Freier Fall (2013)

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Marc Borgmann é um policial participando de um treinamento e durante esse período divide um dormitório com outro policial chamado Kay Engel. Este colega algumas vezes o provoca, verbal e fisicamente, chegando a se envolver em uma briga com Marc e posteriormente o tenta beijar e é claramente rejeitado. Marc Borgmann também possui uma esposa, Bettina, um bebê a caminho e uma vida conjugal feliz.

Somos apresentados a esse quadro nos primeiros minutos do filme. A direção do filme opta por não termos acesso aos pensamentos íntimos de Marc, nem por narração nem por escolhas de câmera que nos mostrem outras versões possíveis: como, por exemplo, qualquer interesse prévio de Marc por Kay que justifique suas ações, ou qualquer traço de desapontamento de Marc com sua vida conjugal com a esposa. Essa escolha narrativa é determinante para as possíveis interpretações do filme.

Divulgado como um Brokeback Mountain alemão, com seus protagonistas belos e atraentes, além da expectativa de grande parte do público de que um romance aconteça não são suficientes para ignorar como é filmado o primeiro encontro sexual entre Marc e Kay. Este segue o colega em sua corrida após ter sua companhia ter sido recusada, agarra-o, beija-o e enfia as mão nas calças de uma Marc, entre paralisado e perplexo, para masturbá-lo. A experiência é não-consensual e violenta apesar de claramente prazerosa para Marc que abandona o lugar sem dizer uma palavra, atônito.

Uma versão desta cena com uma mulher facilmente receberia a classificação de violência sexual, no entanto esta parece ter provocado poucos debates a respeito e tem sido relativamente ignorada nas resenhas do filme. Talvez a imagem de dois homens másculos não crie um espaço para a idéia de vitimização, ou que receber sexo, mesmo que não solicitado, pode ser traumático para um homem. A menos que este seja tratado como uma mulher, o que não ocorre no filme..

Mas este não é a único elemento que pode desviar a percepção quanto a responsabilidade de Kay em seu assédio, que se perpetua em outros níveis. Embora o protagonista nunca aceite ser classificado como gay/homossexual é essa a visão de Kay sobre ele e arrisco, em certa medida, compartilhada por parte da audiência: a de que só ele só fez com Marc o que ele queria, por ser gay, e não tinha coragem de admitir.

Para Kay, Marc é um homossexual enrustido, pois Marc, à principio contrariado, volta a buscá-lo para novas experiências sexuais, que de certa forma imitam a tônica violenta inicial, agora protagonizadas pelo próprio. Para kay não há meio termo, bissexualidade, o que os dois vivem é real e a vida em família de Marc é uma farsa. Diante dessa perspectiva, seu assedio ao policial e, posteriormente, à família não parecem impor um dilema ético. Kay, no entanto, não tem dificuldade em falsear um romance com uma colega de trabalho para preservar o seu armário no trabalho.

Com a exposição dos fatos em publico temos acesso a perspectiva da esposa, Bettina, que lutava contra o distanciamento do marido e a percepção de mentiras que minavam a relação. No entanto, a descoberta do que está acontecendo inicia uma fase de maior comprometimento de Marc, que não tem pretensão de abandonar sua família e afirma amar sua esposa. Novamente outro personagem tem dificuldade de assimilar a experiencia de Marc, que   rejeita classificações, mas não parece envergonhado do que sente por Kay. Para Bettina, elementos dessa traição estão além do que é capaz de dialogar e entender.

Freier Fall (2013) apresenta o difícil lugar daqueles que vivenciam experiências que rejeitam uma classificação compulsória dentro de um esquema pré-determinado. Em uma cena particular, Marc é questionado por sua esposa, Bettina: o que ele é?

Ao que ele responde. Marc.

Filme indicado e fornecido pelo colaborador Bricio Salim.

4 Comentários em Freier Fall (2013)

  1. A meu ver, os pontos altos do filme são dois. Primeiro, a cena entre Marc e Bettina no banheiro. Cena forte, que eu demorei um pouco para digerir. E a segunda cena é quando Bettina interroga sobre o que Marc é. Cena belíssima, que leva a pensar sobre rótulos e caixinhas. Não que o personagem não esteja dentro de uma, mas mostra a dificuldade em lidar com mudanças. Ou, ao menos, fluidez.

    • Sem dúvida. Algo que esqueci de enfatizar no texto é o espaço dado ao sofrimento de Bettina, a esposa. Algo que nem sempre é feito em filme com esse tema.

      • Sim. Neste sentido, os filmes meio que suavizam um pouco a descoberta da homossexualidade, como uma espécie de libertação de um sujeito infeliz, etc, e deixam de lado, por exemplo, o sofrimento das esposas, familiares, etc.

        Um filme que correlaciona bem isto é Minhas mães e meu pai.

  2. Sim. Neste sentido, os filmes meio que suavizam um pouco a descoberta da homossexualidade, como uma espécie de libertação de um sujeito infeliz, etc, e deixam de lado, por exemplo, o sofrimento das esposas, familiares, etc.

    Um filme que correlaciona bem isto é Minhas mães e meu pai.

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