VIII Parada Gay de Feira de Santana

Notícias

Próximo domingo, dia 30 de Agosto de 2009 acontece a VIII Parada Gay de Feira de Santana.

A concentração será a parti das 14Hs Praça de Alimentação
O percurso seguirá pela Avenida Getulio Vargas
O Tema deste ano é : “Adolescente ou ancião somos todos cidadãos”
A organização da parada é feita pelo GLICH

A primeira vez de um gay

Colunas e Artigos

“A primeira vez ninguém esquece!” – diz o dito popular. Quando e como ela será é difícil predizer. Quando será o primeiro beijo, a primeira transa. Se o paquerinha da festa vai ser também o primeiro namorado… A primeira paixão. O primeiro olhar… A adolescência é, em geral, a fase da vida onde se dá esses encontros e primeiras descobertas. O mundo se mostra como uma grande aventura, excitante e, ao mesmo tempo, cheio de medos e perigos.

O começo da sexualidade de um jovem gay de classe média pode ser tardio, em relação a outros jovens. Refiro-me ao “jovem gay de classe média” pois essa é uma realidade mais próxima da que vivencio e tive pouco contato com histórias de jovens gays de outras classes sociais. Os gays e lésbicas que eu conheço, em geral, começaram a vida sexual – homossexual – após os 18 anos, podendo ter ou não relações heterossexuais antes de vivenciarem a homossexualidade. Muito disso se dá em função das dúvidas e conflitos consigo mesmos, pela formação familiar heteronormativa, pelas expectativas sociais em torno dos papéis sociais e sexuais esperados para o homem e a mulher, que podem ser vivenciados de forma muito mais rígida na classe média.

A classe média, em geral, prima pela tradição e pelo respeito de certos valores morais convencionais e cristalizados. Estão sempre “na média”, no “meio termo”, seguindo os ensinamentos clássicos da “temperança” e “justa medida”, evitando os “excessos” ou o que é “desviante” da norma, do padrão. A classe média é, muitas vezes, a vivência do pensamento binário sim-não, bem-mal, certo-errado, homem-mulher, céu-inferno, que ignora ou evita admitir as outras possibilidades de existência que fogem a essa visão dicotômica de mundo.

Não duvido, no entanto, que para gays de outras classes sociais, e inclusive da classe média, essa descoberta se dê mais cedo. Essa questão do tempo da descoberta me parece pouco relevante, pois o tempo é relativo a cada pessoa, a cada subjetividade, e cada um tem seu próprio “ritmo”, sua própria história. O tempo certo para aprender a dançar a primeira dança, descobrindo os passos e se envolvendo aos poucos pela música, até que chega o momento em que já não é mais possível deixar de dançar. É o tempo de cada um.

Às vezes tem-se colegas na escola que são gays, mas é muitas vezes difícil estabelecer uma identificação, se ver como um “igual”, mesmo porque ninguém é igual a ninguém. Cada um tem seu próprio jeito de ser e demonstrar sua sexualidade. E. para muitos adolescentes, a própria sexualidade é uma incógnita, podendo ser negada, rejeitada, levantando-se inclusive a possibilidade de se ver como um ser “assexuado”. Infelizmente, apesar da grande exposição do jovem à “produtos sexuais”, muito pouco se tem praticado para se realizar uma educação sexual, que não se restrinja a descrições anatômicas dos aparelhos sexuais, seu funcionamento, e possíveis doenças sexualmente transmissíveis.

Essa educação sexual, em geral, se dá de forma informal, pelo contato com outros adolescentes, que buscam por conta própria informações, ou experimentam entre si essas múltiplas possibilidades de excitação e descoberta. Um contato mais próximo com outros gays mais prematuramente, pode favorecer a vivência da homossexualidade mais cedo, porém isso não é determinante ou causa da homossexualidade. “Sair do armário” pra si mesmo, ver-se e afirmar a si mesmo como gay, pode ser facilitado pela inclusão e legitimação do grupo, a partir do contato com outros gays e lésbicas, ou pela simples possibilidade de, nos contatos interpessoais, nas interações pessoa-pessoa, ver despertar o desejo.

Muitas vezes a homossexualidade pode ser muito nítida para as outras pessoas e obscura demais para nós mesmos, por estarmos existencialmente mergulhados em nossas dúvidas e angústias, entorpecidos ou cegos acerca dos nossos próprios desejos e necessidades.  É quando não temos consciência de nossos desejos, não nomeamos, não temos uma visão clara de nossos objetos de atração.

As formas como essa “descoberta” da sexualidade pode se dar é bastante variada. Os “jogos homossexuais” de sedução podem acontecer na adolescência, sem que, necessariamente, a pessoa se descubra ou se torne gay posteriormente. A adolescência tende a ser uma fase de experimentação, de curiosidade, e não é raro que meninos e meninas se iniciem sexualmente com amigos e amigas do mesmo sexo. Porém, quando o desejo se torna presente, quando a brincadeira se torna algo sério, se converte em necessidade, pode, o jogo sexual, passar a ser um divisor de águas na definição da orientação sexual do jovem. O que, na maioria das vezes, é vivenciado com dúvidas, medos, conflitos e sentimentos de culpa e remorso.

É possível também que essas experiências iniciais, realizadas na adolescência, só sejam significadas a posteriori, em outro contexto, quando o sujeito tem outra consciência de si mesmo, de seu corpo e de seus desejos. Às vezes é importante respeitar seu próprio tempo, os limites da maturação (e maturidade), de consolidação da personalidade e da formação de visão de mundo mais estável e constante – a personalidade. Para alguns, a descoberta se dá através de uma brincadeira gostosa, para outros, é um processo longo e doloroso, que se dá a curtos passos, por meio de conquistas árduas, conflitos e batalhas cotidianas, consigo mesmo e com aqueles que estão a nossa volta.

Talvez essas batalhas a serem vencidas, esses encontros e desencontros necessários, essa “abertura e fechamento de questões inacabadas”, nem sejam tão “bélicos”, quanto se imagina. Mas, na fantasia do jovem homossexual, ainda são passos imensos a serem dados, precisando de tempo e amadurecimento, de maior independência, da aquisição de “forças internas” ou de um “contexto” favoráveis e necessários para o enfrentamento. O “necessário” é variável e é preciso estar atento a cada circunstância, a cada oportunidade e a cada sensação que sentimos em nós mesmos – sinais que podem orientar nossas escolhas e ações.

Considerações sobre o filme “Delicada Atração”

Delicada Atração

Assisti recentemente ao filme “Delicada Atração”. O filme traz a história da descoberta da sexualidade de dois garotos que viviam em um bairro periférico da Inglaterra, esboçando os conflitos em relação aos papéis sociais esperados dentro de uma heteronormatividade, os tabus familiares e da comunidade.

Steve (ou Stea) é um adolescente que foge da aula de educação física, por não gostar de praticar esportes. É filho de Sally, uma garçonete, mãe solteira, de 35 anos, que tem relacionamentos pouco duradouros e, atualmente mora com um homem 8 anos mais novo que ela. Segundo Steve, os homens com quem Sally se relaciona são usados por ela.

Steve tem dois visinhos: Leah, uma garota negra fã de Mama Cass, que mora com a avó e Jamie, colega de escola de Steve, que mora com um pai bêbado e com o irmão mais velho que batem nele frequentemente. Entre Steve e Jamie inicia-se um movimento de aproximação, a partir do convívio na escola e do acolhimento de Jamie por Sally, após ele sofrer violência do pai e irmão. Ao contrário de Steve, Jamie é integrado ao grupo de colegas que participa da aula de educação física.

Uma noite, após sofrer violência do pai, Jamie vai para a casa de Steve e eles dormem juntos, dividindo a mesma cama. Steve vê as marcas deixadas pelas surras do pai de Jamie em seu corpo, e cuida dele, passando-lhe um creme nas costas. Nesse momento de toque, Jamie fica excitado com as carícias. Steve, que aparentemente já tinha consciência de sua atração por meninos – e pelo Jamie – pergunta-lhe se já beijou alguma vez na boca. Jamie responde que não, por “ter se tornado feio”, devido às violências sofridas dentro de casa. Nesta noite eles dormem juntos, e iniciam um movimento de maior envolvimento e apaixonamento.

Jamie entre num movimento inicial de recusa e evitação da relação amorosa com Steve, por não compreender seus sentimentos e sensações e por isso ir de encontro às expectativas sociais de masculinidade e da heterossexualidade. Não consegue se ver como um gay, uma bicha. Steve, por sua vez, se aproxima mais facilmente dessa construção de identidade, buscando informações em revistas gays, buscando adentrar nesse mundo, e, mostrando para Jamie essa possibilidade de existência.

Vão a um bar gay, onde são aceitos e acolhidos, encontrando um espaço de legitimação de sua orientação sexual.

Ao longo desse processo, Sally, a mãe de Steve, é informada por Leah da relação entre ele e Jamie e de que o filho sofre preconceito na escola, sendo vítima de xingamentos e violência física. Num primeiro momento, Sally não sabe como lidar com a situação. Segue o filho e o vê entrando no bar gay, e quando ele chega em casa, confronta-o.

A relação entre Sally e Steve se mostra ambivalente. Sally não manifesta carinho pelo filho, embrutecida pela vida, não tendo referenciais de maternidade, por ter sido abandonada desde cedo pela mãe. Ao mesmo tempo, percebe forte identificação com o filho, “esquisito”, diferente dos outros garotos. Na conversa que é travada entre eles, Steve antecipa os possíveis medos e fantasias da mãe, sobre o risco de contrair AIDS, a crença de que aquele momento é só uma “fase”. Sally admite que o filho a conhece muito bem.

A partir desse ponto o filme se desenrola em direção ao desfecho. Sally encontra um novo emprego, e têm expectativas de sair do bairro em que vivem, em direção a uma nova vida. Steve e Jamie assumem publicamente seu relacionamento e dançam na rua, com símbolo do “sair do armário”. Sally acolhe – após um choque inicial – e entra na dança, despindo-se da dura couraça da mulher lutadora, e entregando-se a um momento de leveza, na dança com Leah. Nesta última cena, toda a comunidade em volta observa e reage de formas diversas, com choque, espanto ou cumplicidade.

Após esse breve resumo da história, é possível destacar alguns aspectos dignos de análise:

1) O contexto familiar do jovem homossexual

Um dos pontos muito discutidos após o filme foi o contexto que favoreceria a emergência do jovem homossexual. Famílias desestruturadas, com a ausência de uma das figuras parentais, a violência doméstica e a carência afetiva. Às vezes existe de fato essa “desestruturação”, por as famílias não se organizarem mais segundo um ideal de família nuclear burguesa, por os casais se dissolverem, e haver rotatividade de parceiros, pelos pais, porém isso não determina a homossexualidade, embora faça parte do campo em que o sujeito está inserido e constitui sua personalidade.

Não é possível desprezar o contexto familiar do qual o sujeito fez ou faz parte. A homossexualidade é um fenômeno de origem multifatorial, multideterminada, e todos os fatores constituintes da história de vida do sujeito, quando temos acesso a eles, precisam ser levados em consideração para a compreensão do sujeito atual, em sua totalidade. Olhar para o contexto é indispensável para a compreensão do sujeito enquanto interação organismo-meio, contextualizado no tempo-espaço. O sujeito, a pessoa, não é uma abstração, mas uma relação de contato constante, integrando, assimilando e selecionando a cada momento os elementos que irão constituir sua personalidade, seu self.

2) O estereótipo dos papéis sociais (e sexuais) esperados do homem

Representado pelo jogo de futebol e pelas expectativas da mãe quando a filho participar de “atividades de meninos”, as representações sociais sobre os papéis sociais, sexuais e de gênero, se mostram como elementos importantes na constituição da pessoa, desde o momento em que nasce e é incorporado à cultura.

Tais representações, introjetadas pelo sujeito na constituição de sua personalidade, posteriormente se torna fatores de conflito interno da pessoa, ao descobrir-se homossexual, ao descobrir-se atraído por uma pessoa do mesmo sexo, não sendo possível responder às expectativas sociais do que se tem como “normal”. O confronto com essas representações, põe em choque o “ser gay”, “ser bicha” e outras expressões marcadas por forte preconceito e difíceis de serem integradas sem conflito. O sujeito entre em crise, no embate consigo mesmo e com a sociedade.

3) As estratégias adotadas por uma mãe solteira para cuidar sozinha de um filho

Não é incomum que mães solteiras, como a Sally, tenham múltiplos parceiros. Por vezes isso se constitui uma estratégia de sobrevivência, diante de dificuldades reais de manutenção de si mesmo e dos filhos. Uma mãe solteira ainda hoje sofre estigmas por não ter um marido, uma figura masculina que lhe sirva de proteção e de referência para os filhos. Principalmente em meios sociais de baixa renda, ter um companheiro – por pior que ele seja – representa segurança e respeito diante da comunidade. Às vezes as relações – que espera-se idealmente seja regida pelo amor e por sentimentos elevados e “transcendentes” – se dão por questões utilitárias, por questões econômicas ou pela esperança de se ter um pouco mais de segurança, ao ter uma figura masculina presente. Não é incomum que mulheres fortes e independentes se submetam a relações conflituosas com companheiros, pela necessidade de se ter um companheiro, alguém a quem se possa dizer “é meu marido, meu homem”.

Por outro lado, o cuidar sozinha de um filho, repercute de diversas formas sobre a subjetividade da mãe solteira, que se vê tendo que adotar os dois papéis parentais – de mãe e pai – às vezes se embrutecendo, deixando em segundo plano a dimensão feminina, da sexualidade e da busca pelo amor e a felicidade. Ser mãe passa a ser o elemento identitário mais pregnante, a “figura” principal constituinte de sua personadidade.

4) O preconceito e a violência (homofobia) vivenciada na escola

Desde muito cedo o jovem homossexual é vítima de preconceito, ao não se adequar a todos os papéis esperados pela heteronormatividade. Não é incomum que um jovem mais quieto, que não gosta de esportes, que não se aventura na conquista de meninas, seja desde cedo discriminado e vitimado por violências verbais e até físicas.

A presença de uma educação sexual mais abrangente nas escolas, que levasse em consideração a homossexualidade com uma outra possibilidade de vivência da sexualidade, descaracterizada de estereótipos negativos, seria uma alternativa necessária para reconfigurar as relações estabelecidas no contexto escolar – um dos principais contextos de socialização, de consolidação de valores, de formação de opinião e de identidade.

5) A vivencia em comunidade, o público e o privado interferindo nas relações interpessoais e no processo de vivência e afirmação da homossexualidade

Ao olhar novamente para o contexto em que o sujeito se insere, numa perspectiva mais ampla, englobando a comunidade – o prédio, a rua, o bairro, a cidade… – podemos intuir as diversas micro-relações de poder que se estabelecem. Um contexto mais amplo, que interfere na constituição do sujeito de forma subliminar, ao mesmo tempo em que defronta-o cotidianamente em situações de conflito com o outro, de choque ou de confirmação.

O bairro em que o Steve morava era um bairro periférico, de população negra, suburbana, com imigrantes indianos (a professora de educação física) e de outras nacionalidades, etnias e religiões. Um contexto complexo, heterogêneo, propiciador de situações de conflito e, ao mesmo tempo, relativizadora de “verdades”. No contexto mais próximo, do prédio, percebemos intrigas, conflitos entre visinhos, em que a vida privada é partilhada por todos, pelas “paredes finas” que dividem os apartamentos e pelos corredores, onde cada um atua como atores na trama cotidiana.

Conflitos entre Sally e Leah, por exemplo, em torno do papel e do valor da mulher, mostra perspectivas distintas sobre a sexualidade feminina, trazendo representações sociais do que seria uma “mulher decente” e uma “mulherzinha”. Questões como a rotatividade de parceiros, os amores entre visinhos, a descoberta da sexualidade, o aborto, tudo é discutino nas tramas sutis que se dão nas fofocas, nas ofensas, nos chistes. Esse é o palco da vida cotidiana e do senso comum, em que a vida é vivida de forma real, sem mascaramentos.

Neste contexto, também a homossexualidade é posta em cena, encenada, dramatizada, interpretada, submetida a avaliações do público, submetida a críticas, atravessadas por valores morais, por estereótipos, pelo senso comum – comunitário.

6) A iniciação sexual na adolescência

Representada tanto pelo casal Steve e Jamie, quanto por Leah e pelas meninas da festa em que participam, o filme traz de forma clara a “ebulição” que se dão na adolescência em torno da descoberta e experimentação da sexualidade. Podendo ser vivida com euforia, no movimento de busca insaciável pela experimentação, pela procura por parceiros, por beijos e transas, ou de forma mais retraída, cheia de dúvidas, com passos inseguros, temerosos, cheios de prudência. Nesse ponto, a sexualidade é vivenciada de forma paradoxal, variando as vivência de acordo com cada pessoa, com os contextos e oportunidades que surgem, em ritmos e tempos diferentes.

Steve traz um elemento a mais: a busca por informação através de veículos de comunicação (filmes, revistas), que podem funcionar como meios de orientação para a sexualidade, dando pistas e discas sobre os caminhos. Um contexto mais amplo, da cultura, que interfere na construção da identidade e da orientação sexual, através da construção e disseminação de discursos – canônicos ou de desconstrução da norma.

7) Os guetos como ambiente de socialização e de legitimação da homossexualidade

O bar gay em que Steve e Jamie foram pode ser visto como um gueto – um espaço social em que a homossexualidade é permitida e legitimada, diferentemente do contexto mais amplo da sociedade, que segue modelos e valores heteronormativos. No bar gay se experimenta a diversidade, a multiplicidade de manifestações e performances – gays, lésbicas, travestis, bissexuais, etc, todos tem seu espaço, sendo vistos e apreciados em suas diferenças. Os guetos aparecem como território aliado, espaço de vivência autêntica e espontânea, em que é possível viver papéis e fantasia, onde se pode ser a si mesmo ou travestir-se para o outro, nas conquistas, nas brincadeiras e nos encontros entre pessoas.

8) O confrontamento com a família – contar para os pais que se é gay. O movimento de choque e assimilação pela família do filho gay

Nos conflitos entre Steve e Sally e entre Jamie e o pai, se dá várias facetas que estão por trás do assumir-se gay diante da família. A família em geral é vista como a matriz primeira de socialização e construção de identidade. Assumir-se gay é confrontar-se com as expectativas dos pais sobre os filhos, as crenças sobre o que é certo e errado, o mitos e estereótipos que perpassam a fantasia dos pais sobre o que é homossexualidade. Ao mesmo tempo, essa questão transcende apenas a esfera da homossexualidade. Falar sobre sexo é um tabu familiar. Em geral, pouco se fala sobre o tema, e quando se fala, se reproduz representações e estereótipos, ou se restringe a orientações de como se deve prevenir contra gravidez, doenças sexualmente transmissíveis, etc.

No caso de Sally, esta já sofrido com preconceitos e dificuldades, por ser mãe solteira, por ter de cuidar sozinha do filho, por ter vários parceiros. Defrontar-se com a homossexualidade do filho era mais um estigma a ser enfrentado, mais uma batalha a ser travada, consigo e diante da sociedade. Ao mesmo tempo em que entra em crise, em conflito e desorientação, ela também abre um espaço para o acolhimento, o diálogo, a troca. Ela se transforma nesse contato com o filho, se desarma, ressignifica a si mesmo, encarna outro papel e pode experimentar a dança.

No caso de Jamie com o pai e o irmão, “ser gay” passa a ser uma questão muito mais difícil de ser encarada a admitida. Ser gay, num primeiro momento, pode significar ser fraco, não se homem, ser mais suceptível à violência e ao despreso. Suas experiências de sofrimento tornaram-no rígido – o que se traduz na sua forma de vestir, em sua postura, em sua expressão facial. Experimentar contato com o outro, com Steve, é vivenciar um outro lado, que não o da dor. E ele só consegue se entregar à essa experiência quando ressignifica a figura do pai, ao vê-lo não mais como uma figura de força, temida e respeitada, mas como um estorvo, um bêbado, jogado na sargeta.

É inegável, a meu ver, os diferentes papeis exercidos pelos pais no processo de afirmação da homossexualidade.

9) O “sair do armário”, a afirmação social do “ser gay”

O “sair do armário” num contexto mais amplo, como assumir e encarnar o papel num contexto mais amplo se dá, no filme, com o caminhar de mãos dadas e dançar no meio da rua. Metaforicamente, a cena final do filme, traz a questão da “visibilidade” gay, do mostrar-se, do assumir publicamente, o que para muitos é algo absolutamente necessário, para se reivindicar direitos, ser reconhecido e respeitado, confirmado.

Esse movimento de sair do armário, no entanto, me parece como um dos últimos passos no processo de aceitação de si mesmo e de integração da identidade homossexual. É o desfecho do filme, o ponto ápice, a partir do qual irá se desdobrar outro enredo imprevisível. Mostrar-se é um exercício de liberdade, é sustentar uma escolha e responsabilizar-se por ela, é ter consciência de si e de que, na visibilidade, é visto, apreciado e avaliado pelo olhar do outro, porém de um outro ponto, do ponto de quem afirma a si mesmo com EU, podendo confrontar-se e negociar diretamente com o outro.

Essas foram as minhas impressões sobre o filme. Acredito que haja muitos outros pontos ainda que podem ser vistos e trabalhados. Cada personagem é construído de forma complexa e densa, cheios de faces, tensões e paradoxos.

Creio que o que se torna elemento fundamental dessa análise é a tentativa de se compreender a história a partir de vários pontos, levando em consideração os diversos elementos que constituem o todo o filme. Os múltiplos contextos (casa, escola, prédio, bairro, bar gay), o diversos níveis (individual, familiar, comunitário e cultural), que fazem parte do campo psicológico, do espaço vital de cada personagem. A construção das subjetividades se dá nas trocas, nas relações intersubjetivas, no trânsito de signos e representações, na emergência e descoberta de necessidades, nas múltiplas determinações da sexualidade vivida cotidianamente, a cada momento.