Você não está sozinho

12 de fevereiro de 2009 | Por Luiz Fernando Calaça | Categoria: Filmes

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O filme filme dinamarquês “Você não está sozinho” (Du Er Ikke Alene), de 1978, se passa numa escola dinamarquesa, onde funciona um internato de meninos. Ambientada na década de 70, o filme traz as primeiras descobertas da adolescência de um grupo de meninos, que começam a ter contato com bebidas, drogas, com o corpo e a sexualidade.

Na escola os meninos têm aulas sobre política, sobre os efeitos de drogas e “vivências” que exploram o contato com o corpo e os impactos psicológicos das relações grupais de aceitação ou rejeição. Os professores adotam duas posturas: uma mais liberal, que favorece a reflexão e incentivam as descobertas da adolescência e uma mais conservadora, que prima pelo respeito aos professora e pela moral, submetendo os alunos a regras rígidas e primando pela “coerência na educação”. Apesar do formato laico – gerido por civis – a escola tinha aulas de religião, denotando um modelo tradicional de educação.

Numa das aulas, sobre política, em que se discute sobre regimes democráticos, um dos alunos questiona a participação dos jovens e idosos no regime democrático – considerados marginais nos processos decisórios. O professor, como justificativa, fala da “imaturidade política dos jovens”, legitimando a representação social de jovem como um “não lugar”, um “não-ainda”, um “por vir”.

Nas cenas envolvendo os garotos, evidenciam-se vários fenômenos “típicos” da adolescência e suas descobertas: o uso de drogas (desodorante), as práticas de masturbação, a leitura de revistas e livros eróticos, brincadeiras sexuais e brigas entre os meninos. As primeiras experiências sexuais se dão entre os próprios meninos ou com meninas da turma – ou mais velhas, que cuidam do refeitório – de forma delicada, num progressivo desvelar-se que transita entre a excitação da curiosidade o medo e de serem descobertos. Apesar dos controles exercidos pelos professores – em especial pela figura do diretor – os meninos encontram formas alternativas de “burlar” as regras e experimentarem clandestinamente, as primeiras experiências da adolescência.

Em destaque, tem-se a história amorosa de dois garotos – Kim e Bo – que vivenciam essas experiências entre si. Bo vem das férias na praia, em que teve um contato amoroso com um amigo e trás as dúvidas e curiosidades sobre a sexualidade. Kim, filho do diretor da escola, mais novo que Bo e da maioria dos meninos, que tem contato com eles e, progressivamente vai entrando em contato com a sexualidade e com o amor. Aos poucos vai se delineando um jogo de sedução entre Bo e Kim, em que ambos experimentam o contato e a intimidade, de forma lúdica , por meio de brincadeiras.

Algumas cenas traz bem nítida essa ludicidade que demarca a fase de transição da infância para a adolescência, como a brincadeira de índio, e o banho dos dois, em que o Kim brinca com a espuma do xampu. A descoberta da sexualidade, entre eles, se contrapõe com a “invasão de pornografia” que se dá na escola, pelos meninos mais velhos, mostrando uma via que mantém uma aura de “inocência” da infância – considerada característica “típica” da infância.

Em paralelo à relação entre Kim e Bo – protótipo desse amor inocente – tem-se as formas dos outros jovens de vivenciar de forma mais explícita as descobertas da sexualidade, por meio de piadas, brincadeiras eróticas e da externalização espontânea dessa sexualidade. Colocada em evidência, nas ações e na linguagem dos jovens, essa sexualidade é reprimida pelo diretor, quando tenta punir um dos alunos, responsáveis por prender fotos revistas pornográficas no banheiro dos dormitórios.

Diante da postura autoritária do diretor da escola e do corpo docente, alguns alunos se unem num movimento de “greve”, se recusando a freqüentar as aulas e organizando um movimento de protesto com faixas e com um documentário – com um apoio de uma professora (a que fala sobre drogas) que adota uma visão mais liberal. Nesse movimento, evidencia-se o ideal de coesão grupal e do movimento jovem, vivido de forma marcante nos fins da década de 60 e meados de 70 (Revolta de Maio de 1968 e o movimento de contracultura nos EUA e Europa com os hippies, beats, etc).

Uma referência ao movimento hippie também é feita, quando um grupo de alunos vai para o picnic no bosque. Lá eles experimentam um contato direto com a natureza, com a sensação de liberdade dionisíaca e de reconexão com o universo. Kim e Bo trocam carícias e experimentam a sensação de embriaguez– real e simbólica – do amor e do vinho.

A coesão grupal se faz presente também no movimento de defesa de Bo, quando ele é perseguido e humilhado por uma gangue de “meninos mais velhos”. Nesse conflito, o grupo vai a seu socorro. De forma subliminar, o sexo aparece reverenciado como uma forma de poder, quando, para pagar pelo crime de ter agredido Bo, um dos meninos da gangue é obrigado a beijar as nádegas de um dos meninos da escola, como forma de humilhação.

Ao fim do filme, o movimento de greve dos estudantes garante a permanência do colega que seria expulso. Há uma encenação de uma guerra, em que um dos meninos morre baleado. Monta-se o filme, em que o encontro entre Kim e Bo ilustra o mandamento cristão da “Amai ao próximo como a si mesmo”.

Nesse filme, poderíamos ensaiar alguns possíveis pontos de análise:

  1. A adolescência como fase de descobertas e experimentação;
  2. Os conflitos de gerações e as diferentes formas de lidar com a passagens adolescência (liberal x conservadora);
  3. A questão da coesão grupal e a importância da pertença x a solidão na adolescência;
  4. O que se define, nas escolas, com educação sexual;
  5. As primeiras experiências sexuais como experimentação e exploração da sexualidade ou como definidora de uma orientação sexual e futura identidade sexual (homossexual ou heterossexual);
  6. A questão das drogas e uma possível função preventiva da educação;
  7. Alienação x implicação dos pais na criação dos filhos – a questão do modelo de internato;
  8. O contexto sócio-histórico da década de 70 (Contracultura, movimento hippie, movimento de liberação sexual – feminista e gay)
Nome: Luiz Fernando Calaça
Bio: Psicólogo, psicoterapeuta, professor substituto do curso de Psicologia da UFBa e aluno especial de Filosofia Contemporânea (UFBa). Membro do UNISEX.
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5 comments
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  1. Como posso adquirir este filme. assessorarei um curso pra jovens e talvez este filme ajudasse

  2. EU GOSTO É FILME: ( O filme filme dinamarquês “Você não está sozinho” (Du Er Ikke Alene), de 1978, )
    EU DESEJO QUER VIR FILME MAS NUNCA VIR VEZ UM !

  3. muito bom. como posso adquirir este filme

  4. OI gostaria de assistir esses filmes só k ja procurei em alguns lugares e nao achei vc poderia me da uma dica onde posso achar?
    abraços ○

  5. Pessoal,

    Não faço a mínima idéia de onde encontrar o filme, mas creio que talvez seja possível baixar na internet. Assisti numa grupo de exibição e discussão de filmes quando estagiava no GGB, mas não me recordo quem conseguiu a cópia do filme, nem se foi locada.

    Luiz Fernando.

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