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	<title>Núcleo UNISex &#187; arte</title>
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	<description>Universalidade e Diversidade Sexual</description>
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		<title>Roberto Piva: Literatura e (homo) sexualidade como transgressão, mística e resistência</title>
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		<pubDate>Sun, 13 Apr 2008 15:58:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Fernando Calaça</dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunas]]></category>
		<category><![CDATA[arte]]></category>
		<category><![CDATA[homossexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>
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		<description><![CDATA[Numa madrugada de 2004, zapeando os canais de televisão, vi o anúncio de um documentário sobre o poeta paulista Roberto Piva, que seria exibido logo depois na TV Cultura. Desde os 11 anos eu passei a me interessar por literatura, &#8230; <a href="http://nucleounisex.org/colunas/roberto-piva-literatura-e-homosexualidade-como-transgressao-mistica-e-resistencia.html">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://nucleounisex.org/wp-content/uploads/2010/01/glbt.png" alt="Colunas e Artigos" title="Colunas e Artigos" width="583" height="270" class="alignnone size-full wp-image-563" /></p>
<p>Numa madrugada de 2004, zapeando os canais de televisão, vi o anúncio de um documentário sobre o poeta paulista Roberto Piva, que seria exibido logo depois na TV Cultura. Desde os 11 anos eu passei a me interessar por literatura, comecei a escrever poemas em 2001 e sempre que possível eu assistia programas na TV sobre a vida de escritores ou sobre arte. Fiquei esperando e assisti ao documentário <em>Assombrações Urbanas com Roberto Piva</em>.</p>
<p>Tratava-se de um documentário feito sobre a visão da cidade de São Paulo a luz da poesia deste poeta. Nunca antes eu havia ouvido falar dele. Ao assisti, me apaixonei, tornando-me leitor e admirador de sua poesia, chegando a &#8220;catar&#8221; edições esgotadas de sua obra em sebos e dando pulos de alegria quando vi ser lançada os três volumes de sua Obra Reunida, pela Editora Globo: <strong><em>O Estrangeira na Legião</em></strong> (2006), <strong><em>Malas na mão &amp; asas pretas</em></strong> (2007) e o livro recém saído do prelo, <strong><em>Estranhos sinais de saturno</em></strong> (2008).</p>
<p>O que havia em sua escrita que me causou tanto interesse?</p>
<p>Primeiro: sua escrita, de explícita influência surrealista, tem forte cunho autobiográfico. Escrita delirante, em fluxo de consciência, pulsante e alucinada, de forma semelhante à que eu tateava em meus momentos de criação poética adolescente.</p>
<p>Segundo: Sua temática homoerótica, sexual e transgressiva, sem falsos moralismos e contestatária, anárquica e <strong>jovem</strong>.</p>
<p>Terceiro: Seu sincretismo religioso e estético e erudição. Sua escrita que ressignifica, através de uma apropriação pessoal, referências mil da literatura clássica e marginal, da filosofia existencialista, do cinema de vanguarda, das artes.</p>
<p>No documentário Assombrações Urbanas há vários depoimentos de intelectuais que viveram o contesto de produção da obra de Piva e reconhecem sua importância enquanto representante e ícone na literatura brasileira da temática e da expressão da sexualidade e do homoerotismo como forma de transgressão – ou transvaloração &#8211; de valores burgueses e da livre expressão da homossexualidade enquanto vivência e construção identitária.</p>
<p>Sua escrita, no entanto, não é militante, mas crítica. Segundo o próprio poeta, essa idéia de &#8220;se assumir&#8221; gay, lésbica é uma reprodução de um modelo bancário de sociedade, que tenta dividir as coisas, rotular para controlar. Dizer como cada um deve ser e se comportar. Sua afirmação da homossexualidade se dá pela primazia do sexo como manifestação e afirmação da potência de vida, exercício da liberdade sobre formas repressoras de controle social.</p>
<p>Em seu livro <strong><em>Coxas</em></strong> (1979) fica explícita essa apologia à vivencia plena da sexualidade como forma de desconstrução e afirmação de valores de liberdade, vitalidade e expressão plena da condição humana. O sexo, na maioria das vezes realizado entre jovens garotos, se dá de forma coletiva, em orgias, que na realidade traz consigo valores de &#8220;comunidade&#8221;. Jovens pederastas que vivenciam o sexo, os delírios e alucinações em grupo, em comunhão quase religiosa.</p>
<p>Ao longo de sua obra, Piva aborda a sexualidade de forma tal que se aproxima da experiência mística e religiosa. A religião, nesse sentido, remete a um sentido radical, de retorno às raízes ancestrais indígenas, aos rituais xamânicos e de conversão espiritual, possessão das formas da natureza, animalista. Assim, os jovens incorporam nomes de animais selvagens e seu sexo é expressão das forças e instintos da natureza. Tanto na obra Coxas (1979) quando em <strong><em>Ciclones </em></strong>(1997), quando seus poemas ganham formas mais solenes de reverência ao místico e as experiências xamânicas.</p>
<p>Essa relação com o mundo místico e religioso, agora, me faz lembrar da compreensão trazida por Peter Fry, em seu livro <em>O que é homossexualidade</em>, quando se refere à figura do – &#8220;homem-mulher&#8221; ou &#8220;mulher-homem&#8221; que ocupa um lugar de transgressão, por se situar no &#8220;não lugar&#8221; entre os papéis sociais e sexuais do masculino e feminino, geralmente associado a figuras de poder social ligado ao sagrado, como líderes espirituais, tanto no candomblé, como em outras práticas religiosas. Esse lugar, de certa forma é muitas vezes associado ao homossexual, quando se reproduz a crença e o esteriótipo de que são geralmente pessoas mais cultas, com sensibilidade artística e representantes da intelectualidade acadêmica ou religiosos – o que não deixa, em parte, de ter um quê de verdade.</p>
<p>Piva, não só em sua poesia, como em sua vida, incorpora esse lugar, tanto por ser um intelectual e erudito, conhecedor de arte, literatura e filosofia, quando por ser xamã, praticando rituais de cura. Mas, principalmente sua notoriedade enquanto representante dessa voz transgressiva e crítica é que se faz marcante, tanto em sua poesia, ao longo de 40 anos de produção marginal, quando na vivência e afirmação da homossexualidade, como forma de resistência e oposição ao moralismo hipócrito e opressão e repressão à livre vivência da sexualidade e dos direitos humanos.</p>
<p>Creio que hoje, mais de 40 anos depois da início de sua produção literária, Piva continua atual, num contexto social e político que ainda está muito aquém dos ideais de direito a igualdade e liberdade social do exercício da sexualidade, quando ainda se luta pelo direito à legalização da união civil entre gays e lésbicas, adoção e da presença da homofobia em nosso cotidiano. Como diria o <strong>João Silvério Trevisan</strong>, o Roberto Piva já era referência da livre vivencia da homossexualidade, num tempo em que ainda não se tinha nada em que o jovem pudesse se espelhar para construir sua identidade.</p>
<p>Abaixo, segue alguns poemas do poeta Roberto Piva:</p>
<p><strong>LIBELO</strong></p>
<p>Não mais trarei justificações<br />
Aos olhos do mundo.<br />
Serei incluído<br />
&#8221; Pormenor Esboçado &#8221;<br />
Na grande bruma.<br />
Não serei batizado,<br />
Não serei crismado,<br />
Não estarei doutorado,<br />
Não serei domesticado<br />
Pelos rebanhos<br />
Da terra.<br />
Morrerei inocente<br />
Sem nunca ter<br />
Descoberto<br />
O que há de bem e mal<br />
De falso ou certo<br />
No que vi.</p>
<p>(in: <em>Antologia dos Novíssimos</em>, 1961)</p>
<p>Eu vi os anjos de Sodoma escalando<br />
um monte até o céu<br />
E suas asas destruídas pelo fogo<br />
abanavam o ar da tarde<br />
Eu vi os anjos de Sodoma semeando<br />
prodígios para a criação não<br />
perder o ritmo de harpas<br />
Eu vi os anjos de Sodoma lambendo<br />
as feridas dos que morreram sem<br />
alarde, dos suplicantes, dos suicidas<br />
e dos jovens mortos<br />
Eu vi os anjos de Sodoma crescendo<br />
com o fogo e de suas bocas saltavam<br />
medusas cegas<br />
Eu vi os anjos de Sodoma desgrenhados e<br />
violentos aniquilando os mercadores,<br />
roubando o sono das virgens,<br />
criando palavras turbulentas<br />
Eu vi os anjos de Sodoma inventando a<br />
loucura e o arrependimento de Deus</p>
<p>(in: <em>Paranóia</em>, 1963)</p>
<p><em></em><strong>XVI</strong></p>
<p><strong></strong>abandonar tudo. conhecer praias. amores novos.<br />
poesia em cascatas floridas com aranhas<br />
azuladas nas samambaias.<br />
todo trabalhador é escravo. toda autoridade<br />
é cômica. fazer da anarquia um<br />
método &amp; modo de visa. estradas.<br />
bocas perfumadas. cervejas tomadas<br />
nos acampamentos. Sonhar Alto.</p>
<p>(in: <em>20 Poemas com Brócoli</em>, 1981)</p>
<p><strong>ALMA FECAL</strong><br />
Alma fecal contra a ditadura da ciência<br />
Rua dos longos punhais<br />
Garoto fascista belo como a grande noite esquimó<br />
Clube do fogo do inferno: Alquimistas Xamãs<br />
Beatniks<br />
Je vois l&#8217;arbre à la langue rouge (Michaux)<br />
Templo<br />
Procissão do falo sagrado<br />
Deuses contemplam nas trevas o sexo<br />
do anjo do Tobogã<br />
Felizes &amp; famélicos garotos seminus dançam<br />
como bibelôs ferozes<br />
Pedras com suas bocas de seda<br />
Partindo para uma existência invisível<br />
Tudo que chamam de história é meu plano<br />
de fuga da civilização de vocês<br />
Represa de Mariporã. 95<br />
(in <em>Ciclines</em>, 1997)</p>
<p><strong>Ritual dos 4 Ventos &amp; dos 4 Gaviões</strong><br />
para Marco Antônio de Ossain<br />
<em></em></p>
<p><em> &#8220;Eu trago comigo os guardiões<br />
dos Circuitos celestes.&#8221;</em><br />
- Livro dos Mortos do Antigo Egito -</p>
<p>Ali onde o gavião do Norte resplandesce<br />
sua sombra<br />
Ali onde a aventura conserva os cascos<br />
do vudú da aurora<br />
Ali onde o arco-íris da linguagem está<br />
carregado de vinho subterrâneo<br />
Ali onde os orixás dançam na velocidade<br />
dos puros vegetais<br />
Revoada das pedras do rio<br />
Olhos no circuito da Ursa Maior<br />
na investida louca<br />
Olhos de metabolismo floral<br />
Almofadas de floresta<br />
Focinho silencioso da sussuarana com<br />
passos de sabotagem<br />
Carne rica de Exú nas couraças da noite<br />
Gavião-preto do oeste na tempestade sagrada<br />
Incendiando seu crânio no frenesi das açucenas<br />
Bate o tambor<br />
no ritmo dos sonhos espantosos<br />
no ritmo dos naufrágios<br />
no ritmo dos adolescentes<br />
à porta dos hospícios<br />
no ritmo do rebanho de atabaques<br />
Bate o tambor<br />
no ritmo das oferendas sepulcrais<br />
no ritmo da levitação alquímica<br />
no ritmo da paranóia de Júpiter<br />
Caciques orgiásticos do tambor<br />
Com meu Skate-gavião<br />
Tambor na virada do século ganimedes<br />
Iemanjá com seus cabelos de espuma.</p>
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