A primeira vez de um gay
1 de fevereiro de 2009 | Por Luiz Fernando Calaça | Categoria: Colunas“A primeira vez ninguém esquece!” – diz o dito popular. Quando e como ela será é difícil predizer. Quando será o primeiro beijo, a primeira transa. Se o paquerinha da festa vai ser também o primeiro namorado… A primeira paixão. O primeiro olhar… A adolescência é, em geral, a fase da vida onde se dá esses encontros e primeiras descobertas. O mundo se mostra como uma grande aventura, excitante e, ao mesmo tempo, cheio de medos e perigos.
O começo da sexualidade de um jovem gay de classe média pode ser tardio, em relação a outros jovens. Refiro-me ao “jovem gay de classe média” pois essa é uma realidade mais próxima da que vivencio e tive pouco contato com histórias de jovens gays de outras classes sociais. Os gays e lésbicas que eu conheço, em geral, começaram a vida sexual – homossexual – após os 18 anos, podendo ter ou não relações heterossexuais antes de vivenciarem a homossexualidade. Muito disso se dá em função das dúvidas e conflitos consigo mesmos, pela formação familiar heteronormativa, pelas expectativas sociais em torno dos papéis sociais e sexuais esperados para o homem e a mulher, que podem ser vivenciados de forma muito mais rígida na classe média.
A classe média, em geral, prima pela tradição e pelo respeito de certos valores morais convencionais e cristalizados. Estão sempre “na média”, no “meio termo”, seguindo os ensinamentos clássicos da “temperança” e “justa medida”, evitando os “excessos” ou o que é “desviante” da norma, do padrão. A classe média é, muitas vezes, a vivência do pensamento binário sim-não, bem-mal, certo-errado, homem-mulher, céu-inferno, que ignora ou evita admitir as outras possibilidades de existência que fogem a essa visão dicotômica de mundo.
Não duvido, no entanto, que para gays de outras classes sociais, e inclusive da classe média, essa descoberta se dê mais cedo. Essa questão do tempo da descoberta me parece pouco relevante, pois o tempo é relativo a cada pessoa, a cada subjetividade, e cada um tem seu próprio “ritmo”, sua própria história. O tempo certo para aprender a dançar a primeira dança, descobrindo os passos e se envolvendo aos poucos pela música, até que chega o momento em que já não é mais possível deixar de dançar. É o tempo de cada um.
Às vezes tem-se colegas na escola que são gays, mas é muitas vezes difícil estabelecer uma identificação, se ver como um “igual”, mesmo porque ninguém é igual a ninguém. Cada um tem seu próprio jeito de ser e demonstrar sua sexualidade. E. para muitos adolescentes, a própria sexualidade é uma incógnita, podendo ser negada, rejeitada, levantando-se inclusive a possibilidade de se ver como um ser “assexuado”. Infelizmente, apesar da grande exposição do jovem à “produtos sexuais”, muito pouco se tem praticado para se realizar uma educação sexual, que não se restrinja a descrições anatômicas dos aparelhos sexuais, seu funcionamento, e possíveis doenças sexualmente transmissíveis.
Essa educação sexual, em geral, se dá de forma informal, pelo contato com outros adolescentes, que buscam por conta própria informações, ou experimentam entre si essas múltiplas possibilidades de excitação e descoberta. Um contato mais próximo com outros gays mais prematuramente, pode favorecer a vivência da homossexualidade mais cedo, porém isso não é determinante ou causa da homossexualidade. “Sair do armário” pra si mesmo, ver-se e afirmar a si mesmo como gay, pode ser facilitado pela inclusão e legitimação do grupo, a partir do contato com outros gays e lésbicas, ou pela simples possibilidade de, nos contatos interpessoais, nas interações pessoa-pessoa, ver despertar o desejo.
Muitas vezes a homossexualidade pode ser muito nítida para as outras pessoas e obscura demais para nós mesmos, por estarmos existencialmente mergulhados em nossas dúvidas e angústias, entorpecidos ou cegos acerca dos nossos próprios desejos e necessidades. É quando não temos consciência de nossos desejos, não nomeamos, não temos uma visão clara de nossos objetos de atração.
As formas como essa “descoberta” da sexualidade pode se dar é bastante variada. Os “jogos homossexuais” de sedução podem acontecer na adolescência, sem que, necessariamente, a pessoa se descubra ou se torne gay posteriormente. A adolescência tende a ser uma fase de experimentação, de curiosidade, e não é raro que meninos e meninas se iniciem sexualmente com amigos e amigas do mesmo sexo. Porém, quando o desejo se torna presente, quando a brincadeira se torna algo sério, se converte em necessidade, pode, o jogo sexual, passar a ser um divisor de águas na definição da orientação sexual do jovem. O que, na maioria das vezes, é vivenciado com dúvidas, medos, conflitos e sentimentos de culpa e remorso.
É possível também que essas experiências iniciais, realizadas na adolescência, só sejam significadas a posteriori, em outro contexto, quando o sujeito tem outra consciência de si mesmo, de seu corpo e de seus desejos. Às vezes é importante respeitar seu próprio tempo, os limites da maturação (e maturidade), de consolidação da personalidade e da formação de visão de mundo mais estável e constante – a personalidade. Para alguns, a descoberta se dá através de uma brincadeira gostosa, para outros, é um processo longo e doloroso, que se dá a curtos passos, por meio de conquistas árduas, conflitos e batalhas cotidianas, consigo mesmo e com aqueles que estão a nossa volta.
Talvez essas batalhas a serem vencidas, esses encontros e desencontros necessários, essa “abertura e fechamento de questões inacabadas”, nem sejam tão “bélicos”, quanto se imagina. Mas, na fantasia do jovem homossexual, ainda são passos imensos a serem dados, precisando de tempo e amadurecimento, de maior independência, da aquisição de “forças internas” ou de um “contexto” favoráveis e necessários para o enfrentamento. O “necessário” é variável e é preciso estar atento a cada circunstância, a cada oportunidade e a cada sensação que sentimos em nós mesmos – sinais que podem orientar nossas escolhas e ações.