Filhote (Cachorro, ES, 2004)

Filhote (Cachorro, ES, 2004)
Filhote (Cachorro, ES, 2004)

Filhote não é um filme típico sobre paternidade gay.

A experiência de homossexuais masculinos com a paternidade costuma vir de duas vias muito distintas:  a primeira é através de uma relação heterossexual, eventualmente dentro de um casamento, onde um filho faz parte de um plano de concretizar uma família tradicional, enquanto evita ou vive alternadamente a experiência homossexual.

A segunda é entre casais gays ou solteiros que, com muito custo, conseguem realizar processos como inseminação artificial ou percorrem os caminhos necessários para adoção. Em muitos casos da primeira e a totalidade dos casos da segunda a criança é planejada e imensamente desejada e aguardada.

Nada disso acontece no filme Filhote. Pedro, o dentista protagonista do filme, é surpreendido com a possibilidade de cuidar de uma criança da mesma forma que alguns homens héteros solteirões se deparam com a mãe e um filho desconhecido batendo em sua porta: sua irmã deixa o filho, Bernado, para ser cuidado por um período que, por certas razões, se torna indefinido.

Desde a primeira cena sabemos que Pedro tem uma vida sexual ativa, variada e posteriormente descobrimos, descuidada. Esse aspecto de sua vida contrasta com a responsabilidade (e um certo conservadorismo) com que trata o sobrinho e repreende comportamentos da irmã e de outros personagens que poderiam dar mal exemplos ao garoto. Não é muito difícil imaginar que o protagonista não aprove completamente o próprio comportamento. No entanto, claramente rejeita outras possibilidades, [spoiler]como a de tornar os encontros com um de seus amantes constantes em uma relação afetiva e mais próxima[/spoiler].

Sua resistência e desejo de manter um estilo de vida sem amarras emocionais são típicas deste cenário onde um filho é despejado na casa do pai, que é até comum no cinema com um abordagem heteronormativa, mas raro de acontecer entre homens gays fora do armário. A espera masculina ansiosa e prolongada por um filho é um item relativamente raro no repertório cinematográfico, talvez por isso outros filmes com protagonistas gays esbarrem nesse afastamento inicial entre as figuras paternas e seus filhos (como, por exemplo, Breakfast with Scot e Patrick 1.5). O filme, no entanto, nos permite investigar ou especular as motivações por trás dessa atitude inicial do protagonista.

É assim que a história ganha uma outra rota, onde aprendemos que sua postura vem de um passado de perdas, [spoiler]pois seu companheiro morreu, possivelmente em decorrência do contágio por HIV, vírus do qual Pedro também é portador[/spoiler] e uma certa homofobia internalizada, explicitada através de reprovações a visibilidade e comportamentos gays de outros personagens.

Pedro admite duvidar se é a melhor pessoa para cuidar do filho de sua irmã. Hesitação que não é compartilhada por Bernardo que, diversas vezes, oferece um contraponto para essa visão que o protagonista tem de si. Aliás, nem mesmo sua antagonista, a avó distante de Bernardo, parece se importar realmente com esses aspectos da vida de Pedro, incluindo sua homossexualidade. Seu interesse em Pedro é puramente pragmático: garantir sua proximidade com o neto e conquistar um espaço afetivo.

O filme Filhote, explora pouco as condições e experiências da paternidade, sejam elas  pouco convencionais ou não, criando poucas oportunidade de ir além das construções dos primeiros laços de identificação com uma figura paterna. O terceiro ato, que permite examinar algumas complexas dinâmicas familiares onde chantagens, concessões, perdões e melancolias precisam dialogar, passa rápido e dá apenas uma vaga ideia ao espectador sobre o resultado dessa criação, entre elas, a constante especulação sobre a sexualidade de Bernardo. Essa solução é interessante pois, considerando a imprevisibilidade que a criação de filhos costuma ter, o filme se preocupa em responder apenas sobre o destino dos laços criados e se Bernardo consegue atravessar a infância difícil.

O resultado para Pedro, no entanto, é mais claro, pois este ultrapassa seus lutos [spoiler](por seu companheiro e por sua própria vida) [/spoiler] e pode dedicar-se a Bernardo que, mesmo sabendo de sua homossexualidade [spoiler]e soropositividade[/spoiler], busca nele esse amor paternal, e deste modo prossegue com sua vida, contrariando as expectativas de todos. Neste sentido, é uma história sobre dois sobreviventes, um da sua própria infância e outro, do  passado.