Não é preciso ser diferente para ser gay, mas podemos ser.

 

Em um texto para Folha de São Paulo,  com o título: Não é preciso ser diferente para ser gay, Alexandre Vidal Porto faz algumas considerações sobre as paradas gays, em particular a de São Paulo. Destaco alguns trechos abaixo que, acredito, podem conduzir à um raciocínio equivocado:

“[1] Os homossexuais podem se tornar invisíveis. É só saberem dissimular ou mentir. (…)
[2] O estilo exagerado que alguns participantes preferem adotar é legítimo e respeitável. Mas presta um desserviço para o avanço dos direitos à igualdade. (…)
[3] Os milhões de pessoas que comparecerão ao evento na avenida Paulista deveriam ter presente a responsabilidade cívica de conquistar corações e mentes para a sua causa. (…)
[4] A aceitação da homossexualidade pela opinião pública está vinculada à convivência com pessoas abertamente gays. Mostrar-se é importante. Nessa batalha, é mais estratégico exibir a semelhança. É mais difícil para o mundo identificar-se com o ultrajante.”

Não precisa ser diferente para ser gay, mas podemos ser.

Contanto que as fantasias não sejam obrigatórias (nem proibidas), me parece que discutir e vigiar a indumentária alheia é o oposto do que se propõe qualquer parada que celebra a liberdade de expressão sexual.

Talvez sem essa pretensão, o texto passa a mensagem de que para “conquistar corações e mentes para a sua causa” é preciso se comportar de uma determinada forma aceitável, normal, semelhante [3]. O que mais deveria seguir a norma, além da roupa? Ter voz grossa? Pulso firme? Que os casais não se toquem em público? Qual custo dessa aceitação? Qual a diferença dessa proposta e do velho: “seja gay mas não pareça gay”?  O problema é que o texto não sinaliza o que é entendido como ultrajante [4], que fica a critério de quem concorda ou discorda do que é dito. Me pergunto se, de fato, há tantos comportamentos ultrajantes? São eles sancionados e promovidos pelos organizadores ou são incidentes inevitáveis num evento dessa proporção?

Existe uma gigantesca massa de gays “pessoas-comuns” em todas paradas, talvez tão comuns que não são vistos enquanto gays, muitas vezes apenas como espectadores. São invisíveis mesmo em um evento cuja proposta é a visibilidade. Em parte pela preferência midiática de fotografar o que é espetacular, em parte pelo filtro da percepção do público que não deseja ver entre seus iguais o que lhes torna de algum modo diferentes.

Aliás essa arraigada descrença na semelhança dos gays com as pessoas comuns parece influenciar a escolha de algumas palavras do texto, como é uma possível interpretação da primeira frase, que atribui a invisibilidade à dissimulação e a mentira [1]. Muitos gays são invisíveis simplesmente porque são iguais a qualquer outra pessoa, não porque estão disfarçando. O texto, no entanto, parece esquecer de mencionar essa possibilidade. Esquecimento que acredito, seja acidental, uma vez que Alexandre analisa a carência politica nas paradas de maneira bem mais acertada em outro texto seu: Menos Parada e Mais Passeata, sem culpabilizar os que tem um estilo exagerado.

Concordo que é preciso dar voz as demandas políticas, principalmente mostrar as contribuições dos gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros como parte integrante da sociedade e que dialoga com ela. Mas existem outras formas de dar visibilidade a médicos, advogados, policiais, bombeiros gays e outros membros relevantes da sociedade que são LGBTs sem ter que pedir aos exuberantes que brilhem menos. Especialmente porque, nos outros dias do ano, esse brilho significa para eles um grande risco de vida. Não acredito que eles prestem um desserviço ao avanço dos direitos [2], afinal os direitos também são para eles. Acredito sim, como também Alexandre, que falta às paradas aproveitarem melhor a oportunidade de dialogar, tanto com a comunidade que representa, conscientizando-a e politizando-a  como também com o resto da sociedade, mas apresentando para ela toda sua diversidade.

PS.  E você, o que gostaria de ver na Parada Gay de sua cidade? Acha que menos purpurina = mais política? O que pode ser feito para dar mais visibilidade as necessárias mudanças políticas?

6 Comentários em Não é preciso ser diferente para ser gay, mas podemos ser.

  1. Impressionado com a entrevista de Alexandre Vidal Porto está dando no programa do Jô Soares sobre a homossexualidade. Disse uma coisa que eu sempre digo: A aceitação da homossexualidade pela opinião pública está vinculada à convivência com pessoas abertamente gays. Mostrar-se é importante. Nessa batalha, é mais estratégico exibir a semelhança. É mais difícil para o mundo identificar-se com o ultrajante.” A sociedade quer ver os homossexuais como travestis que matam com gillete, como a bixinha cabeleleira que faz os cabelos das mulheres, ou mesmo como os estilistas das altas grifes…porém ninguém quer ver o bombeiro que o salva, o mecânico que concerta seu carro ou o empresário de terno e gravata como assumidamente homossexual!!!

  2. Estou orgulhosa, como cidadã, de ter um representante do nosso país tão culto e bem formado e respeitador dos direitos civis.Parabéns ao mestre Alexandre Vidal Porto por entrevista tão rica e por sua postura honrada e discreta ao defender a comunidade LGBT e incluir-se nela não só como participante da comunidade mas como cidadão responsável e respeitador.Só podia ser nordestino e da terrinha de grandes vultos da nossa literatura “inteligente”.Um abraço, Marta Andrade.

  3. Olha, dois grandes problemas pra mim no artigo, alguns anos depois. Primeiro, associar homossexualidade e transgressão não é privilégio. Infelizmente (será?), em grande parte da sociedade, é ser transgressor. Seja das regras da religião, da moral preconceituosa e hierárquica, do papel social, etc. Isto independente da parada gay.

    Segundo, a carnavalização pode ser e frequentemente é profundamente política. Seja como aprendizado de rua, seja como espaço de trocas entre espectadores e participantes, seja como uma forma de estar no espaço público.

    Agora parada gay não pode ser o único momento em que se faz política. ela precisa estar integrada em algo mais, algum tipo de pensamento estratégico de longo prazo.

    E no mais, não apenas que os exuberantes brilhem. Estamos condenados a brilhar.

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