A Aliança de Prata
16 de outubro de 2009 | Por Luiz Fernando Calaça | Categoria: Colunassimbologia, relacionamento e sexualidade
Luiz Fernando Calaça de Sá Júnior
Lendo a coluna do César, me chamou atenção um aspecto que, já a algum tempo, desperta a minha atenção: a aliança de prata. De fato, ao menos aqui em Salvador, ela se constitui como um símbolo e um elemento de identificação, ou do gay em geral, ou do gay que está namorando. Passa como um elemento de identificação daquele que faz parte dessa grande tribo que é a comunidade GLBT. Entretanto, creio eu, não é um símbolo compartilhado por todos. Nem todo gay ou lésbica usa aliança de prata, mas, quem usa, tem uma grande possibilidade de ser “do babado”.
Já me peguei algumas vezes olhando atentamente para as mãos de pessoas que me parecem “suspeitas” buscando identificar se está usando a bendita aliança.
Me dou conta, no entanto, que não é um artigo exclusivo dos gays, mas que é um elemento identificador, pelo menos, de que a pessoa que a usa é “alternativa”. Valendo, de certo modo, o sentido alternativo do relacionamento entre as pessoas que usam da mesma aliança. (Traduzindo: casais que usam aliança de prata são “alternativos”).
Conheço casais heterossexuais – até que se prove o contrário – que usam alianças de prata. São casais que não oficializaram a relação no cartório ou no religioso. Tempos atrás se diria que são “amigados”, “concubinatos”, ou, numa terminologia mais chula, “emancebados” (não sei se é assim exatamente que se escreve esse palavrão, mas eu bem poderia substituir pela opção dada pelo dicionário do Word: “emancipados”).
Em todo o caso, me parece que o uso da aliança de prata distingue a relação oficializada, socialmente, registrada e sacramentada, com véu, grinalda, padre e arroz. Os relacionamentos que seguem o script são agraciados com a aliança reluzente de ouro, que nunca mareia, que é eterna e brilhante, até que a morte os separe ou troque pelas alianças de bodas de prata, ouro, esmeralda ou diamante.
Os relacionamentos “alternativos” ficam com a de prata, que mareia, perde o brilho. Penso no valor desse símbolo e no que ele traz, em si, um sentido. É o símbolo ao mesmo tempo de uma transgressão, de um espírito alternativo e liberal, mas também pode ser compreendido como um símbolo de inferioridade quanto ao valor social do relacionamento, seja ele entre casais heterossexuais que não se casam oficialmente, seja pelos gays, lésbicas e LGBTs…
Fico refletindo nesse símbolo, que como os triângulos rosa, surge como um elemento de identificação dos gays, mais ou menos velados e explícitos, para aqueles que se valem desse adereço, e depositam nele um sentido, e para aqueles que identificam o significado nele depositado. Fico pensando comigo se também esse não seria um símbolo que nos distingue socialmente como uma classe menor. (Penso por exemplo no valor dado, décadas atrás, ao anel de formatura, que era um símbolo de distinção social e que fazia com que aquela pessoa que o portasse fosse socialmente reconhecido como um “bacharel”).
(Meu avô, reza a lenda familiar, era um vendedor ambulante, daqueles de porta em porta, que vendia confecções a prestação. Apesar do status social baixo, para o padrão da família, ex-soldado, semi-analfabeto, usada um anel de brilhante no dedo mínimo e tinha uma caneta Parker – símbolos de status na época.)
Reflito sobre esses pontos, em torno da aliança de prata, sem ser eu antropólogo, historiado ou ourives, penando no significado desse objeto, que ele ou dedos das mãos de diversas cores e sexos, servem como elemento de identificação do gay ou do casal homossexual ou “alternativo”. Fico pensando em nas possíveis alternativas que por ventura existam, diante de um atual contexto em que o relacionamento ainda não é reconhecido – às vezes ignorados verdadeiramente diante da sociedade, ou, em situações piores, discriminados com agressão e homofobia.
Penso também no valor que os próprios gays dão ao relacionamento, na confiança (ou desconfiança) diante da possibilidade de viver um relacionamento verdadeiramente nutridor e de parceria, que é ou pode ser eterno enquanto dura. Talvez alimentemos nós mesmos uma idéia de efemeridade das relações, marcadas pela transitoriedade e, por isso, temos um símbolo que não é duradouro em seu brilho. Talvez sejamos visionários, estejamos na verdade a frente de nosso tempo – que já é – e tenhamos nos dado conta de que o casamento é uma instituição falida e que o amor não é eterno. Mas, mesmo assim, lutamos pela legalização do casamento gay, seja pelos direitos civis dele decorrente, seja pelo sonho romântico que aspira uma casamento com véu, grinalda, arroz e aliança de ouro.
Talvez devêssemos prestar atenção em nossos sonhos e nossas atitudes, nos símbolos que criamos, nas crenças que reproduzimos em discursos e atos. No final das contas, falam sobre nós, sobre quem somos e quem desejamos ser.
Olá. Estava em busca de comentários de etiqueta a respeito de continuar usando aliança de prata após o casamento, usando-a, inclusive, para a cerimônia religiosa.
O fato é: vou me casar em alguns meses, não sou lésbica e meu noivo não é gay. Vamos fazer uma cerimônia civil, outra religiosa e uma recepção hetero – até que queiram me provar do contrário, como tentas. Ao procurar, então, estas noções de etiqueta me deparei com a tua matéria e a achei absurda e profundamente preconceituosa. Tuas palavras me cheiram a preconceito barato contra os gays e contra os heteros alternativos, como mencionas no presente artigo, sem contar o preconceito que cai da tua “boca” ao “falar” dos relacionamentos de concubinato.
Na minha concepção, em pleno século XXI, é mais do que absurdo, é imbecil, que uma pessoa critique qualquer tipo de relacionamento, desde que ele dê certo. Não entendo essa preocupação exaustiva para com a vida dos outros. Não seria mais produtivo, tu, na tua condição de terapeuta, tentar,através de pesquisa, detectar a fonte da agressividade nas mentes humanas? Ou ainda buscar a cura para psicoses ou bipolaridades??? Ou mesmo tentar explicar o que ainda ninguém explicou: por que uma pessoa nasce gay e por que outras nascem para odiar as que são gays? Acho que seria uma discussão mais produtiva!
Agora, se queres mesmo saber porque existem casais que optam pela aliança de prata? Posso falar por mim! Já assististe o filme “A lista de Schindler”? Ao final do filme, ele olha pra sua aliança de ouro e diz: “Ela poderia ter salvado mais algumas pessoas dos nazistas”. Isso nunca mais me saiu da cabeça. Entçao pergunto: por que usar um metal que simboliza cobiça, inveja e mesquinharia? Paticularmente, sr. Psicologo, cada qual com suas próprias razões… a minha é essa e acredito que seja nobre. Entretanto, na escala de Schindler, há pessoas como eu, que optariam por salvar o oprimido e, há pessoas como o senhor, que optariam por julgá-lo e condená-lo.
Tenta me provar do contrário e ganha o meu respeito sobretudo, como profissional!
Abraços,
cordialmente, profa. Ivana
Bom dia, Ivana.
Um texto escrito pode ser lido de diversas formas. Acredite, a intensão do meu texto foi absolutamente oposta à forma como você o compreendeu.
Primeiro gostaria de lhe dizer que não me interesso por etiqueta, mas me interesso por ética e direitos humanos.
Para mim pouco importa se a aliança é de prata ou de ouro. Eu mesmo sequer uso aliança, pois não tenho dinheiro para comprar uma. Não faço um ritual civil e religioso, pois ainda não é legalizado o casamento gay no Brasil.
O meu texto fala do porque usar um simbolo que pode representar um algo inferior ao modelo heteronormativo. Por que o casamento heterossexual é casamento, e o homossexual tem qualquer outro nome que não esse. Porque precisamos fazer um contrato de sociedade e não assinar uma certidão de casamento. É sobre essa diferença que eu reflito, e é pensando na igualdade que não discrimina através desses produtos simbólicos que trazem consigo o preconceito embotido.
Na condição de psicólogo não me interessa investigar as causas de coisa alguma. Me interessa intervir sobre uma realidade que se mostra a mim cheia de contradições e de desrespeitos aos direitos de igualdade e liberdade que é do humano, sem distinções.
Pra mim vale mais as relações, os laços e as alianças que se fazem pelo amor e respeito ao outro. Não preciso de um anel para simbolizar isso. Mas, existindo esse símbolo, e suas diferentes configurações que podem estar distinguindo e discriminando os certos dos errados, os santos dos pecadores, os normais dos anormais, me sinto no direito e na obrigação de questionar e refletir sobre isso, e tentar ajudar as outras pessoas a refletir também sobre isso que se mostra sutil e encoberto, porém perverso e desumano.
Grato por seu comentário. Espero ter sido melhor compreendido agora.
Luiz Fernando Calaça