
Aqui em Salvador ainda é raro ver casais gays beijando em público e fazendo carícias, segurando as mãos, caminhando com os braços em volta da cintura do/as companheiro/as, mexendo nos cabelos do outro, olhando nos olhos… Quando vejo algo parecido sinto uma felicidade enorme, sinto que as coisas estão mudando, que essa nova geração está se criando com mais autonomia e espontaneidade, com menos medos.
Há sempre o risco de agressões e manifestações de homofobia. Muitas vezes é isso o que nos paralisa. Penso nos manejos do controle sutil da nossa sociedade. Deixamos de fazer as coisas, de expressar nosso amor e nosso carinho por medo de um fantasma sutil e implícito que não necessariamente existe de forma tão imediata. Embora agressões existam, elas não me parecem sistemáticas. Segurar a mão do/a namorado/a não necessariamente terá como conseqüência um xingamento ou uma agressão física.
Algumas vezes já presenciei coisas curiosas. Um dia dois amigos estavam caminhando pela Barra de mãos dadas, próximo aos bares que ficam no entorno do farol. As pessoas que estavam nos bares olharam com curiosidade, certo estranhamento, e riam. O rir pode parecer para alguns como uma resposta homofóbica, mas pode também ser uma reação diante do estranho, do novo, do que foge ao convencional. Sabe aquela risada nervosa de quando não sabemos ao certo como nos comportarmos numa situação nova? Pois é isso! Ver casais gays em público é estranho, por ser pouco comum, pelo simples fato de os gays não tornarem explicitas suas carícias.
Sou jovem. Tenho 22 anos. Convivo com gays de outras faixas de idade e é evidente os diferentes comportamentos. Creio que provavelmente sou muito mais conservador e temeroso em expressar meus afetos que um jovem gay de 15, 17 anos. Ao mesmo tempo em que me vejo menos contido que outros de 30, 35 anos. Talvez seja o “choque” de gerações. As mudanças sociais vem ocorrendo de forma muito rápida. Acredito que a sociedade está mudando, tanto por uma maior consciência e aceitação da diferença como por os gays estarem se mostrando mais.
Mostrar-se, tornar-se visível, entrar em cena, ao meu ver não tem nada a ver com militância, mas com atitude cotidiana. É caminhar pelas ruas como qualquer um, fazer o que qualquer pessoa faz, sem que o ser homossexual seja, necessariamente, um elemento primordial e definidor de atitudes. Ao meu ver, temos mais estranhamento sobre nós mesmos que os outros de nós. Idealizamos nossa auto-imagem e a partir dela nos comportamos. Agimos de acordo com nossas expectativas. Se esperamos sofrer agressões, agiremos de tal forma a nos protegermos o máximo possível delas, às vezes reprimindo nossos desejos e ansiedades, às vezes nos arriscando mais do que o necessário.
Os guetos – bares e becos GLS – nos parecem os locais mais seguros para demonstrar nossos afetos e carícias. Nos sentimos protegidos o meio de outros “iguais” a nós. Alguns freqüentam saunas por ser um local aparentemente em que o anonimato é garantido. Me pergunto se isso não é uma ilusão que construímos para nós mesmos.
Posso freqüentar bares, teatros, museus, cinema, praias, ruas, shopping centers, barzinhos como qualquer pessoa. Minha sexualidade não será o meu elemento definidor. Posso ser um transeunte, um consumidor, um sujeito, em todos esses contextos sem, necessariamente, se vítima de violência. Violência existe em qualquer lugar, e podemos ser vítima dela a qualquer momento sem, necessariamente que algo específico como nossa sexualidade seja elemento definidor e mais relevante.
Não quero dizer com isso que não existe homofobia e crimes contra homossexuais. Existe! Existe cotidianamente. E, creio eu, existe muito mais em nossos locais seguros, em nossas casas, nos nossos empregos, na faculdade, entre colegas, amigos e familiares, e entre nós mesmos. Somos nós mesmos, homofóbicos e preconceituosos. Olhamos para o “estranho” que existe no outro, rimos e sentimos desconforto, criticamos os excessos, o espalhafato, o estereótipo que, nós mesmos, rejeitamos em nós. Criamos nossos limites invisíveis e nos violentamos pela não aceitação de nós mesmos, de nossa forma de ser e sentir.
Sinto um grande carinho por quem eu amo. Nem sempre expressamos isso em público. Mas caminhamos lado a lado, olhamos nos olhos, almoçamos e tomamos sorvete juntos, vamos ao cinema, caminhamos pela cidade, um do lado do outro. Caminhar lado a lado é manifestação de afeto e intimidade. Às vezes nos tocamos nesse caminhar. Às vezes fazemos carícias. E o mais importante é não pensar sobre o que estamos fazendo, se, como, onde ou quando estamos fazendo. O importante é ser nós mesmos nesse caminhar e ter cuidado para não deixar que nossas fantasias e medos se realizem por torná-las mais reais do que são.