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	<title>Núcleo UNISex &#187; assumir</title>
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	<description>Universalidade e Diversidade Sexual</description>
	<lastBuildDate>Tue, 11 Oct 2011 03:11:25 +0000</lastBuildDate>
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		<title>Considerações sobre o filme &#8220;Delicada Atração&#8221;</title>
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		<pubDate>Mon, 26 Jan 2009 13:01:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Fernando Calaça</dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunas]]></category>
		<category><![CDATA[adolescente]]></category>
		<category><![CDATA[armário]]></category>
		<category><![CDATA[assumir]]></category>
		<category><![CDATA[filme]]></category>

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		<description><![CDATA[Assisti recentemente ao filme “Delicada Atração”. O filme traz a história da descoberta da sexualidade de dois garotos que viviam em um bairro periférico da Inglaterra, esboçando os conflitos em relação aos papéis sociais esperados dentro de uma heteronormatividade, os tabus familiares e da comunidade. Steve (ou Stea) é um adolescente que foge da aula [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong> </strong></p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-586" title="Delicada Atração" src="http://nucleounisex.org/wp-content/uploads/2009/01/delicada-atracao.jpg" alt="Delicada Atração" width="583" height="270" /></p>
<p><em>Assisti recentemente ao filme “Delicada Atração”. O  filme traz a história da descoberta da sexualidade de dois garotos que  viviam em um bairro periférico da Inglaterra, esboçando os conflitos em  relação aos papéis sociais esperados dentro de uma heteronormatividade,  os tabus familiares e da comunidade.</em></p>
<p><em> </em></p>
<p><em> </em>Steve  (ou Stea) é um adolescente que foge da aula de educação física, por não  gostar de praticar esportes. É filho de Sally, uma garçonete, mãe  solteira, de 35 anos, que tem relacionamentos pouco duradouros e,  atualmente mora com um homem 8 anos mais novo que ela. Segundo Steve, os  homens com quem Sally se relaciona são usados por ela.</p>
<p>Steve tem  dois visinhos: Leah, uma garota negra fã de Mama Cass, que mora com a  avó e Jamie, colega de escola de Steve, que mora com um pai bêbado e com  o irmão mais velho que batem nele frequentemente. Entre Steve e Jamie  inicia-se um movimento de aproximação, a partir do convívio na escola e  do acolhimento de Jamie por Sally, após ele sofrer violência do pai e  irmão. Ao contrário de Steve, Jamie é integrado ao grupo de colegas que  participa da aula de educação física.</p>
<p>Uma noite,  após sofrer violência do pai, Jamie vai para a casa de Steve e eles  dormem juntos, dividindo a mesma cama. Steve vê as marcas deixadas pelas  surras do pai de Jamie em seu corpo, e cuida dele, passando-lhe um  creme nas costas. Nesse momento de toque, Jamie fica excitado com as  carícias. Steve, que aparentemente já tinha consciência de sua atração  por meninos – e pelo Jamie – pergunta-lhe se já beijou alguma vez na  boca. Jamie responde que não, por &#8220;ter se tornado feio&#8221;, devido às  violências sofridas dentro de casa. Nesta noite eles dormem juntos, e  iniciam um movimento de maior envolvimento e apaixonamento.</p>
<p>Jamie entre  num movimento inicial de recusa e evitação da relação amorosa com  Steve, por não compreender seus sentimentos e sensações e por isso ir de  encontro às expectativas sociais de masculinidade e da  heterossexualidade. Não consegue se ver como um gay, uma bicha. Steve,  por sua vez, se aproxima mais facilmente dessa construção de identidade,  buscando informações em revistas gays, buscando adentrar nesse mundo,  e, mostrando para Jamie essa possibilidade de existência.</p>
<p>Vão a um  bar gay, onde são aceitos e acolhidos, encontrando um espaço de  legitimação de sua orientação sexual.</p>
<p>Ao longo  desse processo, Sally, a mãe de Steve, é informada por Leah da relação  entre ele e Jamie e de que o filho sofre preconceito na escola, sendo  vítima de xingamentos e violência física. Num primeiro momento, Sally  não sabe como lidar com a situação. Segue o filho e o vê entrando no bar  gay, e quando ele chega em casa, confronta-o.</p>
<p>A relação  entre Sally e Steve se mostra ambivalente. Sally não manifesta carinho  pelo filho, embrutecida pela vida, não tendo referenciais de  maternidade, por ter sido abandonada desde cedo pela mãe. Ao mesmo  tempo, percebe forte identificação com o filho, &#8220;esquisito&#8221;, diferente  dos outros garotos. Na conversa que é travada entre eles, Steve antecipa  os possíveis medos e fantasias da mãe, sobre o risco de contrair AIDS, a  crença de que aquele momento é só uma &#8220;fase&#8221;. Sally admite que o filho a  conhece muito bem.</p>
<p>A partir  desse ponto o filme se desenrola em direção ao desfecho. Sally encontra  um novo emprego, e têm expectativas de sair do bairro em que vivem, em  direção a uma nova vida. Steve e Jamie assumem publicamente seu  relacionamento e dançam na rua, com símbolo do &#8220;sair do armário&#8221;. Sally  acolhe – após um choque inicial – e entra na dança, despindo-se da dura  couraça da mulher lutadora, e entregando-se a um momento de leveza, na  dança com Leah. Nesta última cena, toda a comunidade em volta observa e  reage de formas diversas, com choque, espanto ou cumplicidade.</p>
<p>Após esse  breve resumo da história, é possível destacar alguns aspectos dignos de  análise:</p>
<p><strong>1) </strong><strong>O contexto  familiar do jovem homossexual</strong></p>
<p>Um dos  pontos muito discutidos após o filme foi o contexto que favoreceria a  emergência do jovem homossexual. Famílias desestruturadas, com a  ausência de uma das figuras parentais, a violência doméstica e a  carência afetiva. Às vezes existe de fato essa &#8220;desestruturação&#8221;, por as  famílias não se organizarem mais segundo um ideal de família nuclear  burguesa, por os casais se dissolverem, e haver rotatividade de  parceiros, pelos pais, porém isso não <span style="text-decoration: underline;">determina</span> a  homossexualidade, embora faça parte do campo em que o sujeito está  inserido e constitui sua personalidade.</p>
<p>Não é  possível desprezar o contexto familiar do qual o sujeito fez ou faz  parte. A homossexualidade é um fenômeno de origem multifatorial,  multideterminada, e todos os fatores constituintes da história de vida  do sujeito, quando temos acesso a eles, precisam ser levados em  consideração para a compreensão do sujeito atual, em sua totalidade.  Olhar para o contexto é indispensável para a compreensão do sujeito  enquanto interação organismo-meio, contextualizado no tempo-espaço. O  sujeito, a pessoa, não é uma abstração, mas uma relação de contato  constante, integrando, assimilando e selecionando a cada momento os  elementos que irão constituir sua personalidade, seu self.</p>
<p><strong>2) </strong><strong>O  estereótipo dos papéis sociais (e sexuais) esperados do homem</strong></p>
<p>Representado  pelo jogo de futebol e pelas expectativas da mãe quando a filho  participar de &#8220;atividades de meninos&#8221;, as representações sociais sobre  os papéis sociais, sexuais e de gênero, se mostram como elementos  importantes na constituição da pessoa, desde o momento em que nasce e é  incorporado à cultura.</p>
<p>Tais  representações, introjetadas pelo sujeito na constituição de sua  personalidade, posteriormente se torna fatores de conflito interno da  pessoa, ao descobrir-se homossexual, ao descobrir-se atraído por uma  pessoa do mesmo sexo, não sendo possível responder às expectativas  sociais do que se tem como &#8220;normal&#8221;. O confronto com essas  representações, põe em choque o &#8220;ser gay&#8221;, &#8220;ser bicha&#8221; e outras  expressões marcadas por forte preconceito e difíceis de serem integradas  sem conflito. O sujeito entre em crise, no embate consigo mesmo e com a  sociedade.</p>
<p><strong>3) </strong><strong>As  estratégias adotadas por uma mãe solteira para cuidar sozinha de um  filho</strong></p>
<p>Não é  incomum que mães solteiras, como a Sally, tenham múltiplos parceiros.  Por vezes isso se constitui uma estratégia de sobrevivência, diante de  dificuldades reais de manutenção de si mesmo e dos filhos. Uma mãe  solteira ainda hoje sofre estigmas por não ter um marido, uma figura  masculina que lhe sirva de proteção e de referência para os filhos.  Principalmente em meios sociais de baixa renda, ter um companheiro – por  pior que ele seja – representa segurança e respeito diante da  comunidade. Às vezes as relações – que espera-se idealmente seja regida  pelo amor e por sentimentos elevados e &#8220;transcendentes&#8221; – se dão por  questões utilitárias, por questões econômicas ou pela esperança de se  ter um pouco mais de segurança, ao ter uma figura masculina presente.  Não é incomum que mulheres fortes e independentes se submetam a relações  conflituosas com companheiros, pela necessidade de se ter um  companheiro, alguém a quem se possa dizer &#8220;é meu marido, meu homem&#8221;.</p>
<p>Por outro  lado, o cuidar sozinha de um filho, repercute de diversas formas sobre a  subjetividade da mãe solteira, que se vê tendo que adotar os dois  papéis parentais – de mãe e pai – às vezes se embrutecendo, deixando em  segundo plano a dimensão feminina, da sexualidade e da busca pelo amor e  a felicidade. Ser mãe passa a ser o elemento identitário mais  pregnante, a &#8220;figura&#8221; principal constituinte de sua personadidade.</p>
<p><strong>4) </strong><strong>O  preconceito e a violência (homofobia) vivenciada na escola</strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p>Desde muito  cedo o jovem homossexual é vítima de preconceito, ao não se adequar a  todos os papéis esperados pela heteronormatividade. Não é incomum que um  jovem mais quieto, que não gosta de esportes, que não se aventura na  conquista de meninas, seja desde cedo discriminado e vitimado por  violências verbais e até físicas.</p>
<p>A presença  de uma educação sexual mais abrangente nas escolas, que levasse em  consideração a homossexualidade com uma outra possibilidade de vivência  da sexualidade, descaracterizada de estereótipos negativos, seria uma  alternativa necessária para reconfigurar as relações estabelecidas no  contexto escolar – um dos principais contextos de socialização, de  consolidação de valores, de formação de opinião e de identidade.</p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong>5) </strong><strong>A vivencia  em comunidade, o público e o privado interferindo nas relações  interpessoais e no processo de vivência e afirmação da homossexualidade</strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p>Ao olhar  novamente para o contexto em que o sujeito se insere, numa perspectiva  mais ampla, englobando a comunidade – o prédio, a rua, o bairro, a  cidade&#8230; – podemos intuir as diversas micro-relações de poder que se  estabelecem. Um contexto mais amplo, que interfere na constituição do  sujeito de forma subliminar, ao mesmo tempo em que defronta-o  cotidianamente em situações de conflito com o outro, de choque ou de  confirmação.</p>
<p>O bairro em  que o Steve morava era um bairro periférico, de população negra,  suburbana, com imigrantes indianos (a professora de educação física) e  de outras nacionalidades, etnias e religiões. Um contexto complexo,  heterogêneo, propiciador de situações de conflito e, ao mesmo tempo,  relativizadora de &#8220;verdades&#8221;. No contexto mais próximo, do prédio,  percebemos intrigas, conflitos entre visinhos, em que a vida privada é  partilhada por todos, pelas &#8220;paredes finas&#8221; que dividem os apartamentos e  pelos corredores, onde cada um atua como atores na trama cotidiana.</p>
<p>Conflitos  entre Sally e Leah, por exemplo, em torno do papel e do valor da mulher,  mostra perspectivas distintas sobre a sexualidade feminina, trazendo  representações sociais do que seria uma &#8220;mulher decente&#8221; e uma  &#8220;mulherzinha&#8221;. Questões como a rotatividade de parceiros, os amores  entre visinhos, a descoberta da sexualidade, o aborto, tudo é discutino  nas tramas sutis que se dão nas fofocas, nas ofensas, nos chistes. Esse é  o palco da vida cotidiana e do senso comum, em que a vida é vivida de  forma real, sem mascaramentos.</p>
<p>Neste  contexto, também a homossexualidade é posta em cena, encenada,  dramatizada, interpretada, submetida a avaliações do público, submetida a  críticas, atravessadas por valores morais, por estereótipos, pelo senso  comum – comunitário.</p>
<p><strong>6) </strong><strong>A iniciação  sexual na adolescência</strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p>Representada  tanto pelo casal Steve e Jamie, quanto por Leah e pelas meninas da  festa em que participam, o filme traz de forma clara a &#8220;ebulição&#8221; que se  dão na adolescência em torno da descoberta e experimentação da  sexualidade. Podendo ser vivida com euforia, no movimento de busca  insaciável pela experimentação, pela procura por parceiros, por beijos e  transas, ou de forma mais retraída, cheia de dúvidas, com passos  inseguros, temerosos, cheios de prudência. Nesse ponto, a sexualidade é  vivenciada de forma paradoxal, variando as vivência de acordo com cada  pessoa, com os contextos e oportunidades que surgem, em ritmos e tempos  diferentes.</p>
<p>Steve traz  um elemento a mais: a busca por informação através de veículos de  comunicação (filmes, revistas), que podem funcionar como meios de  orientação para a sexualidade, dando pistas e discas sobre os caminhos.  Um contexto mais amplo, da cultura, que interfere na construção da  identidade e da orientação sexual, através da construção e disseminação  de discursos – canônicos ou de desconstrução da norma.</p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong>7) </strong><strong>Os guetos  como ambiente de socialização e de legitimação da homossexualidade</strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p>O bar gay em  que Steve e Jamie foram pode ser visto como um gueto – um espaço social  em que a homossexualidade é permitida e legitimada, diferentemente do  contexto mais amplo da sociedade, que segue modelos e valores  heteronormativos. No bar gay se experimenta a diversidade, a  multiplicidade de manifestações e performances – gays, lésbicas,  travestis, bissexuais, etc, todos tem seu espaço, sendo vistos e  apreciados em suas diferenças. Os guetos aparecem como território  aliado, espaço de vivência autêntica e espontânea, em que é possível  viver papéis e fantasia, onde se pode ser a si mesmo ou travestir-se  para o outro, nas conquistas, nas brincadeiras e nos encontros entre  pessoas.</p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong>8) </strong><strong>O  confrontamento com a família – contar para os pais que se é gay. O  movimento de choque e assimilação pela família do filho gay</strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p>Nos  conflitos entre Steve e Sally e entre Jamie e o pai, se dá várias  facetas que estão por trás do assumir-se gay diante da família. A  família em geral é vista como a matriz primeira de socialização e  construção de identidade. Assumir-se gay é confrontar-se com as  expectativas dos pais sobre os filhos, as crenças sobre o que é certo e  errado, o mitos e estereótipos que perpassam a fantasia dos pais sobre o  que é homossexualidade.  Ao mesmo tempo, essa questão transcende apenas  a esfera da homossexualidade. Falar sobre sexo é um tabu familiar. Em  geral, pouco se fala sobre o tema, e quando se fala, se reproduz  representações e estereótipos, ou se restringe a orientações de como se  deve prevenir contra gravidez, doenças sexualmente transmissíveis, etc.</p>
<p>No caso de  Sally, esta já sofrido com preconceitos e dificuldades, por ser mãe  solteira, por ter de cuidar sozinha do filho, por ter vários parceiros.  Defrontar-se com a homossexualidade do filho era mais um estigma a ser  enfrentado, mais uma batalha a ser travada, consigo e diante da  sociedade. Ao mesmo tempo em que entra em crise, em conflito e  desorientação, ela também abre um espaço para o acolhimento, o diálogo, a  troca. Ela se transforma nesse contato com o filho, se desarma,  ressignifica a si mesmo, encarna outro papel e pode experimentar a  dança.</p>
<p>No caso de  Jamie com o pai e o irmão, &#8220;ser gay&#8221; passa a ser uma questão muito mais  difícil de ser encarada a admitida. Ser gay, num primeiro momento, pode  significar ser fraco, não se homem, ser mais suceptível à violência e ao  despreso. Suas experiências de sofrimento tornaram-no rígido – o que se  traduz na sua forma de vestir, em sua postura, em sua expressão facial.  Experimentar contato com o outro, com Steve, é vivenciar um outro lado,  que não o da dor. E ele só consegue se entregar à essa experiência  quando ressignifica a figura do pai, ao vê-lo não mais como uma figura  de força, temida e respeitada, mas como um estorvo, um bêbado, jogado na  sargeta.</p>
<p>É inegável, a  meu ver, os diferentes papeis exercidos pelos pais no processo de  afirmação da homossexualidade.</p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong>9) </strong><strong> O &#8220;sair do  armário&#8221;, a afirmação social do &#8220;ser gay&#8221;</strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p>O &#8220;sair do  armário&#8221; num contexto mais amplo, como assumir e encarnar o papel num  contexto mais amplo se dá, no filme, com o caminhar de mãos dadas e  dançar no meio da rua. Metaforicamente, a cena final do filme, traz a  questão da &#8220;visibilidade&#8221; gay, do mostrar-se, do assumir publicamente, o  que para muitos é algo absolutamente necessário, para se reivindicar  direitos, ser reconhecido e respeitado, confirmado.</p>
<p>Esse  movimento de sair do armário, no entanto, me parece como um dos últimos  passos no processo de aceitação de si mesmo e de integração da  identidade homossexual. É o desfecho do filme, o ponto ápice, a partir  do qual irá se desdobrar outro enredo imprevisível. Mostrar-se é um  exercício de liberdade, é sustentar uma escolha e responsabilizar-se por  ela, é ter consciência de si e de que, na visibilidade, é visto,  apreciado e avaliado pelo olhar do outro, porém de um outro ponto, do  ponto de quem afirma a si mesmo com EU, podendo confrontar-se e negociar  diretamente com o outro.</p>
<p>Essas foram  as minhas impressões sobre o filme. Acredito que haja muitos outros  pontos ainda que podem ser vistos e trabalhados. Cada personagem é  construído de forma complexa e densa, cheios de faces, tensões e  paradoxos.</p>
<p>Creio que o  que se torna elemento fundamental dessa análise é a tentativa de se  compreender a história a partir de vários pontos, levando em  consideração os diversos elementos que constituem o todo o filme. Os  múltiplos contextos (casa, escola, prédio, bairro, bar gay), o diversos  níveis (individual, familiar, comunitário e cultural), que fazem parte  do campo psicológico, do espaço vital de cada personagem. A construção  das subjetividades se dá nas trocas, nas relações intersubjetivas, no  trânsito de signos e representações, na emergência e descoberta de  necessidades, nas múltiplas determinações da sexualidade vivida  cotidianamente, a cada momento.</p>
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		<title>Sou gay, mas…</title>
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		<pubDate>Sun, 20 Jul 2008 02:29:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Duarte</dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunas]]></category>
		<category><![CDATA[armário]]></category>
		<category><![CDATA[assumir]]></category>
		<category><![CDATA[identidade]]></category>

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		<description><![CDATA[Quem nunca ouviu alguém começar uma afirmação deste modo? Essa afirmação pode ter diversos complementos: sou gay, mas não sou afeminado. Sou gay, mas não sou promíscuo. Sou gay, mas não gosto de Madonna. É compreensível que essa afirmação apareça ocasionalmente, principalmente quando é o caso de exemplificar uma contra-afirmação (alguém lhe diz que todos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-563" title="Colunas e Artigos" src="http://nucleounisex.org/wp-content/uploads/2010/01/glbt.png" alt="Colunas e Artigos" width="583" height="270" /></p>
<p>Quem nunca ouviu alguém começar uma afirmação deste modo? Essa afirmação pode ter diversos complementos: sou gay, mas não sou afeminado. Sou gay, mas não sou promíscuo. Sou gay, mas não gosto de Madonna.</p>
<p>É compreensível que essa afirmação apareça ocasionalmente, principalmente quando é o caso de exemplificar uma contra-afirmação (alguém lhe diz que todos os gays gostam de Madonna e você retruca: sou gay, mas não gosto de Madonna). Mas o fato é que para algumas pessoas, o uso da conjunção “mas” parece vir sempre que lhes é necessário falar de sua sexualidade. Praticamente não lhes é possível afirmar-se gay/homossexual sem acrescentar um “porém”, uma incompletude de identificação. O que pode haver por trás disso?</p>
<p>Ora, a construção da frase propõem uma oposição. Gay <em>versus </em>afeminado ou promíscuo, por exemplo. Na verdade não é uma oposição de todos os gays, mas sim de um gay, apenas aquele que fala em oposição a todos os outros. -Eu, <em>(apesar de ser gay),</em> não sou afeminado <em>(como imagino que todos os outros gays são).</em> É impossível não pensar num conceito da psicanálise, a denegação, que seria de modo simplificado, a situação onde o sujeito se antecipa e nega algo que não foi afirmado objetivamente pelo seu interlocutor. Afinal, quem imaginou ser necessário fazer essa explicação?</p>
<p>A identidade gay é uma construção complexa, onde é necessário o enfrentamento de diversos preconceitos internos absorvidos durantes anos de nossa educação formal e informal. Aceitar-se gay envolve uma revisão de conceitos não apenas acerca da homossexualidade mas de si mesmo. O que é ser gay? Como são os outros gay? Sou igual a eles? Sou diferente? Sou gay porque gosto de música eletrônica ou porque me envolvo afetivamente com alguém do mesmo sexo? Sou menos gay por gostar de futebol?</p>
<p>Se me entendo como gay (ou <a href="../homossexualismo" target="_blank">homossexual</a>, ou outra denominação) de uma forma integrada com os outros aspectos de minha personalidade não preciso, a todo momento, delimitar em que aspecto eu não sou gay.  Nem tampouco me achar “menos gay” ou “mais gay” por fazer (ou não fazer) algo. Uma vez que as pré-concepções são quebradas, é possível construir uma identidade rica, onde elementos não são mais conflitantes, pois o “mas” pode virar um “e”: sou um homem gay <strong>e</strong> sou monógamo. Sou um homem hétero <strong>e </strong>gosto filmes românticos.</p>
<p>Deste modo é possível afirmar-se como você mesmo, sem “mas” ou “poréns”.</p>
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		<title>O Armário: como e quando sair dele</title>
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		<pubDate>Wed, 21 May 2008 10:00:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Fernando Calaça</dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunas]]></category>
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		<category><![CDATA[assumir]]></category>
		<category><![CDATA[gay]]></category>
		<category><![CDATA[homossexual]]></category>

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		<description><![CDATA[A metáfora do armário já é mais do que conhecida no meio GLBT, mas seus significados, a meu ver, podem ser os mais diversos. Em geral, significar se assumir como homossexual, mas isso muitas é por demais complexo. O que é se assumir? Como se assumir? Que comportamentos podem servir como medida para que se [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><img class="alignnone size-full wp-image-563" title="Colunas e Artigos" src="http://nucleounisex.org/wp-content/uploads/2010/01/glbt.png" alt="Colunas e Artigos" width="583" height="270" /></p>
<p style="text-align: justify;">A metáfora do armário já é mais do que conhecida no meio GLBT, mas seus significados, a meu ver, podem ser os mais diversos. Em geral, significar se assumir como homossexual, mas isso muitas é por demais complexo. O que é se assumir? Como se assumir? Que comportamentos podem servir como medida para que se possa afirmar que um gay é assumido.</p>
<p style="text-align: justify;">Já travei debates acalourados sobre o assunto. Minha própria experiência e contatos com outras pessoas me mostram que a questão não é simples. O primeiro passo, geralmente, é o de contar para os pais e familiares mais próximos. O que é, desde o começo, um investimento muito grande devido ao medo de ser rejeitado, de ser expulso de casa, de ser renegado à condição de &#8220;ovelha negra&#8221; na família. Para muitos, assumir tais &#8220;riscos&#8221; é insuportável, devido aos vínculos de dependência emocional e financeiro em relação aos pais.</p>
<p style="text-align: justify;">Para um adolescente gay, por exemplo, assumir-se para a família – a depender do tipo de formação moral, valores e postura adotada por ela – pode ser por demais difícil, pois implica muitas vezes em sofrer o preconceito dos pais e irmãos, sendo vítima de violência moral ou física, podendo até mesmo ser expulso de casa e passar por maus bocados. Situações como essas não são raras, sendo, infelizmente, mas comum do que imaginamos e um dos principais medos do jovem gay, afinal não podemos deixar de considerar que a família se constitui no primeiro e principal contexto de socialização do indivíduo, onde introjetamos nossos valores e adquirimos os nossos primeiros papéis sociais e repertórios identitários.</p>
<p style="text-align: justify;">Se opor à família pode significar, muitas vezes, separar-se de uma parte de si mesmo, enlutar-se, morrer e renascer das cinzas. O que para alguns pode ser uma vitória, uma carta de alforria, assumir o rumo de suas próprias vidas, para outros pode causar uma dor muito grande, insuportável, que leva a depressão e a atos de auto-destruição, como o suicídio. Negar-se a si mesmo, no entanto, pode ter os mesmo efeitos negativos sobre si.</p>
<p style="text-align: justify;">Na escola, também, desde cedo os jovens gays são submetidos a modelos de gênero. Meninos e meninas são separados e cada um aprende a assumir certos papéis sexuais. O que é ensinado em casa, na escola é sedimentado. Na aula de educação física, meninas jogam vôlei e baleado e meninos jogam futebol. Principalmente na adolescência, há a pressão de assumir certos comportamentos sexuais. As paqueras começam a rolar, o desejo, o interesse pelo amiguinho ou amiguinha. Na adolescência se experimenta. Mas &#8220;assumir&#8221; o próprio desejo, ainda tão incerto, indefinido, é difícil, pois o tempo inteiro os colegas soltam piadas, há a fofoca do banheiro e do corredor: &#8220;Fulano pegou cicrana&#8221;, &#8220;Mariazinha te de olho em Joãozinho&#8221;, &#8220;Acho que Pedrinho é gay, pois não joga futebol!&#8221;, &#8220;Joaninha é sapata, tava de pegação no banheiro!&#8221;.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse primeiro momento enfoco a família e a escola, pois são nossas matrizes e os primeiros contextos de socialização. As experiências que travamos nesses contextos deixam marcas permanentes em nossa história de vida, marcas essas que podem causar impactos enormes no amadurecimento emocional, nas estratégias futuras de enfrentamento em outros contextos interacionais.</p>
<p style="text-align: justify;">Já conheci gays que aos 30 anos ainda não tinham contado para os pais que são gays. Outros, tiveram a coragem de contar para os pais na adolescência e foram expulsos de casa ainda cursando o segundo grau, tendo de abandonar ou postergar os sonhos de fazer medicina. Outro, na mesma situação, saiu de casa e entrou para a prostituição como alternativa que lhe permitiu o sustento e a vivência da sexualidade. Tive amigos que, mesmo com o canudo universitário, sofrem preconceito em congressos e eventos científicos e temem pelo preconceito dos clientes e de colegas. Alguns são militantes e lutam pelo direito de casar, ter filhos, partilhar bens com o companheiro.<span> </span>Para alguns, o medo de se assumir implica na impossibilidade de viver uma vida a dois, na descrença na possibilidade de um relacionamento duradouro, com amor e respeito, mesmo mantendo ainda o sonho de um dia encontrar o par ideal partilhar a vida e a velhice.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando escrevo isso, penso em mim mesmo, em meus caminhos escolhidos até agora, nos medos que alimento, nos passos corajosos que dei, mesmo temeroso, na cautela de me assumir para alguns amigos e me esconder para outros, de manter minha aparente heterossexualidade, mesmo vivendo a amando outro homem. Escrever esse artigo, em si, já é um passo para fora do armário. Assinar essas palavras com meu nome é me assumir gay, ao mesmo tempo em que digo que sou homem, sou estudante, amo, sinto, desejo, trabalho, sonho e vivo. E estar com outros &#8220;iguais&#8221;, tão diferentes de mim, tão únicos, é ver que somos humanos, independente de qualquer rótulo.</p>
<p style="text-align: justify;">O armário, como a casca de um ovo, pode nos proteger e nos assegurar a preservação de nossa própria essência humana. Às vezes precisamos nos esconder dentro dele, ficar quietinho, pensando, dormindo, sonhando. Outras vezes precisamos fazer uma faxina, jogar tudo em cima da cama, pegar as coisas velhas e sem utilidade e jogar fora. Sair e ver de fora o que somos, quem somos e como somos, com a consciência de que não somos sozinhos no mundo, e que outra pessoa também pode vir, abrir a porta do armário e adentrar nossa intimidade. Não nos tranquemos em nossos armários com cadeados. Mantenhamos eles, pois somos nós mesmos, com as portas sempre entreabertas!</p>
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