
O relacionamento homossexual foi por muito tempo estigmatizado, tanto por hetero como por homossexuais.
Para muitos heterossexuais, a vivência da sexualidade homossexual é/era vista como promíscua, marcada pela grande rotatividade de parceiros, por práticas livres e descomprometidas de sexo com múltiplos parceiros.
Essa imagem, creio eu, está provavelmente associada ao movimento de liberação sexual vivido intensamente na década de 60, tendo suas repercussões negativas acentuadas pelo surgimento da AIDS, e pela associação do grupo gay no chamado “grupo de risco”, sendo a AIDS a “Praga Gay”.
Nos últimos 20 anos, com a propagação da AIDS a outros grupos sociais, incluído as “mulheres casadas e monogâmicas”, deixou-se de falar em grupo de risco, passando a enfocar os comportamentos de risco, como transar sem camisinha e o uso de drogas injetáveis. Durante esse período, os grupos GLBTT vem militado do sentido da conscientização da sociedade, atuando em campanhas pelo uso da camisinha e orientação sexual.
No entanto, a representação social da sexualidade homossexual continua, ainda sendo associada à promiscuidade, irresponsabilidade, grande rotatividade de parceiros, por práticas livres e descomprometidas de sexo, inclusive dentre os homossexuais.
Muitas lésbicas criticam os gays pela falta de estabilidade nas relações, pelo comportamento de “caça” masculino e machista, pela irresponsabilidade e pela fugacidade com que lidam com o sexo e os relacionamentos a dois.
Muitos gays vêem as lésbicas como ciumentas, possessivas e soltam piadas de que, no segundo encontro, duas lésbicas já pegam as malas e vão morar juntas.
Além disso, associa-se as travestis a imagens de submissão, sempre mantendo relacionamentos desiguais, em que elas sustentam gigolôs e sofrem violência deles, menosprezando a possibilidade de vivência de um relacionamento constituído a partir do amor.
Todas essas perspectivas e representações podem, de fato, ocorrer com certa freqüencia, não sendo de todo inverdades. No entanto, não creio que devem ser as únicas representações e vivências possíveis de relação amorosa.
Nos anos, e principalmente, nos últimos meses, com a realização das conferências GLBTT no Brasil, vem sendo discutido de forma mais efetiva questões como o casamento gay e a homoparentalidade. Tais temas demonstram uma preocupação tanto no sentido da igualdade de direitos, como na mudança de postura, e de representação social sobre o que os homossexuais compreendem, vivenciam e desejam, como relacionamento a dois e como constituição de família.
Desde sempre já existem casais que moram e convivem de forma estável e duradoura, que criam filhos e constituem famílias. As organizações às vezes variam, não seguindo necessariamente o modelo heterossexual, com divisão de papéis sexuais bem estabelecidos, em que um dos pares adota o papel masculino e ativo, e outro adota o papel feminino, materno e submisso, voltado para o cuidado do lar e dos filhos.
Vivemos numa sociedade cada vez mais complexa, em que o casal tem, igualmente, que trabalhar fora de casa, e, as posições sexuais passivo-ativo não necessariamente condizem com uma prática real, configurando-se muito mais como um mito ou como mais uma representação social culturalmente construída.
A própria instituição da família, que foi por muito tempo criticada, questionada e descaracterizada como uma importante matriz de constituição social, vem, neste movimento, sendo resgatada, a partir de uma outra configuração, mais flexível, baseada no desejo de uma estabilidade não aprisionante, construída a partir do desejo de viver um relacionamento baseado na aposta no amor e no companheirismo e sustentado pelo desejo de desfrutar igualmente dos direitos usufruídos pelos heterossexuais.
O casamento gay aparece então, tanto como um símbolo de legitimação do relacionamento homossexual, na tentativa de desconstruir estigmas e preconceitos, como para garantir direitos civis, como o benefício social da aposentadoria-pensão, da propriedade, de seguros de vida, além do direito da adoção homoparental.
Durante muito tempo os casais homossexuais vêm sendo denominados como “parceiros” ou “companheiros”, e não vistos como um “casal”. Essa idéia de parceria às vezes é sentida com certo incomodo, como se fosse inferior ao “casal” que se constituiria com o casamento, como se fossem menos válidos, pouco dignos de respeito e credibilidade. No entanto, pensar um relacionamento sem parceria, sem companheirismo e sem cumplicidade pode ser, isso sim, a descaracterização dos valores que, efetivamente, deveria significar a união a dois, seja homo, seja heterossexual.
Caímos, então, no ponto crítico e polêmico dos valores. Valores que atravessam todo esse meu texto. Num mundo em que a idéia de valor e ética são postos em dúvida, nos vemos num movimento, creio eu, de transfiguração, de transvaloração, e, principalmente de resgate. Resgate do humano, transcendendo estigmas, dirigidos à utopia de uma sociedade e um mundo de igualdade a partir da integração da diversidade.
A idéia é valida!! E os tabus são absurdamnte gritantes, mas nada q não posssa ser ultrapassadu facilmente com o advento do tempo e da cultura. A sociedade precisa re-analisar seus valoes e conceitos pra se modernizar nessa atual sociedade agressiva, hipócrita e devastadoramente selvagem…
Concordo em partes, discordo de outras, apesar de perceber que o autor tentou ser abragente. Eu ainda tento crer que há mais e mais possibilidades além das apresentadas, além da possibilidade de que é possível viver perfeitamente bem e só. Minha verdade e felicidade está dentro de mim, não no outro e essa busca – intensamente cobrada socialmente – pode ser desgastante e um fracasso. Entendo o Casamento Gay, realmente, como um reconhecimento da homossexualidade como um amor tão válido quando qualquer outro e uma isonomia para recuperar Direitos. Não uma obrigação, bem como não é uma obrigação amar… Os valores que o autor fala no final e coloca seriam, no meu modo de ver, universais, não apenas de gays e homossexuais e não acredito – hoje – que a homossexualidade poderia trazer contribuições para esse tipo de questionamento. Já acreditei nisso, numa homossexualidade transgressora, revolucionária, capaz de criar um novo mundo. Hoje, não mais. O que eu luto hoje é para que as pessoas seja (ao menos, minimamente) felizes e que possam fazer algumas escolhas, sendo adultas, vacinadas, consensuais, sem tanta intervenção do Estado em cima de suas vidas ou dentro do quarto delas, em suas camas. Não quero viver num Estado Policial, cheio de leis e mais leis, muito menos num Estado onde vigore o “politicamente correto” sufocando o indivíduo. Isso nunca foi liberdade, muito menos felicidade, nunca. É , sim, uma armadilha.
Beijos,
Ricardo
aguieiras2002@yahoo.com.br
Olá Ricardo.
Só agora vi seu comentário. Concordo com seu comentário. Não necessariamente devemos buscar viver relacionamentos estáveis e duradouros, ou viver um casamento, no modelo tradicional. Às vezes REALMENTE é melhor viver sozinho do que mal acompanhado. Me pergunto, no entando, o quanto somos suportamos as nossas frustrações, quando não encontramos no outro o que idealizamos, e o quando essa frustração também não nos desiludo ao ponto de descrermos comletamente nessa possibilidade de um encontro a dois e numa partilha de vidas.
Durante muito tempo pensei que nunca iria sonhar em casar ou conviver com uma pessoa “pelo resto de minha vida” ou “até quando dure”, até que eu pacei a vivenciar algo que vem durando.
Sou contra, como você, ao politicamente correto e a formas de tiranização da vida privada, pelo governo, pela mídia, e por qualquer agência de controle social. Penso na responsabilidade que cada um de nós devemos ter para conosco e para com o outro e com a humanidade. Nem sempre podemos garantir que o outro tem boas intensões, ou toma todas as vacinas, ou não está contaminado por sabe-se lá por qual DST ou AIDS. Às vezes se aposta na monogamia e num relacionamento estável, mas nem isso é garantia de fidelidade e exclusividade e, principalmente, proteção e prevenção.
Como você mesmo disse, esse meu texto buscou ser amplo e abrangente, e para cada ponto lançado, poderiamos refletir outras tantas muitiplas possibilidades de interpretação, perspectivas e vivências. Tento sempre chegar num ponto: a preocupação com a ética e o cuidado com o humano, que independe de sexo, gêneo, raça, etnia e religião. Essa é a chave essencial de meus pensamentos, todo o resto é apenas pano de fundo e contexto para a reflexão.
Luiz Fernando, oi!
Obrigado por sua resposta, você foi gentil e educado, apesar de tanto tempo ( dois meses e um dia…) já ter se passado o que tira um tanto do “calor” de uma discussão, a paixão. Infelizmente, o mundo hoje está assim, o que deveria ser discutido numa mesa de bar , entre cervejas e /ou cafés, olhos nos olhos e afeto, hoje é rapidamente resolvido pela internet; msn, orkut; as pessoas sem tempo para nada, todas na construção de um “trabalho’ ou uma “empresa” e eu fico me perguntando, lá com as minhas filosofia, que empresa é essa, onde se trabalha tanto, aposenta-se à míngua e depois se morre… Mas isso nada tem a ver com o assunto, apenas uma abstração minha.
O que eu quis falar é que há outros “casamentos” possíveis e reinventáveis na vida, como eu, por exemplo, que resolvi escrever. Escrever para mim virou um “casamento’ e me dá um monte de felicidades, e… frustrações outras… risos…
Enfim, como não posso mais acreditar que a homossexualidade pode ser algo revolucionário, já que na ânsia violenta de inclusão, deixamos de ser excluídos para sermos exclusores, tento, eu, me reinventar à cada dia. como disse , politicamente falando, apóio o casamento gay como uma forma de a sociedade validar o nosso amor e sexo, validar nossa diferença. Mas para aí. Repito: é perfeitamente possível ser feliz só e essa imposição para que se tenha alguém é mais uma cobrança da sociedade moderna – vide os blog’s, onde 99% das pessoas falam de amor, como se todas elas amassem e como se o amor não carregasse , também, destruição pelo caminho. Perfeições me cansam, bem como idealizações, foi isso que eu quis colocar. Já amei muito outros caras, tive longuíssimos relacionamentos morando junto e sei o quanto pode ser bom e o quanto pode ser destrutivo e arruinar alguém. como já falava Nelson Rodrigues e como já diziam as canções de outro rodrigues, o Lupiscínio… É engraçado como hoje todos amam e todos são amigos de todos, não? Vide que o termo “amigo” é usado nas net comunidades e redes sociais como o Orkut , Facebook e etc. etc….. eu sou mais o que dizia Aristoteles: “Amigos teem que comerem o sal juntos”… como é possível ser amigo de alguém que nunca vi na vida, que é apenas uma imagem que ele mesmo criou para si, para fugir do desespero e da superficialidade das relações atuais…
Achei estranho você falar em “dst ou aids”, como se isso fosse um “defeito” da pessoa. Parece ser uma preocupação sua, não? Tem um filmaço maravilhoso que trata muito bem dessa questão: “Jefrey – De bem com a vida”, onde um cara muito bonito, jovem e malhado ( hoje se diz “sarado”… num hediondo preconceito, como se os não malhados fossem “doentes”… afinal, “sarado” é o antônimo de “doente, não?) jura que “só vai se envolver com outros caras “bonitos ; jovens e sarados” como ele, e, principalmente, sem HIV… e não é que ele se apaixona perdidamente por um soropositivo, feio e não malhado?…. é, a vida pode pregar umas peças…. Veja o filme, se puder… e releia o seu parágrafo acima, onde fala das DST e me diga se você não tem algum preconceito pois o contexto que você insere remete diretamente ao caráter e à personalidade da pessoa. Reparou? Por que você faz isso? Acho que não cabe a um psicólogo e muito menos a um Gestalt terapeuta…. e negar o seu preconceito nesse parágrafo soaria mais estranho ainda, agora, veja com atenção o contexto em que você, Luiz, inseriu a sua frase. Enfim, acho que discordamos de muita coisa, ao contrário do que pensa, você concorda muito pouco comigo. Mas é, totalmente, seu direito, claro. Porém, repare também, como nada temos em comum. Só que quem escreve um artigo, está sujeito a comentários sobre, afinal tem a possibilidade de comentar nessa mesma página, não?
Bom dia!
Ricardo Aguieiras