficiente para expandir o olhar e aproximar o espectador dessas pessoas.