O problema hormonal da sexualidade
nov 12th, 2008 | Por Luiz Lopes | Categoria: ColunasSentado na platéia ouço um renomado médico baiano especialista em reprodução humana. Sinto-me como se estivesse acordado de um sonho. Na verdade não seria bem um sonho, mas uma espécie de despertar após um estado bestial de ingenuidade. Talvez o costume com discussões que questionam certos padrões de comportamento, combatem a discriminação, o machismo, por exemplo, tenham me feito esquecer que também e principalmente no meio acadêmico há ainda pensamentos que cultuam a manutenção dos princípios de uma sociedade hipócrita, discriminatória e preconceituosa.
Sua fama e seu alto conceito no mundo científico e na mídia principalmente é chamariz para um auditório lotado. O tema da palestra: Qualidade de vida. No início pensei que os organizadores pudessem ter se enganado com o convidado, mas depois tive certeza. O tema da palestra não era o mais adequado para o palestrante e logo nos primeiros minutos era perceptível que a sua fala não ia ser diferente do que estava acostumado a proferir, apesar do levíssimo esforço para se adequar ao propósito do evento.
E vamos as suas pérolas. O início aterrorizante sobre as doenças sexualmente transmissíveis é realmente de meter medo. E o problema é mesmo sério. Há de perceber certo olhar culpado e meio desconcertado dos ouvintes. Quem nunca num momento mais afoito ou instintivo não deu uma escorregada e não se cuidou num ato sexual? Aliás, instinto para ele é a essência do ser humano. Seu discurso é todo justificado no fato do homem ser um animal. E coitada das mulheres, não sentem desejo pelo sexo oposto. Todo aquele fogo pelo peitoral do Gianecchini, ou pelas pernas de algum jogador de futebol é apenas interesse, e interesse material.
A mulher é biologicamente incapaz de sentir desejo pelo homem. Seus níveis hormonais não lhe permitem isso. E nem adianta elevar o a testosterona, o hormônios que faz sentir desejo, o resultado seria a mulher sentir desejo por outra mulher. Sua função é procriar e aquelas que possuem ancas largas, seios fartos não precisa nem ser bonita, essas são as melhores e as mais desejadas, pois possuem melhores condições de oferecer um descendente forte e robusto para o macho, garantindo assim a perpetuidade dos seus genes. Alias é com as galinhas que elas se parecem. Segundo ele não existe comparação mais perfeita. Como as galinhas as mulheres só se preocupam em comer e ciscar no seu poleiro, o galo, o macho, é quem se interessa por copular e para a galinha só resta chocar os ovos. No momento do vamos ver a galinha nem olha para o galo, continua a comer.
A vontade que tive era de gritar bem alto: “Mulheres da platéia que se contorcem de riso, essas galinhas são vocês”. Será que elas não perceberam que isso tudo é uma nítida referencia a nossa querida e famosa Amélia? Que é um discurso científico disfarçado de piada validando tudo o que aquelas que queimaram seus sutiãs anos atrás lutaram contra e na atualidade as risonhas da platéia se enchem de orgulho vangloriando-se da independência feminina e de sua superioridade?
E não acabou o papel da Amélia. Para aquelas se sentem incomodadas com a falta de desejo o seu conselho é fingir. Revirem os olhos, gritem junto com ele na hora do clímax, acompanhe o ritmo do seu garanhão para que no final ele possa bater no peito e se sentir o máximo. Eles precisam mesmo é se satisfazer. Não conseguem resistir ao cheiro de uma fêmea. È uma imposição biológica.
Para a homossexualidade não há solução, só resta se conformar. O gay é um ser humano no corpo de homem que tem o gene gay desde o seu nascimento. Nas relações entre dois seres deste tipo não existe desejo sexual, porque eles não são machos e macho só sente desejo por fêmea. Aos casais gays com longo tempo de relacionamento não existe sexo. E se existe sexo um sempre tem o papel da mulher. No caso das mulheres se elas se sentem atraídas por outras mulheres o nível de testosterona de uma é muito alto e a outra provavelmente teve vários relacionamentos frustrados com homens, por isso aceita essa condição.
Por fim veio a grande propaganda do seu trabalho científico. Não sei quais foram os dados utilizados para isso, e tenho até medo de saber, mas o Doutor afirma que o seu trabalho com o planejamento família durante os últimos vinte anos na cidade de Salvador é o responsável pela diminuição da violência e marginalidade nesta cidade. Vem lançamento de livro por aí, aguardem. Também não tenho idéia de onde ele tirou que a cidade esta menos violenta, mas tenho idéia de onde vem o seu pensamento que o sujeito que é criado sem pai é um marginal em potencial. Diz o velho ditado que macaco não olha para o rabo, deve ser por isso, que este doutor que deve ter uma família exemplar, faz este tipo de afirmação.
Assim como as mulheres, fêmeas da platéia que riram e se divertiram ao serem chamadas de galinhas, muitos homens, machos devem ter se sentido muito confortáveis ao terem suas puladas de cerca justificadas por uma questão hormonal. Não sei em que planeta vive o palestrante, mas sei que sua palestra fere diretamente com tudo o que se tem lutado contra durante anos e vem se tentando modificar como, por exemplo, a história das mulheres que tem um longo período de submissão e anulação de sua vida, contra o direito de ser e amar, diferente dos padrões de uma sociedade que preza por valores e comportamentos para manter os interesses e privilégios de uns poucos. E tudo isso sobre o aval de algo que se tem como incontestável e mensurável: a ciência.
Além de não levar em consideração que o homem é um ser social e portanto fruto das relações construídas historicamente, ignora este processo histórico da humanidade onde essas relações se transformam e determinam por exemplo o modelo de família. Modelo de família idealizado ainda hoje e que não diz respeito a realidade de muitos, ou melhor da maioria. Sem contar na visão preconceituosa e machista sobre a mulher que sua única serventia é parir. O que prega este doutor é a manutenção de comportamentos como o de pendurar um lençol com mancha de sangue na janela dos recém casados para mostrar a todos que a jovem era virgem, sob pena de ser devolvida aos seus pais, como um objeto, se não houvesse sangramento.
Não sei se os direitos conquistados pelas mulheres tenham sido lá grande coisa, afinal ainda hoje o mundo é dominando pelos homens, ela continua sendo explorada, mão-de-obra barata, dupla jornada de trabalho, sustenta a casa e ainda tem que dar conta dos afazeres domésticos, tem seu corpo vendido como objeto sexual, é vítima dos padrões de beleza impostos pela indústria da moda, mas o que sei é que pensamentos retrógrados como estes devem ser combatidos com todas as forças não só por elas que sofrem na pele os estigmas de ser mulher, mas também pelos homens que sofrem as conseqüências da desadaptação as novas estrutura de família, e também pelos homens gays e mulheres lésbicas que tem suas vidas escondidas e camufladas para poderem serem aceitos dentro dos padrões irreais do que é ser homem, do que é ser mulher, do que é ser macho e do que é ser fêmea.
Muito interessanto o artigo, Luiz.
Compartilho da sua indignação em relação à reação das pessoas presentes, que riem e aceitam com naturalidade comentários tão perjorativos.
A ciência é até mensurável, mas não incotestável. Como você mesmo disse no texto, “o homem é um ser social e portanto fruto das relações construídas historicamente”. O médico que realizou a palestra, cientista renomado, também é um homem, e está inserido num contexto histórico-social. Provavelmente teve uma criação machista e usa a ciência para perpetuar os valores que internalizou.
Nenhuma ciência é neutra, porque os cientistas não o são. Existem intenções políticas, implicações éticas e sociais. Por que existe tanta pesquisa em torno dos medicamentos anti-retrovirais que combatem o HIV? Por que muitas pessoas ainda morrem sem acesso ao mediamento? Uma vez que a ciência os descobriu não seria lógico que eles fossem usados impreterivelmente para salvar essas vidas? Porém há questões políticas e econômicas que norteiam as ações científicas. Pesquisa científica é uma ação humana, e, portanto, tem caráter intencional e político.
Foi uma atitude política também a reação das pessoas em aceitar passivamente ou concordar com os comentários machistas e homofóbicos do palestrante.
O médico tem todo o direito de ter sua linha de pensamento e fazer a política que a ele convém. Da mesma forma, cabe a nós nos manifestarmos politicamente também, expor nossas idéias, argumentos e ideais justamente porque, numa sociedade que tem como príncípio político a democracia, deve haver a tolerância e respeito às diferenças, sejam quais forem suas causas e origens.