A bola, as bibas e a conquista de espaços urbanos

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Tive a oportunidade de acompanhar a realização de um dos jogos de baleado que acontecem em algumas quadras de Salvador. Por vezes chamado de baleado “gay” (o que para uns soa redundante e para outros excludente) o fato é que este tipo de evento tem peculiaridades importantes para a comunidade gay.

A primeira impressão marcante é o campo de futebol ao lado da quadra em que será disputado o baleado. Um espaço fortemente masculino e heterossexual passou a ser compartilhado por jogadores gays e através de um jogo que, culturalmente, ficou menos associado com a virilidade. A convivência entre os dois grupos de jogadores parece ser tranqüila, para não dizer indiferente como aliás é ideal, afinal nada acontece em uma das quadras que realmente pudesse interferir e incomodar os participantes da outra. Um ou outro transeunte surpreende-se com demonstrações de afeto entre os presentes e seu olhar de surpresa por acreditar estar vendo uma exceção, converte-se na constatação de que, na verdade, trata-se da regra: aquela é uma quadra “gay”.

Mas não é verdade.

A quadra, como todo aquele espaço público, não é “gay” ou mesmo “gls”. Outra hora poderá ser ocupada por heterossexuais ou qualquer grupo da comunidade. Não há, de fato, nada que caracterize qualquer dos espaços destes jogos como voltados para os gays: estes estão apenas ocupando-o como fazem outros cidadãos. E isso tem implicações sociais interessantes, gerando uma possibilidade de diálogo com o resto da comunidade e libertando de certos ranços dos guetos.

Além de permitir uma experiência de sociabilização com outras pessoas, homossexuais ou não, as incursões de eventos majoritariamente gays em espaços fora do gueto GLS têm um efeito catalizador positivo na afirmação de uma identidade saudável e na desmistificação de preconceitos. Por um lado, gays tem a possibilidade de experimentar a liberdade física, afetiva e coletiva graças ao suporte de um grupo que dá segurança de expressar-se sem precisar estar dentro das fronteiras protegidas dos “lugares gls” e por outro lado, o evento captura o olhar daqueles que, por estarem distantes da realidade homossexual, ignoram-na ou preferem desconhecer as vivências GLBT relegando-as ao espaço marginal.

Acredito que é interessante que existam mais eventos nestas fronteiras entre os ambiente denominados GLS e o resto do mundo, para que justamente estas fronteiras se diluam e novas possibilidades de diálogo apareçam. Como nem todos gostam de baleado e as quadras não são o único espaço a ser conquistado, outros eventos semelhantes podem e devem ser estimulados. Talvez algo como excursões urbanas ou semelhantes aos flashmobs (eventos combinados pela internet, em que rapidamente são mobilizadas várias pessoas para estar em um mesmo lugar apenas por diversão).

Longe de serem passeatas gays e muito diferentes de manifestações como os “beijaços” (onde as pessoas vão para beijar publicamente em resposta a uma atitude homofóbica), estes eventos devem valorizar a naturalidade com que as coisas acontecem. Os afetos, beijos, abraços, os assuntos das conversas, se e quando acontecem serão espontâneos e apenas porque as pessoas que ali se reúnem compartilham algo em comum. E, mesmo sem cartazes e frases de efeito, esses eventos podem ser ponto de transformação social e uma experiência libertadora para aqueles que se permitem participar.

PS: Luiz Fernando Calaça  fez um artigo em seu site sobre Vivências e divergências na homossexualidade inspirado no debate que se seguiu a publicação do artigo, vale dar uma passada lá e conferir.

10 Comentários em A bola, as bibas e a conquista de espaços urbanos

  1. A idéia de realizar excursões urbanas como forma de eliminar as barreiras sócio-culturais que isolam os homossexuais do restante da população, é uma ótima sugestão. Contemplo como uma forma ímpar de revolução pacífica, com grande potencial de transformação social. Resta, entretanto, a tarefa mais difícil, que consiste na organização de grupos e de eventos para a concretização das excursões. O espírito de unidade política entre os humanos ainda é frágil,portanto, essa é a primeira barreira a ser rompida para que mais uma grande idéia não tenha seu brilho restrito ao firmamento das teorias.

    João,

    Não sei se unidade é ideal ou mesmo necessária para o processo. Mas não acho que os grupos sejam realmente difíceis de organizar. Ou melhor, grupos sempre são um fato: ou existem ou não, sem um fórmula muito clara de como fazê-los surgir cabe apenas aproveitar o fluxo. Acredito que o momento é favorável para que os grupos surjam. Prova disso é que já existe o baleado. Quais serão os próximos?

    Paulo

  2. Gostei do texto. Mas… algo me incomoda. O gays estão em todos os lugares, praticam esportes, ocupam espaços de socialização. Acho interessante esse movimento organizado do ponto de vista político, mas não sei. Teve algo no texto que chegou a mim como um “nós e eles”. O “e” é interessante por indicar um convívio, mas ao mesmo tempo marca uma diferença que, às vezes me incomoda.

    Diferenças há, em todos os lugares. Me pergunto se sempre teremos de apontá-la, para nos afirmar ou nos firmar.

    Será legal quando, ao invés de futebol e baleado conviverem pacificamente um ignorando o outro, possam se misturar. Gays e heteros jogando futebol e baleado, sem a demarcação de fronteiras artificiais, criadas por nós mesmos.

    Fernando,

    Concordo. Mas para desfazer a fronteira é preciso antes que pioneiros de ambos os lados atrevam-se a aproximar dela e finalmente cruzem-na. E é isto que eles estão fazendo.

    Paulo.

  3. E, não considero a indiferença como ideal. A indiferença é a morte do sujeito, este é desconsiderado, anulado, não se faz presença. É meio doido, mas estar indiferente é negar o outro enquanto diferença e auteridade.

    Às vezes é preferível o ódio, que é um afeto, que demarca a presença do outro, que a indiferença, que o anula.

    Fernando,

    A indiferença de que trato aqui é a (in)distinção que se espera fazer entre as pessoas porque delas não há nada relevante para diferenciá-las, como você mesmo comentou antes as fronteiras são artificiais. Os jogadores de futebol permaneceram indiferentes ao que acontecia na quadra ao lado exatamente como quando ela é ocupada por outros jogadores de futebol. Um baleado “gay” não virou circo, nem motivo suficiente para atrair-lhes a atenção e esquecerem seu próprio jogo. Quando trocamos afeto em público o que espero dos outros é a indiferença, afinal nada de “diferente” está acontecendo. De qualquer modo não acho saudável preferir o ódio a isto, já que o ódio só reconhece a diferença com objetivo de eliminá-la.

    Paulo

  4. Boa resposta. Talvez precise se ressignificar esse termo “indiferença”. Estar indiferente não é a mesma coisa de indiferenciável, indiscriminável. Mesmo assim, seu olha viu diferenças. O contato e os afetos entre homens. O que talvez não seja apenas observável entre os membros do baleado, mas também entre os heteros da quadra. Quando trago meu questionamento e meu incomodo é justamente não ver diferença na diferença. A diferença talvez esteja nos olhos de quem vê e significa esse outro. Facilmente, muitos desses gays passariam por heteros no jogo de futebol, da mesma forma que, não é possível definir com precisão se, dentre os membros do grupo do futebol não há também um gay. Com isso digo que os gays não são necessariamente mais afetuosos nem demonstram de forma explicita suas emoções. Considerar isso é cair num estereótipo e ser pego pela própria armadilha. O baleado gay pode ser simplesmente um baleado. É gay apenas para quem o significa dessa forma, para quem quer definí-lo dessa forma. Às vezes é bom estranhar nosso próprio olhar, nossa própria realidade, pois às vezes vemos aquilo que buscamos para nos diferenciar.

    Fernando,

    Existem problemas nestes conceitos que você apresenta, mas não são só seus ou meus, estão no cerne das questões do movimento gay e em diferentes posturas adotadas para resolvê-los. A grosso modo: quer-se (alguns de nós) a indiferença que vem da naturalização das experiências homossexuais mas para vivenciar essa possibilidade é preciso antes afirmar a diferença para deste modo conquistar espaço que algum tempo atrás sequer existia. É um equilíbrio delicado e que muitas vezes gera ruídos entre os próprios ativistas.

    Fornecer tratamento “indiferenciado” aos diferentes não é o mesmo que ignorar as diferenças: eu sei que meu pai possuía olhos azuis e minha mãe têm olhos castanhos, eram diferentes no entanto isso não me fazia diferenciar o amor por eles. Por outro lado ignorar diferenças não é saudável, embora muitos homossexuais tentem fazer colocando-as em seus pontos cegos.

    Sim, é provável que existam gays na quadra ao lado, acho que ninguém com bom senso ignora isto. Também não disse que gays eram mais afetuosos, acho que sua leitura ficou contaminada por suas próprias expectativas. Se os heteros trouxessem suas namoradas aos jogos, certamente eu teria visto as mesmas demonstrações de afeto, até mais ousadas devido apenas à liberdade de que gozam. Soube também que há heterossexuais que participam eventualmente do baleado, não vejo porque seria de outro modo.

    Quando fala-se de identidade social e orientação sexual, é preciso entender que há várias camadas inter-dependentes, veja um exemplo: seria o baleado menos “gay” se aquela partida fosse jogada exclusivamente por heterossexuais? Pessoas diferentes responderão esta pergunta de forma bastante diversa…

    Paulo

  5. Paulo,

    Acompanhar o fluxo nos torna vulneráveis. Inesperadamente, ele pode mudar ou mesmo encerrar-se. Todavia, é uma alternativa que pode ser acatada. É como viver ao sabor do vento: o prazer da liberdade lado a lado com a incerteza e inseguranças do caminho para onde se está sendo levado.

    João,

    Sim, há este risco. Mas aproveitar o fluxo não significa apenas ficar a mercer dele, mas compreender que ele é maior que nós. Navegadores aprenderam a ajustar as velas para chegar onde queriam, embora tenham que enfrentar dias de tempestade e dias sem vento.
    Mas no fim das contas, “navegar é preciso…” 😉

    Paulo

  6. Paulo,

    Não é necessário se jogar ao mar, se você nao quer correr o risco de ir à deriva em uma tempestade. Há outras formas de conquistar novas terras.

    João,

    Hein?! 😮

    Paulo

  7. Bem. Deixarei de comentar aqui. Peço apenas que fique claro que meus comentários foram apenas no sentido de levantar questionamentos para discussão, pontuar algumas coisas que podem ser mais debatidas, relativizadas, desconstruídas, para não se ficar preso a um olhar ingênuo sobre o fenômeno – embora eu sempre ache que é no ingênuo que subjaz as sementes para uma reflexão mais aprofundada.

    Quando propus algumas provocações foi no sentido de fazer o pensamento se mover em torno da questão de forma dialética, no movimento de construção e desconstrução de sentidos e significações, sobre o tema em questão.

    Não me prendo apenas ao que está dito no texto. Este me pareceu bastante interessante por apresentar um momento de possível abertura para a auteridade entre hetero e homossexuais. E minhas questões foram justamente no sentido de aprofundar ou abrir pontos de reflexão sobre esse aspecto.

    Em todo o caso, deixo aqui minha contribuição.

    Acho apenas que, antes de qualquer coisa, se busque neste grupo um exercicio de pensamento arejado, livre o suficiente para permitir a abertura para as diferentes opiniões e pontos de vista, os mais divergentes, ingênuos ou particulares possíveis, com respeito para que se cultive a auteridade também aqui.

    Boa sorte ao grupo.

    Luiz Fernando

    Fernando,

    Tenho que admitir que não consegui compreender plenamente o seu questionamento ou mesmo sua posição em relação as diversas questões que o texto sucitou e outras que talvez passem por sua cabeça mas não tenham relação direta com o artigo que estamos comentando. Acho prudente que não se transforme a sessão de comentários em fórum de discussão, já que temos instrumentos mais apropriados para isso. Por outro lado, acho que é um exercício saudável você escrever suas questões, para dar-lhes corpo e consistência interna. Então, convido você a não mais comentar mesmo, como disse que não faria, e produzir um artigo para nosso site com sua visão e questionamentos. Se aceitar a proposta, ele será publicado aqui no UNI Sex.

    Paulo

  8. Gostaria de saber o sentido da palavra ” auteridade”
    Alguns acham que é o respeito que um deve ter para com o outro . Alguns acham que é não fazer ao outro aquilo que não querem que se faça a si. A auteridade foi invocada num julgamento de danos morais baseando-se numa teoria de Rosseau. Gostaria de saber mais sobre esse assunto. agradeço sua atenção Um grande abraço

    Maria gilka.

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