O ativo sob suspeita: a norma e a anti-norma dos papéis sexuais
abr 22nd, 2008 | Por Paulo Duarte | Categoria: Colunas- Carlos diz que é só passivo.
- Eu não acredito.
- Eu também não.
- Isso é conversa. Duvido que na hora ele não queira ser ativo!
- Ele tem problemas, é travado.
O diálogo acima lhe parece surreal? Para muitos gays depois de passar pelo processo de lidar com sua sexualidade e começar a conviver com outros homossexuais um diálogo como este soa, no mínimo, muito incomum. O principal motivo dele parecer tão estranho é que ele é um exercício de imaginação a partir de uma versão oposta deste mesmo diálogo, cujo sentido é repetido a exaustão: a dúvida sobre a preferência pelo papel ativo entre homossexuais.
A raridade do diálogo acima e a frequência de sua versão oposta merece uma investigação mais minuciosa sobre o que isto pode dizer a respeito das expectativas dos papéis sexuais e seus significados na relação gay. Ativo e passivo são nomes comumente definidos na relação sexual, entre quem penetra e quem é penetrado, no entanto isso costuma ultrapassar os limites da cama e ganhar aderência na identidade do sujeito, muitas vezes adquirindo lugar de substantivo.
Quem é a mulher da relação?
A pergunta ainda comum entre heterossexuais desavisados encontra muito bem ecos nas crenças heteronormativas enraizadas entre homossexuais, que as vezes esperam dividir a relação entre papéis de ativo e passivo. Uma outra crença, igualmente popular, que continua cristalizada cria no entanto uma situação paradoxal: a de que todos homossexuais desejariam de fato ser sexualmente passivos. Não é difícil imaginar que isso gera problemas quando as relações homossexuais contemporâneas começaram a explorar outras possibilidades além do binômio bofe (que não é gay, porque “é” ativo) e bicha (que é gay, porque “é” passivo). Ora, mesmo que na cama a dualidade de papéis permanecessem (como fato ou como possibilidade) muitos homossexuais assumiram outras identidades menos rígidas e o “casal de gays” ficou sob suspeita.
Se os dois são “gays/bichas/veados”, afinal, quem é a mulher da relação?
Se o rapaz diz não praticar sexo com penetração, deve ser passivo inexperiente. Se o rapaz diz-se passivo, é passivo mesmo. Se diz-se versátil, transitando entre os dois papéis, é na verdade passivo. Se diz-se ativo, é passivo sob suspeita. As desconfianças encontram uma justificativa plausível por conta do preconceito de que ser passivo, tal como ser mulher, é considerado um demérito em nossa cultura.
É curioso, no entanto, que mesmo entre ativistas gays seja comum um discurso de reprovação generalizada daqueles que manifestam sua identificação exclusiva com o papel ativo: seriam complexados, machistas, guardando ainda um grau de enrustimento que deveria ser extirpado. O crime de ser passivo, do machismo, se converte em culpa de ser ativo, em sua forma reativa, que no entanto apenas reafirma a mesma crença: acusa-se o outro de esconder um “defeito”. Essa postura não parece comunicar a desmistificação do papel sexual passivo, nem esvaziar seu sentido de inferioridade e sim reafirma sua posição negativa.
Acredito que existe um erro grave ao tentar transformar a intimidade da relação em lugar de posicionamento político, mesmo que reconhecidamente influenciem-se. Não há nada de revolucionário ou positivo em prescrever posições sexuais por razões ideológicas. As relações homossexuais têm a prévia vantagem de ser um espaço com maior liberdade de negociação do papéis sexuais e de gênero. Cada relação tem a oportunidade de construir sua dinâmica menos presa aos papéis sexuais e essa prisão pode ser tanto a obrigatoriedade de imitar a relação heterossexual como ter de se opor radicalmente a ela. Nessa discussão esquece-se que a relação sexual prescinde de prenetração e que muitos casais homossexuais sequer cogitam em incluí-la em suas práticas intimas. No entanto, quando esta prática estiver presente ela deve poder ser exercida de forma livre, inclusive na possibilidade de papéis exclusivos e predefinidos. Assim talvez seja possível realmente subverter a lógica superior-inferior, pois mesmo numa relação onde a divisão dos papéis ativo e passivo aparece, antes de tudo existem duas pessoas exercendo livremente sua sexualidade.
Muito legal Paulo. Concordo e não tiro uma virgula do lugar.
Essa questão do ativo/passivo, no final das contas, acaba por reproduzir estereotipos e preconceitos, que remetem a questões de gênero, ao machismo e a submissão do feminino. Mas quem, afinal de contas, não tem essa “dupla chama”? A dualidade faz parte de nós, há momentos de passividade e de atividade, e há atividades passivas, delicadas, e passividades resistentes, que não se deixa invadir pelo outro.
Estou viajando…
De resto acho que é isso. Sob os lençois há muitos mistérios que não dizem respeito à vida pública, mas cabe apenas nas imediações da intimidade.
Boa meninos. Para fim também é claro como essa questão dos papeis é produto e herança da subjugação do feminino e a imposição da força do masculino presente em nossa sociedade machista.
Vale pensar como é difícil não se encaixar em alguma categoria e nas soluções que se chega para alinhar o desejo às determinações como, por exemplo, as variações do ativo e passivo (ativo versátil, versátil, passivo versátil…).
Fico a refletir também no quanto essa falta de liberdade limita não permitindo novas experiências e outras possibilidades de prazer.