Você já saiu do armário hoje?

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Normalmente tomamos a idéia de sair do armário como um evento pontual. De fato é possível, em retrospectiva, localizar algum momento particularmente significativo na vida da pessoa em que ela precisa se posicionar acerca de sua sexualidade, seja diante da família, de amigos, etc. Esse episódio, marcante e especialmente importante na vida de qualquer homossexual ou bissexual, é inicio da construção de uma auto-imagem mais integrada, onde elementos de sua sexualidade não precisam ser ocultados de tudo e de todos. Ir a parada gay pela primeira vez, por exemplo, para muitos significou uma marcante saída do armário.

No entanto, muitas vezes somos colocados em novas situações em que é preciso sair do armário novamente. Pois o fato é que, por padrão, somos todos considerados heterossexuais e, sempre que entramos em contato com alguém ou uma situação nova, a expectativa inicial é de que não somos gays, lésbicas ou bissexuais. Uma mudança de emprego, por exemplo, pode significar um retorno ao armário. Não é raro acontecer de, ao sair de uma empresa onde sua homossexualidade é vivida de forma natural (com, por exemplo o companheiro participando de eventos abertos às famílias dos empregados) e mudar-se para outra firma, um rapaz gay decida voltar para o armário. Os motivos são muitos: um ambiente pouco acolhedor, as inseguranças de estar num emprego novo e o peso de ter que enfrentar tudo de novo pode fazer com que a saída do armário seja adiada indefinidamente.

Mas o mais curioso é que, não apenas em situações novas temos que enfrentar o armário. O fato é que, como para muitas pessoas a homossexualidade é um assunto tabu, que causa desconforto e com as quais não possuem nenhuma experiência com que lidar, preferem ignorar as informações recebidas.  Eu mesmo me recordo de ter de “lembrar” à um amigo que eu era gay por três vezes, fato que ele insistia em “esquecer”. São histórias comuns, como aquela tia que mesmo sabendo que você e sua namorada dividem um apartamento insiste em apresentar rapazes que são ótimos partidos. Ou o parente que insiste em chamar seu namorado de seu “amigo”. Muitas vezes sem se dar conta, sob a desculpa de que não querem nos constranger, negam nossos parceiros e laços afetivos, empurrando para debaixo do tapete familiar.

E há, claro, o caso clássico, que já pude ouvir de vários jovens: depois de sair do armário para os pais, esperando uma catástrofe, acorda no dia seguinte como se nada tivesse acontecido. O que parece um alento no primeiro momento vira um episódio surreal, onde todo o drama e choro do dia anterior sumiram mas também parece que toda a conversa também desapareceu da mente de seus pais. Em muitos casos os adolescentes acabam aceitando a encenação dos pais e nunca mais tocam no assunto, deixando de compartilhar com eles suas vidas afetivas diante do fato de que sua homossexualidade é tão insuportável que os pais preferem fingir que não sabem de nada.

A grande vantagem é que, mesmo nos casos mais extremos, sair do armário pela segunda (e terceira, quarta…) vez costuma ser mais fácil que da primeira. Mesmo no caso de parentes que preferem adotar o comportamento de avestruz, é saudável lembrá-los de vez em quando de que a verdade já foi exposta e que a encenação, além de um certo ridículo, pode ser um tanto dolorosa para todos. Principalmente porque se armário já não é agradável na primeira vez que estamos lá, sermos convidados a ter que voltar para ele é causa de angústia e sofrimento.

O fato é que sair do armário é um ato constante e cotidiano. Nem de longe significa sair apresentando-se como gay a cada pessoa que se conhece, pois o verdadeiro sair do armário não está numa declaração bombástica. Muito pelo contrario, na verdade sair do armário é permitir-se as mesmas liberdades e os mesmos direitos que todos possuem, agindo com naturalidade e de acordo com a sua forma de ser. Da próxima vez, basta você sorrir e dizer: Amigo(a)? Ah, não, é meu(minha) namorado(a)…

Sou gay, mas…

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Quem nunca ouviu alguém começar uma afirmação deste modo? Essa afirmação pode ter diversos complementos: sou gay, mas não sou afeminado. Sou gay, mas não sou promíscuo. Sou gay, mas não gosto de Madonna.

É compreensível que essa afirmação apareça ocasionalmente, principalmente quando é o caso de exemplificar uma contra-afirmação (alguém lhe diz que todos os gays gostam de Madonna e você retruca: sou gay, mas não gosto de Madonna). Mas o fato é que para algumas pessoas, o uso da conjunção “mas” parece vir sempre que lhes é necessário falar de sua sexualidade. Praticamente não lhes é possível afirmar-se gay/homossexual sem acrescentar um “porém”, uma incompletude de identificação. O que pode haver por trás disso?

Ora, a construção da frase propõem uma oposição. Gay versus afeminado ou promíscuo, por exemplo. Na verdade não é uma oposição de todos os gays, mas sim de um gay, apenas aquele que fala em oposição a todos os outros. -Eu, (apesar de ser gay), não sou afeminado (como imagino que todos os outros gays são). É impossível não pensar num conceito da psicanálise, a denegação, que seria de modo simplificado, a situação onde o sujeito se antecipa e nega algo que não foi afirmado objetivamente pelo seu interlocutor. Afinal, quem imaginou ser necessário fazer essa explicação?

A identidade gay é uma construção complexa, onde é necessário o enfrentamento de diversos preconceitos internos absorvidos durantes anos de nossa educação formal e informal. Aceitar-se gay envolve uma revisão de conceitos não apenas acerca da homossexualidade mas de si mesmo. O que é ser gay? Como são os outros gay? Sou igual a eles? Sou diferente? Sou gay porque gosto de música eletrônica ou porque me envolvo afetivamente com alguém do mesmo sexo? Sou menos gay por gostar de futebol?

Se me entendo como gay (ou homossexual, ou outra denominação) de uma forma integrada com os outros aspectos de minha personalidade não preciso, a todo momento, delimitar em que aspecto eu não sou gay.  Nem tampouco me achar “menos gay” ou “mais gay” por fazer (ou não fazer) algo. Uma vez que as pré-concepções são quebradas, é possível construir uma identidade rica, onde elementos não são mais conflitantes, pois o “mas” pode virar um “e”: sou um homem gay e sou monógamo. Sou um homem hétero e gosto filmes românticos.

Deste modo é possível afirmar-se como você mesmo, sem “mas” ou “poréns”.

O Armário: como e quando sair dele

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A metáfora do armário já é mais do que conhecida no meio GLBT, mas seus significados, a meu ver, podem ser os mais diversos. Em geral, significar se assumir como homossexual, mas isso muitas é por demais complexo. O que é se assumir? Como se assumir? Que comportamentos podem servir como medida para que se possa afirmar que um gay é assumido.

Já travei debates acalourados sobre o assunto. Minha própria experiência e contatos com outras pessoas me mostram que a questão não é simples. O primeiro passo, geralmente, é o de contar para os pais e familiares mais próximos. O que é, desde o começo, um investimento muito grande devido ao medo de ser rejeitado, de ser expulso de casa, de ser renegado à condição de “ovelha negra” na família. Para muitos, assumir tais “riscos” é insuportável, devido aos vínculos de dependência emocional e financeiro em relação aos pais.

Para um adolescente gay, por exemplo, assumir-se para a família – a depender do tipo de formação moral, valores e postura adotada por ela – pode ser por demais difícil, pois implica muitas vezes em sofrer o preconceito dos pais e irmãos, sendo vítima de violência moral ou física, podendo até mesmo ser expulso de casa e passar por maus bocados. Situações como essas não são raras, sendo, infelizmente, mas comum do que imaginamos e um dos principais medos do jovem gay, afinal não podemos deixar de considerar que a família se constitui no primeiro e principal contexto de socialização do indivíduo, onde introjetamos nossos valores e adquirimos os nossos primeiros papéis sociais e repertórios identitários.

Se opor à família pode significar, muitas vezes, separar-se de uma parte de si mesmo, enlutar-se, morrer e renascer das cinzas. O que para alguns pode ser uma vitória, uma carta de alforria, assumir o rumo de suas próprias vidas, para outros pode causar uma dor muito grande, insuportável, que leva a depressão e a atos de auto-destruição, como o suicídio. Negar-se a si mesmo, no entanto, pode ter os mesmo efeitos negativos sobre si.

Na escola, também, desde cedo os jovens gays são submetidos a modelos de gênero. Meninos e meninas são separados e cada um aprende a assumir certos papéis sexuais. O que é ensinado em casa, na escola é sedimentado. Na aula de educação física, meninas jogam vôlei e baleado e meninos jogam futebol. Principalmente na adolescência, há a pressão de assumir certos comportamentos sexuais. As paqueras começam a rolar, o desejo, o interesse pelo amiguinho ou amiguinha. Na adolescência se experimenta. Mas “assumir” o próprio desejo, ainda tão incerto, indefinido, é difícil, pois o tempo inteiro os colegas soltam piadas, há a fofoca do banheiro e do corredor: “Fulano pegou cicrana”, “Mariazinha te de olho em Joãozinho”, “Acho que Pedrinho é gay, pois não joga futebol!”, “Joaninha é sapata, tava de pegação no banheiro!”.

Nesse primeiro momento enfoco a família e a escola, pois são nossas matrizes e os primeiros contextos de socialização. As experiências que travamos nesses contextos deixam marcas permanentes em nossa história de vida, marcas essas que podem causar impactos enormes no amadurecimento emocional, nas estratégias futuras de enfrentamento em outros contextos interacionais.

Já conheci gays que aos 30 anos ainda não tinham contado para os pais que são gays. Outros, tiveram a coragem de contar para os pais na adolescência e foram expulsos de casa ainda cursando o segundo grau, tendo de abandonar ou postergar os sonhos de fazer medicina. Outro, na mesma situação, saiu de casa e entrou para a prostituição como alternativa que lhe permitiu o sustento e a vivência da sexualidade. Tive amigos que, mesmo com o canudo universitário, sofrem preconceito em congressos e eventos científicos e temem pelo preconceito dos clientes e de colegas. Alguns são militantes e lutam pelo direito de casar, ter filhos, partilhar bens com o companheiro. Para alguns, o medo de se assumir implica na impossibilidade de viver uma vida a dois, na descrença na possibilidade de um relacionamento duradouro, com amor e respeito, mesmo mantendo ainda o sonho de um dia encontrar o par ideal partilhar a vida e a velhice.

Quando escrevo isso, penso em mim mesmo, em meus caminhos escolhidos até agora, nos medos que alimento, nos passos corajosos que dei, mesmo temeroso, na cautela de me assumir para alguns amigos e me esconder para outros, de manter minha aparente heterossexualidade, mesmo vivendo a amando outro homem. Escrever esse artigo, em si, já é um passo para fora do armário. Assinar essas palavras com meu nome é me assumir gay, ao mesmo tempo em que digo que sou homem, sou estudante, amo, sinto, desejo, trabalho, sonho e vivo. E estar com outros “iguais”, tão diferentes de mim, tão únicos, é ver que somos humanos, independente de qualquer rótulo.

O armário, como a casca de um ovo, pode nos proteger e nos assegurar a preservação de nossa própria essência humana. Às vezes precisamos nos esconder dentro dele, ficar quietinho, pensando, dormindo, sonhando. Outras vezes precisamos fazer uma faxina, jogar tudo em cima da cama, pegar as coisas velhas e sem utilidade e jogar fora. Sair e ver de fora o que somos, quem somos e como somos, com a consciência de que não somos sozinhos no mundo, e que outra pessoa também pode vir, abrir a porta do armário e adentrar nossa intimidade. Não nos tranquemos em nossos armários com cadeados. Mantenhamos eles, pois somos nós mesmos, com as portas sempre entreabertas!

Entender e Respeitar

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Em tempos de polêmicas envolvendo jogadores de futebol e travestis, personagens gays em novelas que nunca se beijam, cantores xingando fãs em internet, aumento da violência contra homossexuais, preocupação com políticas publicas para a população GLBTT, lançamentos editoriais, podemos perceber certa evidencia das questões que envolvem a diversidade sexual. Nem sempre da maneira mais adequada e correta mas como fruto da luta dos movimentos sociais, de organizações que lutam pelos direitos humanos, da própria população que mesmo sufocada tenta garantir seus direitos e até mesmo do interesse em explorar um mercado em expansão e do preconceito.

Entendendo a sociedade imersa num processo mutável, onde os valores morais, sociais e regras de conduta correspondem aos interesses e momento histórico, as questões que envolvem gênero e sexualidade é parte também deste processo. Basta lembrar que não faz muito tempo, as mulheres não podiam votar, nem sentir prazer durante o ato sexual.

Os padrões de comportamento heterossexuais atualmente são os considerados normais. Isso impõe, determina e limita os papéis sociais permitidos e aceitáveis. Desde a infância é ensinada a criança como se deve comportar ser for menino ou menina tendo a todo o momento os sistemas de controle (escola, família, religião) encarregando-se da fiscalização. Os padrões heteronormativos são bastante claros, definidos e por isso mesmo, é fácil identificar quem foge deles.

Para justificar as causas destes “desvios” várias teorias foram elaboradas. Os motivos são muitos, desde deformações genéticas, a problemas de ordem social, psicológica ou familiar. A homossexualidade foi considerada doença e muitas pessoas foram mortas, seja nas ruas, vitimas de violência, ou em clinicas de recuperação, sob cuidados médicos. Há pouco tempo foi invento um remédio, o “Hetracil” para combater a feminilidade que acomete alguns homens.

Na verdade construímos uma sociedade intolerante ao diferente, onde não se tem espaço, nem é permitido questionar as regras sociais. Como parte desta estrutura social, a falta de conhecimento e de disposição para entender a diversidade sexual é uma das causas da intolerância e do preconceito.

A composição da sexualidade Sexo biológico (aparelho reprodutor – homem, mulher), Orientação Sexual (a quem é direcionado o desejo sexual – homossexual, bissexual, heterossexual), Identidade Sexual (quem o sujeito acredita ser – homem, trangênero/travesti, mulher), Papel Sexual (papel social – homem/macho, drag queen/drag king, mulher/perua) e suas combinações permitem inúmeras possibilidades e formas de expressão que vão além dos padrões heteronormativos. Aceitá-las ou ao menos entendê-las é uma boa alternativa para conseguir respeitar e ser tolerante ao “diferente”.

Recomendação de leitura: Diferentes Desejos: adolescentes, homo, bi e heterossexuais – Claudio Picazio

Homossexual sim, boiola não?!

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Há alguns anos entrei no site do Grupo Gay da Bahia (GGB) e fiquei surpreso com algumas imagens de cervos ou veados que havia na página. Eram imagens animadas (GIF’s) que mostravam esses animais saltitando de um lado a outro. Aquilo me chocou. Também me incomodou muito. As perguntas que se repetiam na minha mente eram: “Como um grupo que defende os direitos dos homossexuais pode nos expor a uma situação tão ridícula? E por que acatar essa figura que a sociedade usa para representar os gays de forma tão pejorativa?”

Hoje reconheço que parte do meu espanto e do meu incômodo aconteceu porque não lidava direito com a minha homossexualidade. Até aceitava que alguém se referisse a mim como homossexual, gay, mas “viado”, “bicha”, “baitola”, ainda eram termos que incomodavam demais.

Com o tempo amadureci e me dei conta de que o problema não estava no termo usado, mas no modo como eu o encarava. Aprendi que não importa o nome de que me chamem, seja “frutinha”, “boiola”, todos eles representam o que eu sou. E eu me orgulho e muito do que sou, da minha condição, da minha orientação sexual e de tudo que está atrelado a ela. Quando alguém me chama de pederasta ou o que o valha, penso logo: talvez estejam querendo dizer com isso que sou sensível, que me sensibilizo com os sentimentos alheios; talvez queiram falar que não sou violento, que sou carinhoso, meigo; podem estar querendo dizer também que faço amizade fácil com as mulheres e me dou super bem com elas como muitos homens não conseguem fazer; quem sabe podem estar querendo dizer que sou apegado à minha mãe e à minha família; ou ainda podem estar querendo afirmar que sou capaz de amar um igual, que sou forte o suficiente para romper preconceitos, encarar vários obstáculos e ser feliz.

Quando tirei do meu coração e do meu ombro o peso negativo desses termos, o meu modo de encarar o mundo mudou. Inventem a palavra que quiser, em qualquer tom de voz, ela ressoará sempre de forma positiva, porque é assim que me sinto quanto ao que sou, quanto à minha forma legítima e genuína de amar.

Respeito

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Estava conversando a respeito do respeito, essa semana, com minha irmã. Incrível como nós sempre temos uma história curiosa a contar sobre inúmeras situações que envolvem a falta de respeito. Eventos que acontecem com a gente mesmo ou pessoas próximas ou nem tão próximas assim. Banalizaram a falta de respeito.

O ser humano parece ter esquecido que pequenas ações fazem toda a diferença. Um telefonema desmarcando compromisso horas antes ou até melhor, dias antes. Um obrigado, com licença, desculpa. Sem citar as grandes demonstrações de respeito para com o próximo.

A homofobia é a falta de respeito extrema ao diferente. Piadas, brincadeiras e afins costumam perpetuar idéias enraizadas, dificultando assim um caminho para a tolerância. Término de namoro é outro exemplo da falta de respeito generalizada. As pessoas não sabem como fazê-lo de uma maneira ética e acabam por desrespeitar a si mesmo e ao outro. Não é a separação que dói, mas sim a maneira como é conduzida.

Interessante que entre amigos a ausência do respeito pode se camuflar. Devido a tantas intimidades, a tantas conversas sobre assuntos particulares, muitas amizades derrapem nesse quesito. “Ah, você não se incomoda com isso, né?” frase utilizada como subterfúgio para a falta de respeito.

Ultimamente tenho repensado as minhas ações. Convoco os leitores a repensarem também. Hoje em dia o respeito é algo pelo qual devemos lutar para obtê-lo. Se for necessário lute para que o seu seja mantido. Respeito é bom e todo mundo gosta.

Roberto Piva: Literatura e (homo) sexualidade como transgressão, mística e resistência

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Numa madrugada de 2004, zapeando os canais de televisão, vi o anúncio de um documentário sobre o poeta paulista Roberto Piva, que seria exibido logo depois na TV Cultura. Desde os 11 anos eu passei a me interessar por literatura, comecei a escrever poemas em 2001 e sempre que possível eu assistia programas na TV sobre a vida de escritores ou sobre arte. Fiquei esperando e assisti ao documentário Assombrações Urbanas com Roberto Piva.

Tratava-se de um documentário feito sobre a visão da cidade de São Paulo a luz da poesia deste poeta. Nunca antes eu havia ouvido falar dele. Ao assisti, me apaixonei, tornando-me leitor e admirador de sua poesia, chegando a “catar” edições esgotadas de sua obra em sebos e dando pulos de alegria quando vi ser lançada os três volumes de sua Obra Reunida, pela Editora Globo: O Estrangeira na Legião (2006), Malas na mão & asas pretas (2007) e o livro recém saído do prelo, Estranhos sinais de saturno (2008).

O que havia em sua escrita que me causou tanto interesse?

Primeiro: sua escrita, de explícita influência surrealista, tem forte cunho autobiográfico. Escrita delirante, em fluxo de consciência, pulsante e alucinada, de forma semelhante à que eu tateava em meus momentos de criação poética adolescente.

Segundo: Sua temática homoerótica, sexual e transgressiva, sem falsos moralismos e contestatária, anárquica e jovem.

Terceiro: Seu sincretismo religioso e estético e erudição. Sua escrita que ressignifica, através de uma apropriação pessoal, referências mil da literatura clássica e marginal, da filosofia existencialista, do cinema de vanguarda, das artes.

No documentário Assombrações Urbanas há vários depoimentos de intelectuais que viveram o contesto de produção da obra de Piva e reconhecem sua importância enquanto representante e ícone na literatura brasileira da temática e da expressão da sexualidade e do homoerotismo como forma de transgressão – ou transvaloração – de valores burgueses e da livre expressão da homossexualidade enquanto vivência e construção identitária.

Sua escrita, no entanto, não é militante, mas crítica. Segundo o próprio poeta, essa idéia de “se assumir” gay, lésbica é uma reprodução de um modelo bancário de sociedade, que tenta dividir as coisas, rotular para controlar. Dizer como cada um deve ser e se comportar. Sua afirmação da homossexualidade se dá pela primazia do sexo como manifestação e afirmação da potência de vida, exercício da liberdade sobre formas repressoras de controle social.

Em seu livro Coxas (1979) fica explícita essa apologia à vivencia plena da sexualidade como forma de desconstrução e afirmação de valores de liberdade, vitalidade e expressão plena da condição humana. O sexo, na maioria das vezes realizado entre jovens garotos, se dá de forma coletiva, em orgias, que na realidade traz consigo valores de “comunidade”. Jovens pederastas que vivenciam o sexo, os delírios e alucinações em grupo, em comunhão quase religiosa.

Ao longo de sua obra, Piva aborda a sexualidade de forma tal que se aproxima da experiência mística e religiosa. A religião, nesse sentido, remete a um sentido radical, de retorno às raízes ancestrais indígenas, aos rituais xamânicos e de conversão espiritual, possessão das formas da natureza, animalista. Assim, os jovens incorporam nomes de animais selvagens e seu sexo é expressão das forças e instintos da natureza. Tanto na obra Coxas (1979) quando em Ciclones (1997), quando seus poemas ganham formas mais solenes de reverência ao místico e as experiências xamânicas.

Essa relação com o mundo místico e religioso, agora, me faz lembrar da compreensão trazida por Peter Fry, em seu livro O que é homossexualidade, quando se refere à figura do – “homem-mulher” ou “mulher-homem” que ocupa um lugar de transgressão, por se situar no “não lugar” entre os papéis sociais e sexuais do masculino e feminino, geralmente associado a figuras de poder social ligado ao sagrado, como líderes espirituais, tanto no candomblé, como em outras práticas religiosas. Esse lugar, de certa forma é muitas vezes associado ao homossexual, quando se reproduz a crença e o esteriótipo de que são geralmente pessoas mais cultas, com sensibilidade artística e representantes da intelectualidade acadêmica ou religiosos – o que não deixa, em parte, de ter um quê de verdade.

Piva, não só em sua poesia, como em sua vida, incorpora esse lugar, tanto por ser um intelectual e erudito, conhecedor de arte, literatura e filosofia, quando por ser xamã, praticando rituais de cura. Mas, principalmente sua notoriedade enquanto representante dessa voz transgressiva e crítica é que se faz marcante, tanto em sua poesia, ao longo de 40 anos de produção marginal, quando na vivência e afirmação da homossexualidade, como forma de resistência e oposição ao moralismo hipócrito e opressão e repressão à livre vivência da sexualidade e dos direitos humanos.

Creio que hoje, mais de 40 anos depois da início de sua produção literária, Piva continua atual, num contexto social e político que ainda está muito aquém dos ideais de direito a igualdade e liberdade social do exercício da sexualidade, quando ainda se luta pelo direito à legalização da união civil entre gays e lésbicas, adoção e da presença da homofobia em nosso cotidiano. Como diria o João Silvério Trevisan, o Roberto Piva já era referência da livre vivencia da homossexualidade, num tempo em que ainda não se tinha nada em que o jovem pudesse se espelhar para construir sua identidade.

Abaixo, segue alguns poemas do poeta Roberto Piva:

LIBELO

Não mais trarei justificações
Aos olhos do mundo.
Serei incluído
” Pormenor Esboçado ”
Na grande bruma.
Não serei batizado,
Não serei crismado,
Não estarei doutorado,
Não serei domesticado
Pelos rebanhos
Da terra.
Morrerei inocente
Sem nunca ter
Descoberto
O que há de bem e mal
De falso ou certo
No que vi.

(in: Antologia dos Novíssimos, 1961)

Eu vi os anjos de Sodoma escalando
um monte até o céu
E suas asas destruídas pelo fogo
abanavam o ar da tarde
Eu vi os anjos de Sodoma semeando
prodígios para a criação não
perder o ritmo de harpas
Eu vi os anjos de Sodoma lambendo
as feridas dos que morreram sem
alarde, dos suplicantes, dos suicidas
e dos jovens mortos
Eu vi os anjos de Sodoma crescendo
com o fogo e de suas bocas saltavam
medusas cegas
Eu vi os anjos de Sodoma desgrenhados e
violentos aniquilando os mercadores,
roubando o sono das virgens,
criando palavras turbulentas
Eu vi os anjos de Sodoma inventando a
loucura e o arrependimento de Deus

(in: Paranóia, 1963)

XVI

abandonar tudo. conhecer praias. amores novos.
poesia em cascatas floridas com aranhas
azuladas nas samambaias.
todo trabalhador é escravo. toda autoridade
é cômica. fazer da anarquia um
método & modo de visa. estradas.
bocas perfumadas. cervejas tomadas
nos acampamentos. Sonhar Alto.

(in: 20 Poemas com Brócoli, 1981)

ALMA FECAL
Alma fecal contra a ditadura da ciência
Rua dos longos punhais
Garoto fascista belo como a grande noite esquimó
Clube do fogo do inferno: Alquimistas Xamãs
Beatniks
Je vois l’arbre à la langue rouge (Michaux)
Templo
Procissão do falo sagrado
Deuses contemplam nas trevas o sexo
do anjo do Tobogã
Felizes & famélicos garotos seminus dançam
como bibelôs ferozes
Pedras com suas bocas de seda
Partindo para uma existência invisível
Tudo que chamam de história é meu plano
de fuga da civilização de vocês
Represa de Mariporã. 95
(in Ciclines, 1997)

Ritual dos 4 Ventos & dos 4 Gaviões
para Marco Antônio de Ossain

“Eu trago comigo os guardiões
dos Circuitos celestes.”

- Livro dos Mortos do Antigo Egito -

Ali onde o gavião do Norte resplandesce
sua sombra
Ali onde a aventura conserva os cascos
do vudú da aurora
Ali onde o arco-íris da linguagem está
carregado de vinho subterrâneo
Ali onde os orixás dançam na velocidade
dos puros vegetais
Revoada das pedras do rio
Olhos no circuito da Ursa Maior
na investida louca
Olhos de metabolismo floral
Almofadas de floresta
Focinho silencioso da sussuarana com
passos de sabotagem
Carne rica de Exú nas couraças da noite
Gavião-preto do oeste na tempestade sagrada
Incendiando seu crânio no frenesi das açucenas
Bate o tambor
no ritmo dos sonhos espantosos
no ritmo dos naufrágios
no ritmo dos adolescentes
à porta dos hospícios
no ritmo do rebanho de atabaques
Bate o tambor
no ritmo das oferendas sepulcrais
no ritmo da levitação alquímica
no ritmo da paranóia de Júpiter
Caciques orgiásticos do tambor
Com meu Skate-gavião
Tambor na virada do século ganimedes
Iemanjá com seus cabelos de espuma.

A bola, as bibas e a conquista de espaços urbanos

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Tive a oportunidade de acompanhar a realização de um dos jogos de baleado que acontecem em algumas quadras de Salvador. Por vezes chamado de baleado “gay” (o que para uns soa redundante e para outros excludente) o fato é que este tipo de evento tem peculiaridades importantes para a comunidade gay.

A primeira impressão marcante é o campo de futebol ao lado da quadra em que será disputado o baleado. Um espaço fortemente masculino e heterossexual passou a ser compartilhado por jogadores gays e através de um jogo que, culturalmente, ficou menos associado com a virilidade. A convivência entre os dois grupos de jogadores parece ser tranqüila, para não dizer indiferente como aliás é ideal, afinal nada acontece em uma das quadras que realmente pudesse interferir e incomodar os participantes da outra. Um ou outro transeunte surpreende-se com demonstrações de afeto entre os presentes e seu olhar de surpresa por acreditar estar vendo uma exceção, converte-se na constatação de que, na verdade, trata-se da regra: aquela é uma quadra “gay”.

Mas não é verdade.

A quadra, como todo aquele espaço público, não é “gay” ou mesmo “gls”. Outra hora poderá ser ocupada por heterossexuais ou qualquer grupo da comunidade. Não há, de fato, nada que caracterize qualquer dos espaços destes jogos como voltados para os gays: estes estão apenas ocupando-o como fazem outros cidadãos. E isso tem implicações sociais interessantes, gerando uma possibilidade de diálogo com o resto da comunidade e libertando de certos ranços dos guetos.

Além de permitir uma experiência de sociabilização com outras pessoas, homossexuais ou não, as incursões de eventos majoritariamente gays em espaços fora do gueto GLS têm um efeito catalizador positivo na afirmação de uma identidade saudável e na desmistificação de preconceitos. Por um lado, gays tem a possibilidade de experimentar a liberdade física, afetiva e coletiva graças ao suporte de um grupo que dá segurança de expressar-se sem precisar estar dentro das fronteiras protegidas dos “lugares gls” e por outro lado, o evento captura o olhar daqueles que, por estarem distantes da realidade homossexual, ignoram-na ou preferem desconhecer as vivências GLBT relegando-as ao espaço marginal.

Acredito que é interessante que existam mais eventos nestas fronteiras entre os ambiente denominados GLS e o resto do mundo, para que justamente estas fronteiras se diluam e novas possibilidades de diálogo apareçam. Como nem todos gostam de baleado e as quadras não são o único espaço a ser conquistado, outros eventos semelhantes podem e devem ser estimulados. Talvez algo como excursões urbanas ou semelhantes aos flashmobs (eventos combinados pela internet, em que rapidamente são mobilizadas várias pessoas para estar em um mesmo lugar apenas por diversão).

Longe de serem passeatas gays e muito diferentes de manifestações como os “beijaços” (onde as pessoas vão para beijar publicamente em resposta a uma atitude homofóbica), estes eventos devem valorizar a naturalidade com que as coisas acontecem. Os afetos, beijos, abraços, os assuntos das conversas, se e quando acontecem serão espontâneos e apenas porque as pessoas que ali se reúnem compartilham algo em comum. E, mesmo sem cartazes e frases de efeito, esses eventos podem ser ponto de transformação social e uma experiência libertadora para aqueles que se permitem participar.

PS: Luiz Fernando Calaça  fez um artigo em seu site sobre Vivências e divergências na homossexualidade inspirado no debate que se seguiu a publicação do artigo, vale dar uma passada lá e conferir.