O Armário: como e quando sair dele

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A metáfora do armário já é mais do que conhecida no meio GLBT, mas seus significados, a meu ver, podem ser os mais diversos. Em geral, significar se assumir como homossexual, mas isso muitas é por demais complexo. O que é se assumir? Como se assumir? Que comportamentos podem servir como medida para que se possa afirmar que um gay é assumido.

Já travei debates acalourados sobre o assunto. Minha própria experiência e contatos com outras pessoas me mostram que a questão não é simples. O primeiro passo, geralmente, é o de contar para os pais e familiares mais próximos. O que é, desde o começo, um investimento muito grande devido ao medo de ser rejeitado, de ser expulso de casa, de ser renegado à condição de “ovelha negra” na família. Para muitos, assumir tais “riscos” é insuportável, devido aos vínculos de dependência emocional e financeiro em relação aos pais.

Para um adolescente gay, por exemplo, assumir-se para a família – a depender do tipo de formação moral, valores e postura adotada por ela – pode ser por demais difícil, pois implica muitas vezes em sofrer o preconceito dos pais e irmãos, sendo vítima de violência moral ou física, podendo até mesmo ser expulso de casa e passar por maus bocados. Situações como essas não são raras, sendo, infelizmente, mas comum do que imaginamos e um dos principais medos do jovem gay, afinal não podemos deixar de considerar que a família se constitui no primeiro e principal contexto de socialização do indivíduo, onde introjetamos nossos valores e adquirimos os nossos primeiros papéis sociais e repertórios identitários.

Se opor à família pode significar, muitas vezes, separar-se de uma parte de si mesmo, enlutar-se, morrer e renascer das cinzas. O que para alguns pode ser uma vitória, uma carta de alforria, assumir o rumo de suas próprias vidas, para outros pode causar uma dor muito grande, insuportável, que leva a depressão e a atos de auto-destruição, como o suicídio. Negar-se a si mesmo, no entanto, pode ter os mesmo efeitos negativos sobre si.

Na escola, também, desde cedo os jovens gays são submetidos a modelos de gênero. Meninos e meninas são separados e cada um aprende a assumir certos papéis sexuais. O que é ensinado em casa, na escola é sedimentado. Na aula de educação física, meninas jogam vôlei e baleado e meninos jogam futebol. Principalmente na adolescência, há a pressão de assumir certos comportamentos sexuais. As paqueras começam a rolar, o desejo, o interesse pelo amiguinho ou amiguinha. Na adolescência se experimenta. Mas “assumir” o próprio desejo, ainda tão incerto, indefinido, é difícil, pois o tempo inteiro os colegas soltam piadas, há a fofoca do banheiro e do corredor: “Fulano pegou cicrana”, “Mariazinha te de olho em Joãozinho”, “Acho que Pedrinho é gay, pois não joga futebol!”, “Joaninha é sapata, tava de pegação no banheiro!”.

Nesse primeiro momento enfoco a família e a escola, pois são nossas matrizes e os primeiros contextos de socialização. As experiências que travamos nesses contextos deixam marcas permanentes em nossa história de vida, marcas essas que podem causar impactos enormes no amadurecimento emocional, nas estratégias futuras de enfrentamento em outros contextos interacionais.

Já conheci gays que aos 30 anos ainda não tinham contado para os pais que são gays. Outros, tiveram a coragem de contar para os pais na adolescência e foram expulsos de casa ainda cursando o segundo grau, tendo de abandonar ou postergar os sonhos de fazer medicina. Outro, na mesma situação, saiu de casa e entrou para a prostituição como alternativa que lhe permitiu o sustento e a vivência da sexualidade. Tive amigos que, mesmo com o canudo universitário, sofrem preconceito em congressos e eventos científicos e temem pelo preconceito dos clientes e de colegas. Alguns são militantes e lutam pelo direito de casar, ter filhos, partilhar bens com o companheiro. Para alguns, o medo de se assumir implica na impossibilidade de viver uma vida a dois, na descrença na possibilidade de um relacionamento duradouro, com amor e respeito, mesmo mantendo ainda o sonho de um dia encontrar o par ideal partilhar a vida e a velhice.

Quando escrevo isso, penso em mim mesmo, em meus caminhos escolhidos até agora, nos medos que alimento, nos passos corajosos que dei, mesmo temeroso, na cautela de me assumir para alguns amigos e me esconder para outros, de manter minha aparente heterossexualidade, mesmo vivendo a amando outro homem. Escrever esse artigo, em si, já é um passo para fora do armário. Assinar essas palavras com meu nome é me assumir gay, ao mesmo tempo em que digo que sou homem, sou estudante, amo, sinto, desejo, trabalho, sonho e vivo. E estar com outros “iguais”, tão diferentes de mim, tão únicos, é ver que somos humanos, independente de qualquer rótulo.

O armário, como a casca de um ovo, pode nos proteger e nos assegurar a preservação de nossa própria essência humana. Às vezes precisamos nos esconder dentro dele, ficar quietinho, pensando, dormindo, sonhando. Outras vezes precisamos fazer uma faxina, jogar tudo em cima da cama, pegar as coisas velhas e sem utilidade e jogar fora. Sair e ver de fora o que somos, quem somos e como somos, com a consciência de que não somos sozinhos no mundo, e que outra pessoa também pode vir, abrir a porta do armário e adentrar nossa intimidade. Não nos tranquemos em nossos armários com cadeados. Mantenhamos eles, pois somos nós mesmos, com as portas sempre entreabertas!

Nome: Luiz Fernando Calaça
Bio: Psicólogo, psicoterapeuta, professor substituto do curso de Psicologia da UFBa e aluno especial de Filosofia Contemporânea (UFBa). Membro do UNISEX.
Veja 17 artigos escritos por: Luiz Fernando Calaça



3 comentários para “O Armário: como e quando sair dele”

  1. Paulo Duarte disse:

    Acredito que a metáfora do ovo seja apropriada. O armário é, sem dúvida, uma proteção (física e psicológica) contra um ambiente inóspito e pouco acolhedor. Em muitas condições atuais é necessário para conseguirmos nos desenvolvermos com o mínimo de saúde (novamente, física e psicológica). No entanto não devemos deixar confundir a ave com o ovo, pois o segundo não é nossa essência. Seguindo a metáfora, só os filhotinhos que bancam sair de sua zona de conforto, e dolorosamente quebrar as cascas que um dia protegeram mas hoje sufocam, podem encarar a luz do sol e finalmente voar entre seus pares, sejam estes falcões ou beija-flores. Já aqueles que se acostumam ao conforto, deixam-se atrofiar as asas, emudecem e viram… um ovo choco.
    Gostei do texto, honesto e bonito.

  2. L. F. Calaça disse:

    Oi Paulo,

    Não defendo o ficar no armário, mas compreender que o armário faz parte de nós mesmos. Há momentos que é necessário guardar coisas num “reservado”, em nossa intimidade. Outras vezes é preciso tirar as roupas que temos guardadas e usá-las, vivê-las e mostrar para o mundo. Não considero a metáfora do armário ruim, só não podemos achar que somos o armário.

    A casca do ovo traz consigo uma fatalidade: ou saimos dela, ou morremos e viramos um ovo gôro. O armário traz um sentido e possibilidades mais amplas. No armário guardamos nossa intimidade, nossos segredos, aquilo que queremos proteger e conservar. Deixar as coisas indefinidamente no armário é restringuir, sufocar, abafar, criar poeira, mofar. Mas deixar as coisas fora dele, empilhadas, tumultuadas, também pode não ser funcional. Defendo o bom uso do armário, como defendo o respeito à intimidade. Intimidade que não seja enclausuramento e alienação da vida com o outro.

  3. Pedro disse:

    Olá Luiz,
    Obrigado por publicar esse texto inteligente repleto de sutileza que me ajudou muito a refletir.
    Que você receba da vida tanto quanto está oferecendo a ela.

    Abraço.

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