Homossexual sim, boiola não?!

Há alguns anos entrei no site do Grupo Gay da Bahia (GGB) e fiquei surpreso com algumas imagens de cervos ou veados que havia na página. Eram imagens animadas (GIF’s) que mostravam esses animais saltitando de um lado a outro. Aquilo me chocou. Também me incomodou muito. As perguntas que se repetiam na minha mente eram: “Como um grupo que defende os direitos dos homossexuais pode nos expor a uma situação tão ridícula? E por que acatar essa figura que a sociedade usa para representar os gays de forma tão pejorativa?”

Hoje reconheço que parte do meu espanto e do meu incômodo aconteceu porque não lidava direito com a minha homossexualidade. Até aceitava que alguém se referisse a mim como homossexual, gay, mas “viado”, “bicha”, “baitola”, ainda eram termos que incomodavam demais.

Com o tempo amadureci e me dei conta de que o problema não estava no termo usado, mas no modo como eu o encarava. Aprendi que não importa o nome de que me chamem, seja “frutinha”, “boiola”, todos eles representam o que eu sou. E eu me orgulho e muito do que sou, da minha condição, da minha orientação sexual e de tudo que está atrelado a ela. Quando alguém me chama de pederasta ou o que o valha, penso logo: talvez estejam querendo dizer com isso que sou sensível, que me sensibilizo com os sentimentos alheios; talvez queiram falar que não sou violento, que sou carinhoso, meigo; podem estar querendo dizer também que faço amizade fácil com as mulheres e me dou super bem com elas como muitos homens não conseguem fazer; quem sabe podem estar querendo dizer que sou apegado à minha mãe e à minha família; ou ainda podem estar querendo afirmar que sou capaz de amar um igual, que sou forte o suficiente para romper preconceitos, encarar vários obstáculos e ser feliz.

Quando tirei do meu coração e do meu ombro o peso negativo desses termos, o meu modo de encarar o mundo mudou. Inventem a palavra que quiser, em qualquer tom de voz, ela ressoará sempre de forma positiva, porque é assim que me sinto quanto ao que sou, quanto à minha forma legítima e genuína de amar.

Sobre João Ricardo Borges 1 Artigo
(Ex-integrante) Professor, graduado em Biologia na UBA.

3 Comentários em Homossexual sim, boiola não?!

  1. É uma questão interessante ressignificar as palavras e tirar-lhes o peso negativo.
    Outro aspecto interessante é entender que é possível que alguém, apenas por ignorância, use um termo mais vulgar sem más intenções e outro use de termos socialmente aceitos para disseminar preconceitos.

  2. Quando eu era pequeno me chamavam de “engomadinho”. Não me lembro se chegaram a me chamar de frutinha ou coisa parecida. Lembro que uma colega da prmeira série primária me chamou uma vez de “hipopotamo sem rabo”, porque sempre fui gordo. Hoje me chamam de “Luiz”, de “Fernando” ou de “Calaça”. Alguns também me chamam de “Doutor”, sendo que sou apenas um estagiário. Acho que o que importa não é como os outros nos chamam, mas o que fazemos com esses “nomes”. Existem representações sociais do que seria o homossexual: sensível, inteligente, culto, depravado, promíscuo, afetado, etc etc. A realidade não condiz com as representações dela. Existem milhares de fomas de vivência e existencia na homossexualidade, e esta não é o elemento central da identidade de todas as pessoas que praticam sexo ou tem relações erótico-afetivas com pessoas do mesmo sexo. Tem piadas de “bichinhas” que são engraçadas e fazem rir, por serem ridículas, como deve ser uma boa piada. Eu rio delas, pois não significam nada para quem realmente eu sou enquanto indivíduo integral. E se pensarmos bem, veadinhos são animais tão fofos! ;P

  3. Verdade. Não é o que se fala, mas como se fala. Tem o lance da ressignificação também. Maturidade. Saber como lidar com as palavras. A intencionalidade delas pode ferir mais do que um soco na cara. Existem comunidades no Orkut espalhadas ao montes pelos “pseudo-heteros”, exatamente como o seu título e eu me pergunto o porquê disso tudo. Será que são menos “gays” do que os afetados que tanto julgam? John, belo texto, meus parabéns!

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