
Ontem houve a parada do orgulho gay em Salvador. Não compareci a ela. Não sei ao certo o motivo de não tê-lo feito. Poderia rascunhar algumas razões, tentar racionalizar sobre o tema, ou simplesmente levar para terapia. Por que precisamos ir para as paradas? Deixo essa questão em aberto.
Ao mesmo tempo, deitado a poucos minutos em minha cama, pronto para dormir, me vieram lapsos de idéias que considero importantes de serem discutidas. O primeiro se trata da visibilidade gay. Participar de paradas significa, em parte, dar visibilidade, dentro da sociedade, da existência da homossexualidade, transexualidade, das travestis, e de toda essa diversidade de manifestações e expressões do humano.
As paradas tem um objetivo político, de ocupação do espaço público e da afirmação de identidades múltiplas, de luta pela conquista de direitos, da crítica à homofobia e à indiferença à singularidade humana. Essa é, a meu ver, o sentido radical da existência das paradas.
Por outro lado, vejo uma certa confusão e banalização do evento, muitas vezes desvirtuado e associado ao carnaval. Já obtive relatos de pessoas que participaram da parada de São Paulo, por exemplo, este ano, que presenciaram situações de assédio sexual e violência, com forte teor de homofobia, por pessoas que compreendiam – miseravelmente – que a parada era uma grande festa em que ninguém era de ninguém.
Assim, não me parece de todo inverdade minha percepção de que a parada, que antes se configurava como um momento de ruptura, de estranhamento – queer – de transgressão, passa a se tornar produto, objeto de venda, impregnando-se de interesses comerciais. Curiosamente, dias antes da parada, vi duas pessoas no ponto de ônibus em frente ao Hotel Othon, vindos de um congresso sobre turismo GLS, em que havia estampado numa pasta em preto a frase “Eu amo viajar”, tendo o “amo” a forma de um coração com as cores do arco-íris.
Por um lado, essa iniciativa pode ser vista com bons olhos, como um avanço sobre os direitos GLBTT, ao ser incluído um serviço diferenciado voltado este público. Por outro lado me causa certo estranhamento, pois o bom atendimento nos serviços de hotelaria e turismo que deveria ser natural para todos, independente de cor, gênero e orientação sexual, passa a se dar a partir de uma discriminação de um público “consumidor”. Qual é o foco: o bom atendimento do cidadão ou o gay que tem dinheiro e pode consumir?
(Sem contar que nem sempre aquele que serve, necessariamente, deixa de ter seus preconceitos revistos e passa a respeitar autenticamente o gay em sua diferença).
Incomoda-me ser visto como um consumidor em potencial, e não como um humano como qualquer outro. Seria ingenuidade, no entanto, pensar que é possível que as coisas se dêem de forma diferente numa sociedade capitalista, em que tudo se converte em produto e consumo.
Outro aspecto que me incomoda e me põe a refletir é a inserção de personagens gays em novelas da TV. Lembra-me muito o caminho percorrido pelo movimento negro, em que passou a existir cotas, x% de representantes negros entre os personagens das novelas, nas propagandas de televisão. Agora vemos cotas para gays nas novelas, oras expressando a diversidade do fenômeno, oras reproduzindo estereótipos, mas nem sempre aprofundando temas verdadeiramente relevantes, tangenciados apenas, ensaiados e não exibidos.
E, novamente, há por traz os interesses e a lógica do mercado, da importância, nos meios de comunicação de massa, de se criar uma marca, um rótulo que atraia um público consumidor “G”.
Fico me perguntando com meus botões: de que vale essa visibilidade? Ela realmente traz consigo um movimento de desvelamento ou é encobridora? O lado que se revela, encobre o, que em sua aparição? E, principalmente, o que tudo isso me espelha, me reflete e me projeta, me faz pensar sobre minha própria condição?
Em que o meu revelar, o meu tornar-me visível, faz de mim diferente, muda verdadeiramente minha condição perante a sociedade? Sou, em meu revelar, verdadeiramente aceito e respeitado, ou sou concebido como aquele que, apesar de tudo, sou apenas consumidor, consumido na engrenagem da máquina do capital. E, neste revelar, me singularizo ou mergulho na massa? Sou humano, converto-me em humano, ou me (des)humanizo? O que tudo isso significa afinal, o que me significa?
Penso se posso ser estranho em minha singularidade, não sendo nada e sendo eu mesmo. Não me parece absurdo pensar isso! Creio mesmo que seja bastante queer. Não ser nada e ser tudo. Mostrar-me e/ou esconder-me, revelar e ocultar, transitar pelos espaços no espaço invisível da singularidade, no anonimato daquele que simplesmente é, em si, único. Não sei se isso é possível, nem impossível.
Posso caminhar na multidão? Posso ser, sozinho, multidão?
Boa Tarde Luiz, tudo bem?
Li seu texto, e tendo a pensar como você. Acredito que hoje em dia não há uma aceitação do não-heterossexual. Vivemos em um momento onde ocorre o fenômeno da “inclusão para excluir”, visto que os homossexuais somente são admitidos quando capazes de consumir. A parada gay por exemplo, não é um espaço de luta por cidadania, mas um local para exercício da sexualidade (que só existe por gerar lucros para região em que acontece). Não sei se estou sendo claro, mas o que quero dizer, é que hoje só temos atendimento VIP em lugares, ou mesmo autorização de realizar uma parada gay, porque ao ocorrer estes eventos, geramos renda para iniciativa privada e assim fazemos girar mais rápido as engrenagens do capital. Uma igualdade substâncial ainda não temos, pois vivemos em uma sociedade que regula a sexualidade dentro de padrões heteronormalistas.
Desculpe-me pelo texto um pouco desorganizado, pois tive de responder as pressas. Não quis deixar de comentar, pois seu artigo ficou muito bom.
Abraços
Gil Ricardo
Eu so feliz de ser gay .. acho q ta mais na hora dos brasileiros ter menos preconceito …