Do Começo ao Fim


O que caracteriza um tabu é o veto, implícito ou explícito, de sua manifestação. Do Começo ao Fim apresentou-se como um filme que tocaria na polêmica questão do incesto. Esqueceu, no entanto, de trazer a questão do veto para cena e criou um filme esvaziado de seu próprio tema.

O longa ganhou bastante repercursão com o público gay pelo destaque da relação homossexual dos meio-irmãos, sendo esta expectativa confirmada na fase adulta do filme, onde o parentesco de ambos é irrelevante à trama e são esbanjadas as cenas de sexo entre os atores. Belas, as cenas satisfazem os que queriam ver alguma ação entre homens no cinema brasileiro e só choca os desavisados sobre a natureza do filme.

Aluisio Abranches não examina a homossexualidade, nem como tabu, nem como vivência dos personagens, abstendo-se também do que seria a polêmica secundária do filme. O que torna-se razoável, já que no universo em que se passa o filme a relação incestuosa é plenamente incomporada, tornando  sem sentido encontrar alguma oposição à experiência homossexual. Outra boa razão é que, de fato, os personagens não precisariam se identificar como gays para que se configurasse aquela relação entre os irmãos.

Restaria então dizer que esta seria uma história de amor, mas esta é talvez a verdadeira questão do filme. Ao alienar os personagens de qualquer questionamento pessoal ou do mundo a sua volta sobre suas escolhas, Abranches criou um ambiente estéril típico de uma obsessão e não de amor.  O único episódio de distânciamento físico (e possível impasse para a relação) é traduzido na incapacidade de existir sem o outro, num desmoronamento subjetivo. Intencional ou não, o possível mérito do filme estaria em apresentar esse desequilibro afetivo sem pautar na homossexualidade ou no incesto como causalidade.

Canções de Amor

Canções de Amor (Les Chansons d’Amour – França, 2007)

Drama / Musical

Direção: Christophe Honoré

Roteiro: Christophe Honoré

Elenco: Louis Garrel, Ludivine Sagnier, Clotilde Hesme, Chiara Mastroianni, Grégoire Leprince-Ringuet, Alice Butaud, Brigitte Roüan, Jean-Marie Winling

É interessante ver um musical com personagens com uma dose real de espontaneidade. O fato de terem sido delineados após a composição das músicas, que poderia ser um problema, acabou por torná-los deliciosamente humanos ao seguirem um fluxo meio inconstante e incoerente de reações emocionais. Afinal coerência, em particular no campo do amor, é uma característica rara e neste filme as coisas simplesmente acontecem, as emoções oscilam e poucos sabem o que realmente querem.

Uma certa melancolia é constante no filme e atravessa a todos, menos um personagem que justamente representa a esperança do amor novo (e não apenas um novo amor). Nos demais, quase o tempo todo aceita-se, lamenta-se ou inveja-se o amor. É como se dissessem: “o amor esteve aqui, mas já foi” (o que ganha representação material num episódio trágico, mas presente desde o começo do filme). Nesta ausência, cada um decide como lidar com o amor: não vou amar mais, vou ocupar o lugar do ser amado, etc.

O personagem de Garrel não sabe o que fazer com o amor (que estava aqui mas já foi) , não corresponde necessariamente aos lugares amorosos que lhe esperam (de filho postiço, de amante) e acaba por se aventurar em uma solução inesperada. Honoré consegue capturar um instantâneo do amor, mesmo que para isso precise congelar o tempo.

Milk: A voz da Igualdade

O trabalho de reconstituição da vida do ativista gay Harvey Milk feito por Gus Van Sant é minucioso e dedicado. Encontramos gravações reais da época inseridas no filme, o que o aproxima do documentário sem no entanto eliminar o espaço para criação artística. Mesmo que apresentado numa linguagem cinematográfica mais linear e palatável ao grande público que em seus outros filmes, mais experimentais, ainda encontramos os espaços e silêncios a serem preenchidos pelo espectador. Principalmente quando o filme investiga os momentos mais íntimos da vida de Milk e dá material para especularmos sobre suas motivações, contradições e limitações: Pean e Van Sant entregam-nos um herói humano, bem longe da idealização mas, por isso mesmo, admirável e inspirador.

Não apenas Sean Pean, com seu merecido Oscar de ator pelo filme, mas quase todo elenco traz atuações dignas. A exceção fica por conta de Diego Luna, pouco a vontade com um personagem que oferecia várias oportunidades interpretação. James Franco,  com um papel menos expressivo, faz uma atuação bem mais consistente e significativa. Josh Brolin é outro mérito do filme, dando ao seu Dan White nuances e complexidade para que este permaneça um mistério a ser levado pelo espectador após a sessão. Emile Hirsch, está de fato adorável (como Harvey descreve Cleve Jones,  seu papel no filme) ao mostrar talento em diversas cenas, desde o diálogo em seu primeiro encontro com Harvey Milk nas ruas de San Francisco.

É curioso que a maior oposição à Milk no campo do ativismo político não tenha ganho uma atriz, mas apenas em imagens da verdadeira Anita Bryant através de suas declarações em vídeo. Pode-se imaginar que a razão seja  que enfrentamento dos dois aconteceu por vias  indiretas, na arena política, mas acredito que há outras razões para esta escolha acertada: a oposição com fervor religioso que vemos no filme só não ganharia a acusação de ser caricata se exposta através dos protagonistas históricos daqueles fatos.

Comprar em DVD ou Blu-Ray

Você não está sozinho

du-er-ikke-alene

O filme filme dinamarquês “Você não está sozinho” (Du Er Ikke Alene), de 1978, se passa numa escola dinamarquesa, onde funciona um internato de meninos. Ambientada na década de 70, o filme traz as primeiras descobertas da adolescência de um grupo de meninos, que começam a ter contato com bebidas, drogas, com o corpo e a sexualidade.

Na escola os meninos têm aulas sobre política, sobre os efeitos de drogas e “vivências” que exploram o contato com o corpo e os impactos psicológicos das relações grupais de aceitação ou rejeição. Os professores adotam duas posturas: uma mais liberal, que favorece a reflexão e incentivam as descobertas da adolescência e uma mais conservadora, que prima pelo respeito aos professora e pela moral, submetendo os alunos a regras rígidas e primando pela “coerência na educação”. Apesar do formato laico – gerido por civis – a escola tinha aulas de religião, denotando um modelo tradicional de educação.

Numa das aulas, sobre política, em que se discute sobre regimes democráticos, um dos alunos questiona a participação dos jovens e idosos no regime democrático – considerados marginais nos processos decisórios. O professor, como justificativa, fala da “imaturidade política dos jovens”, legitimando a representação social de jovem como um “não lugar”, um “não-ainda”, um “por vir”.

Nas cenas envolvendo os garotos, evidenciam-se vários fenômenos “típicos” da adolescência e suas descobertas: o uso de drogas (desodorante), as práticas de masturbação, a leitura de revistas e livros eróticos, brincadeiras sexuais e brigas entre os meninos. As primeiras experiências sexuais se dão entre os próprios meninos ou com meninas da turma – ou mais velhas, que cuidam do refeitório – de forma delicada, num progressivo desvelar-se que transita entre a excitação da curiosidade o medo e de serem descobertos. Apesar dos controles exercidos pelos professores – em especial pela figura do diretor – os meninos encontram formas alternativas de “burlar” as regras e experimentarem clandestinamente, as primeiras experiências da adolescência.

Em destaque, tem-se a história amorosa de dois garotos – Kim e Bo – que vivenciam essas experiências entre si. Bo vem das férias na praia, em que teve um contato amoroso com um amigo e trás as dúvidas e curiosidades sobre a sexualidade. Kim, filho do diretor da escola, mais novo que Bo e da maioria dos meninos, que tem contato com eles e, progressivamente vai entrando em contato com a sexualidade e com o amor. Aos poucos vai se delineando um jogo de sedução entre Bo e Kim, em que ambos experimentam o contato e a intimidade, de forma lúdica , por meio de brincadeiras.

Algumas cenas traz bem nítida essa ludicidade que demarca a fase de transição da infância para a adolescência, como a brincadeira de índio, e o banho dos dois, em que o Kim brinca com a espuma do xampu. A descoberta da sexualidade, entre eles, se contrapõe com a “invasão de pornografia” que se dá na escola, pelos meninos mais velhos, mostrando uma via que mantém uma aura de “inocência” da infância – considerada característica “típica” da infância.

Em paralelo à relação entre Kim e Bo – protótipo desse amor inocente – tem-se as formas dos outros jovens de vivenciar de forma mais explícita as descobertas da sexualidade, por meio de piadas, brincadeiras eróticas e da externalização espontânea dessa sexualidade. Colocada em evidência, nas ações e na linguagem dos jovens, essa sexualidade é reprimida pelo diretor, quando tenta punir um dos alunos, responsáveis por prender fotos revistas pornográficas no banheiro dos dormitórios.

Diante da postura autoritária do diretor da escola e do corpo docente, alguns alunos se unem num movimento de “greve”, se recusando a freqüentar as aulas e organizando um movimento de protesto com faixas e com um documentário – com um apoio de uma professora (a que fala sobre drogas) que adota uma visão mais liberal. Nesse movimento, evidencia-se o ideal de coesão grupal e do movimento jovem, vivido de forma marcante nos fins da década de 60 e meados de 70 (Revolta de Maio de 1968 e o movimento de contracultura nos EUA e Europa com os hippies, beats, etc).

Uma referência ao movimento hippie também é feita, quando um grupo de alunos vai para o picnic no bosque. Lá eles experimentam um contato direto com a natureza, com a sensação de liberdade dionisíaca e de reconexão com o universo. Kim e Bo trocam carícias e experimentam a sensação de embriaguez– real e simbólica – do amor e do vinho.

A coesão grupal se faz presente também no movimento de defesa de Bo, quando ele é perseguido e humilhado por uma gangue de “meninos mais velhos”. Nesse conflito, o grupo vai a seu socorro. De forma subliminar, o sexo aparece reverenciado como uma forma de poder, quando, para pagar pelo crime de ter agredido Bo, um dos meninos da gangue é obrigado a beijar as nádegas de um dos meninos da escola, como forma de humilhação.

Ao fim do filme, o movimento de greve dos estudantes garante a permanência do colega que seria expulso. Há uma encenação de uma guerra, em que um dos meninos morre baleado. Monta-se o filme, em que o encontro entre Kim e Bo ilustra o mandamento cristão da “Amai ao próximo como a si mesmo”.

Nesse filme, poderíamos ensaiar alguns possíveis pontos de análise:

  1. A adolescência como fase de descobertas e experimentação;
  2. Os conflitos de gerações e as diferentes formas de lidar com a passagens adolescência (liberal x conservadora);
  3. A questão da coesão grupal e a importância da pertença x a solidão na adolescência;
  4. O que se define, nas escolas, com educação sexual;
  5. As primeiras experiências sexuais como experimentação e exploração da sexualidade ou como definidora de uma orientação sexual e futura identidade sexual (homossexual ou heterossexual);
  6. A questão das drogas e uma possível função preventiva da educação;
  7. Alienação x implicação dos pais na criação dos filhos – a questão do modelo de internato;
  8. O contexto sócio-histórico da década de 70 (Contracultura, movimento hippie, movimento de liberação sexual – feminista e gay)

Os Sonhadores

Este filme de 2003, dirigido por Bernardo Bertolucci, conta a história de um jovem estudante americano em Paris que se envolve com dois irmãos Isabelle e Theo, com quem passa a morar junto na ausência dos pais dos doi.

A construção deste triângulo amoroso envolve, além  da experimentação da sexualidade, o gosto pelo cinema e o cenário político da 1968. Alias o momento político que se anuncia é a indicação de que o breve período que eles desfrutam de uma liberdade sem censuras não será definitivo apesar de marcar  suas vidas.

Assista ao trailer aqui. ( Disponível em DVD)


XXY

XXY é um premiado filme argentino que conta a história d@ adolescente Alex.

Em meio a preconceito, medo, insegurança, e falta de conhecimento o filme mostra os conflitos de possuir a condição física dos dois sexos, da possibilidade de escolha entre um deles ou a permanecia dos dois e da construção da uma identidade. É envolvente, emocionante e indispensável para aqueles que se interessam pela boa arte e pelas questões da diversidade. O site oficial do filme além da ficha técnica, entrevistas e tralier traz considerações sobre a intersexualidade.

UNI Sex recomenda XXY, disponível em DVD.