Bissexualidade ou a terceira margem do rio?
ago 9th, 2008 | Por Janaína Calaça | Categoria: ColunasPensar a vivência da sexualidade já é um processo complexo e pensar a bissexualidade não deixa de ser menos ou talvez até mais complexo, posto que aos poucos entre dois espaços que se destacavam, ou seja, entre homossexuais e heterossexuais, um espaço que não digo novo, mas silenciado, se abre e com ele as discussões. Os posicionamentos em relação à bissexualidade são múltiplos e englobam desde a rejeição à aceitação como uma possibilidade de vivência, que se caracteriza primordialmente pela não ocupação de um lugar definido. Apesar de todas as discussões que circulam acerca da pluralidade de identidades que um indivíduo carrega, sempre parece cair na mesma questão de que para ser algo, para partilhar de uma identidade, necessariamente tenha que excluir a outra, que porventura também faça parte da construção do mesmo indivíduo. Talvez uma das maiores problemáticas acerca da bissexualidade seja justamente a de que a sociedade o tempo todo necessita de uma organização didática para as questões que circulam dentro da mesma, inclusive em relação à sexualidade. Para fins didáticos, a orientação sexual de um indivíduo deveria então encontrar-se posicionada ou na homossexualidade ou na heterossexualidade. O que fazer então diante da bissexualidade? O que seria esta vivência?
A reação diante da bissexualidade, como citei anteriormente, não parte somente dos heterossexuais como também dos homossexuais, que muitas vezes encaram a mesma como uma aparente ausência de posicionamento em relação à homossexualidade. Em um contexto, em que a luta por espaço, voz e principalmente por direitos se revela cada vez mais presente, a bissexualidade acaba sendo interpretada como uma posição de conforto por muitos, como a saída em viver a homossexualidade e manter-se inserido naquilo que é considerado como “socialmente aceitável”. Termos como “vida dupla” frequentemente aparecem nas discussões que rodeiam o cotidiano dos bissexuais. Ser bissexual carrega, dentre muitas rotulagens, o estigma de uma vida “em cima do muro”, “às escuras” ou até mesmo um certo oportunismo.
Diante das inúmeras reações à bissexualidade, questiono-me se a sexualidade é apenas algo a ser tratado como uma simples questão de posicionamento. A sexualidade é atravessada pela cultura e aquilo que entendemos como sexualidade não é vivenciada sem a interferência da mesma. O que entendemos como sexualidade nos chega através da linguagem, da relação com o outro, da arte, do corpo. A sexualidade é um conjunto de pontos que se tocam, se cruzam, se atravessam, se misturam. Como então questionar os limites de algo que é totalmente atravessado por questões que estão constantemente em movimento? Se a própria sexualidade é vivenciada em sua dinâmica de fatores que se misturam, sendo ela distinta para cada indivíduo e sendo ela mais abrangente, como reduzir à bissexualidade à ausência de uma posição, teoricamente a ser tomada? A sexualidade é dinâmica, mutável e acredito que tudo que a ela esteja relacionado também siga este fluxo.
Ao iniciar o presente artigo, falei brevemente sobre o conto de Guimarães Rosa, “A terceira margem do rio”. Viver a terceira margem do rio é viver a consciência da transitoriedade de uma forma positiva, pois este é o princípio básico da vida. A margem fixa nega o princípio da vida, pois é fixa, não muda, não movimenta-se. A terceira margem é justamente a vivência, a consciência de que nada é imutável, pois somos atravessados pelo tempo. Acredito que a bissexualidade seja a terceira margem do rio, como a homossexualidade e a heterossexualidade. Tudo está relacionado à sexualidade, faz parte dela, atravessa, modifica. Entender que não se trata de uma questão de posicionamento, mas sim da própria condição da vida humaniza a questão e a afasta da mira de um radicalismo pueril. Acredito que toda e qualquer expressão da sexualidade é possível porque a sexualidade é múltipla e o ser humano, palco desta vivência, está constantemente em mudança, exposto a experiências distintas, a contatos distintos. Engessar a sexualidade em categorias didáticas é negar, reiterando, à própria dinamicidade da vida, que nunca se apresenta de uma forma só, em um ângulo somente, em um momento apenas. E, como foi dito anteriormente, já que a bissexualidade, homossexualidade, heterossexualidade compõem o mesmo todo e se atravessam, deveriam também ser entendidas e vivenciadas como uma margem não fixa, que atende ao movimento do tempo, das mudanças, das experiências e que nem por isso deixa de ser possível para aqueles que transitam por ela.
Vejo dois grandes desafios para os bissexuais atualmente:
1) Durante anos a visão da bissexualidade como um não-lugar, um espaço de fuga para aqueles que não querem o peso dos estigmas da homossexualidade, criou um grande problema para a bissexualidade enquanto identidade. É interessante ver isso mudando, com o surgimento até de movimentos bissexuais organizados (que, infelizmente, não existem ainda no nosso país), pois é da convivência com bissexuais que se desmistifica essa idéia de “não-ser” para um “ser também”. É visível que quanto mais bissexuais bancam suas identidades (o ser também), menos homossexuais usam a bissexualidade como um ponto-de-fuga (o não-ser) de sua própria identidade.
2) A possibilidade bissexual contemporânea aponta para o diálogo entre indentidades que se constituíram modernamente como sendo radicalmente opostas e incompatíveis. Trata-se de uma identidade para qual não havia espaço e ocupá-lo significa invariavelmente perturbar os antigos moradores. Heteros e homos já conformados em viver em mundos opostos são deparados com uma ponte que relativisa seus lugares. Isso causa ansiedade, medo e exige readaptação.
Ter coragem de ocupar o lugar desta identidade bissexual (de ser-também) é uma posição revolucionária e bela pois desafia os lugares absolutos e convoca a todos, heteros e homos, que enxergem o mundo menos polarizado. Parabéns pelo texto!