Vida Nua

(The Naked Civil Servant, 1975)

Vida Nua (The Naked Civil Servant, 1975)
Vida Nua (The Naked Civil Servant, 1975)

 

Ficha Técnica

Direção: Jack Gold
Escrito por: Philip Mackie (baseado na autobiografia de Quentin Crisp)
Estúdio: Thames Television
Duração: 77 minutos.

 

Sinopse:

O filme, baseado na autobiografia (escrita em 1968) homônima, acompanha a primeira parte da vida de Quentin Crisp (magistralmente interpretado por John Hurt, quase irreconhecível), numa época em que a condutas sexo-afetivas divergentes era duramente punida na Inglaterra. Seguindo o olhar sarcástico que nunca cai numa auto-indulgência, a película observa o processo de descoberta de Crisp, a hostilidade social de outros em função do comportamento que flerta fortemente com o feminino, a homofobia institucional que o levou a ser julgado, e o universo da boemia que acolhia indivíduos divergentes naquele período.

Por que ver esse filme:

O processo de descoberta de Quentin Crisp é um dos pontos altos do filme. Primeiro por ser uma descoberta processual. Embora se inicie na infância, é ao longo de anos que o protagonista começa a relacionar desejo e identificação, inclusive rejeitando saídas dentro do armário, como viver com o rótulo de “artística excêntrico”. Outro elemento genial é a maneira irônica com o qual o personagem denuncia homofobia e violência: longe de se julgar frágil, o protagonista/biografado demostra que a sociedade é quem incita a fala sobre certas identidades sexualidades divergentes, regalando-se com a existência desses sujeitos na mesma medida em que os punia.

Temas e questões:

Um dos grandes méritos do filme é retratar de maneira acurada, mas delicada, como gênero e homossexualidade eram categorias imbricadas. Além disso, as transformações do preconceito que Quentin Crisp viveu, e o seu desafio constante embora por vezes silencioso da homofobia institucional vale o tempo do expectador.

Comentário:

Filmes de memória nunca são filmes simples. Há uma subjetividade e um ponto de vista adotados como pressupostos de leitura e vivência do mundo. Em Vida Nua esse processo é ainda mais denso: no prólogo do filme, Quentin Crisp afirma que qualquer película, por pior que seja, sempre seria melhor do que a vida real. Seriam ilusões mágicas, absolutamente superiores a vida como fantasia que por sessenta e seis anos ele tentou viver. Assim, tentar fazer uma análise simples de forma e conteúdo não parece ser uma das melhores maneiras de comentar sobre a película. Acredito que a melhor maneira de pensar o filme Vida Nua é pelo que ele dá a ver, e pelas questões que são suscitadas. No primeiro caso, um dos pontos altos do filme é retratar do ponto de vista de quem viveu três grandes momentos da vivências identitárias e sexuais dissidentes no século XX: o primeiro momento, anterior a Segunda Guerra, marcado pela homofobia institucional e a aproximação entre boêmia e minorias afetivas. O segundo, durante a guerra, acompanha o afrouxamento de mecanismos de punição (representados, no olhar de Crisp, pelos americanos). O terceiro, por fim, entre o final da guerra e os anos 1970. Sempre fora do armário, ele progressivamente percebe que seu corpo e ações representavam um questionamento incessante, eternamente inquietante para si mas acima de tudo para os outros. Fazer isso sem transformar o filme em um documentário longo e enfadonho, por meio da reinvenção deste passado.

A construção do personagem “Quentin Crisp por Quentin Crisp”, sua maneira de estar no mundo também é uma fonte de questões importantes. Ora, quando encontra outros no Black Cat, o protagonista descobre algumas coisas. Primeiro, que não é o único no mundo; segundo, que sua rebeldia poderia encontrar vazão dentro de um repertório de pessoas que tinham o “mesmo” problema, duramente definidos pelo pai de Crisp como “male-whore”, prostituto masculino (com efeito, ele foi prostituto por vários anos). Mas o que fica evidente durante a parte da vida dele que girava em torno do café e dos seus companheiros naquele espaço era a relação íntima entre gênero e homossexualidade. O repertório disponível para estilizar todo o conjunto de atos que ele sente necessidade de expressar – afina, ele admite que exibir-se é uma droga viciante – e que o caracterizavam como um “deles”, “dos outros”, “man-whore” era dado pela feminilidade. Se isso faz dele uma pessia queer ou trans, talvez seja uma pergunta que fale mais do nosso tempo do que da auto-identificação de Crisp. Isso não significa rejeitar uma análise queer (especialmente butleriana) transviada, de estudos transexuais e transgêneros ou dos estudos gays e lésbicos. Significa, isso sim, historicizar a experiência de Crisp, respeitando a fala do personagem no filme e o processo de construção de sua forma de estar no mundo, posição ética que deveria ser adotada de maneira generalizada.

Sobre Daniel Silva 30 Artigos
(Editor) Doutorando em História Social pela UFBa (2017). Graduado em História em 2012 e possuí o título de Mestre em História Social do Brasil, obtido em 2015, ambos também pela UFBa. Pesquisa temas relativos a gênero, homossexualidade e saber médico, centrando nas teses de doutoramento da Faculdade de Medicina da Bahia no século XIX.
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