Jean Wyllys: “Sempre senti que há um propósito em minha presença neste mundo. E o propósito é fazer, dele, um lugar melhor”

Jean Wyllys, deputado federal eleito pelo PSOL do Rio de Janeiro e hoje uma das vozes mais ativas no Congresso em favor dos direitos humanos, em especial dos direitos de LGBT, negros e mulheres, recebeu ameaças de morte na última sexta-feira, 18 de março. Longe de serem um fato isolado, essas ameaças são recorrentes e têm caráter altamente homofóbico e fundamentalista, numa clara represália ao notável trabalho que o parlamentar desenvolve há tão pouco tempo naquela casa. Entre alguns impropérios descabidos, seus ofensores dizem: “é por ofender a bondade de Deus que você deve morrer”“cuidado ao sair de casa, você pode não voltar”“a morte chega, você não tarda por esperar”. Sobre o assunto, Jean Wyllys concedeu entrevista ao Instituto Adé Diversidade. Confira abaixo.

Adé – Houve ameaças anteriores? Caso sim, elas continham o mesmo grau de violência?

Jean Wyllys – Ameaças de morte já haviam acontecido na época em que escrevi um artigo no meu blog sobre a homofobia mobilizada pelo participante da décima edição do BBB, Dourado. Não as levei a sério naquela época. Desde que me elegi, crescem as ofensas de homofóbicos e conservadores à minha pessoa. Ofensas impublicáveis de tão violentas e cheias de ódio. Na segunda semana depois que tomei posse, quando se noticiou que estava reestruturando a Frente Parlamentar pela Cidadania LGBT, conseguiram, numa ação orquestrada, tirar meu perfil no Facebook do ar. As novas ameaças de morte começaram de sexta para cá.

Adé – Houve novas ameaças depois daquelas noticiadas pela imprensa no dia 18?

Jean Wyllys – Sim. E novas ofensas, cada vez mais cheias de ódio e rancor.

Adé – O que pode estar por trás disso?

Jean Wyllys – O que está por trás disso é a minha atuação na Câmara dos deputados em prol dos direitos humanos e da dignidade da pessoa humana de LGBTs, negros e mulheres; a minha visibilidade positiva e a minha coragem de questionar os privilégios e as ações daqueles que enriqueceram e enriquecem à custa da ignorância alheia e da violação de direitos dos LGBTs e do povo de santo.

Adé – São cães que apenas ladram ou é preciso estar atento e forte?

Jean Wyllys – Dessa são cães ferozes, capazes de morder e matar. Eu preciso estar atento e forte, sim, mesmo sendo um deputado federal. Esses cães estão vendo que, comigo na Câmara, há uma possibilidade concreta de se avançar na garantia de direitos humanos de minorias que eles perseguem para melhor enriquecerem.

Adé – Quais as providências que você tomou até agora? Algo de concreto já foi feito em seu favor? Pretende reforçar sua segurança pessoal?

Jean Wyllys – Por enquanto, não vou pedir segurança pessoal. As ameaças já foram divulgadas. O que quer que aconteça comigo será da responsabilidade dessas pessoas, direta ou indiretamente. Estou rastreando os IP dos computadores de onde partiram as ameaças e ofensas. Quando identificados, eles serão denunciados e pagarão pelos seus crimes.

Adé – Qual foi a repercussão do fato no meio político e qual repercussão social você espera?

Jean Wyllys – Ainda não apurei. Mas recebi a solidariedade de apenas quatro deputados, e, mesmo assim, não publicamente. Estão todos preocupados em não contrariar os eleitores conservadores para garantir suas reeleições (e, logo, seus privilégios). Estão todos reféns da ignorância e do atraso porque são estas que impedem as pessoas de ascenderem à condição de cidadãos críticos, preocupados, por exemplo, com o mau da corrupção.

Adé – Como tem reagido a comunidade LGBT à notícia?

Jean Wyllys – Esta, em sua expressão nas redes sociais, tem me dado apoio. Mas a grande comunidade LGBT está afastada da política. Às vezes vitimada pela homofobia internalizada, que lhe impede de eleger representantes e/ou se identificar com quem luta por seus direitos; às vezes escravizada ao consumo e ao hedonismo por ter sido constituída em nicho de mercado apenas, a grande comunidade LGBT é, em sua maioria (há exceções, claro), alienada e ignorante (e arrogante). Ela só vai se dar conta de que sua liberdade está ameaçada quando a perder de fato e por lei. Quando os fundamentalistas cristãos, através de seus representantes eleitos, conseguirem fechar, por lei, as boates e saunas e começar a patrulhar ainda mais os espaços se sociabilidade, aí, sim, a grande comunidade LGBT vai se dar conta, mas será tarde demais. Há pessoas na comunidade que perdem tempo precioso com rancores e invejas que não levam a outro lugar senão a desorganização política. Não fui eleito pelo voto LGBT, mas nem por isso vou deixar de lutar por esta comunidade da qual faço parte. O princípio da dignidade humana é soberano e eu luto por ele mesmo que os diretamente interessados não estejam nem aí para isso.

Adé – É possível ao movimento LGBT apropriar-se positivamente deste episódio? De que forma? Você acha que o efeito pode ser inverso ao desejado pelos seus algozes e o fato acabar projetando mais sua imagem e suas ações políticas?

Jean Wyllys – O ideal seria que isto acontecesse. Estou me esforçando para articular o movimento com o meu mandato. Para somarmos forças em nome de nossa causa, que é suprapartidária. O momento é este. Se há reação, é porque estou no caminho certo. Logo, o movimento não pode me abandonar agora. Com minha legislatura, o movimento está diante da chance de deixar de ser aquele que se contenta com migalhas para paradas gays e viagens de seus líderes para eventos internacionais, para ser um instrumento político de garantia de direitos, que é o que se espera de um movimento social. Vamos ver qual vai ser a opção.

Adé – As agressões contra LGBT noticiadas na mídia de forma cada vez mais freqüente podem ter algum impacto na condução no PLC 122/2006, que criminaliza a homofobia? Qual?

Jean Wyllys – Talvez. Se soubermos conduzir as coisas de maneira certa, o impacto pode ser positivo. Mas o PLC 122 não criminaliza a homofobia. Ele amplia a lei do racismo para incluir, como alvo das sanções previstas naquela lei, discriminações por orientação sexual e identidade de gênero. O projeto que criminaliza a homofobia será proposto por mim em breve.

Adé – Você acredita que o aumento da violência contra LGBT no Brasil é uma reação à crescente visibilidade da comunidade gay ou fruto da impunidade?

Jean Wyllys – As duas coisas.

Adé – O gay é tolerante com a intolerância no Brasil?

Jean Wyllys – Sim. Como já disse, a grande comunidade LGBT (há exceções, claro) tem sua mentalidade colonizada pelos valores que sustentam o status quo. Fico horrorizado quando me deparo com gays racistas e classistas! E há muitos! Há muita misoginia e machismo entre os gays e mesmo entre lésbicas. É lamentável. Eu comecei a formar minha identidade numa época em que ser gay ainda era sinônimo de ser culto e inteligente. Hoje em dia, a grande comunidade se dedica às festas temáticas, às drogas sintéticas, ao culto ao corpo e ao consumismo desenfreado e pedante, inclusive de sexo rápido e anônimo. É uma pena. Queria desenvolver um programa de educação política para LGBTs. Talvez me dedique a isso um dia.

Adé – A história da humanidade está cheia de personalidades perseguidas por lutarem por uma causa nobre, como Jesus Cristo, Gandhi, Martin Luther King, Harvey Milk, Chico Mendes, irmã Dorothy Stang, entre muitos outros. Por que tanto ódio aos justos?

Jean Wyllys – Tenho medo de integrar essa lista (risos). Quero viver porque só vivo posso dar minha contribuição para um mundo melhor. Mas os justos são abatidos porque as pessoas de bem se calam e cruzam os braços. Há mais gente boa que má. Mas as más têm mais iniciativa e fazem mais barulho. Já notou isso?

Adé – E no seu caso específico, por que você desperta reações tão estúpidas? Serão elas manifestações de ódio, medo ou inveja?

Jean Wyllys – Uma combinação das três coisas. Mas, como disse Dom Quixote, no clássico de Cervantes, “os cães ladram, Sancho, é sinal de que estamos avançando”.

Adé – Toda essa história lhe esmorece ou dá mais fôlego à sua luta pelos direitos humanos, em especial os direitos de LGBT?

Jean Wyllys – Estaria mentindo se eu dissesse que, em alguns momentos, não me dá cansaço e medo. Mas sou alimentado por uma chama que não se apaga e que me chama. Sempre senti que há um propósito em minha presença neste mundo. Sou dos mistérios. Desde menino sentia isso. E o propósito é fazer, dele, um lugar melhor.

 

(Reprodução, Fonte: Instituto Adé Diversidade)

Milk: A voz da Igualdade

O trabalho de reconstituição da vida do ativista gay Harvey Milk feito por Gus Van Sant é minucioso e dedicado. Encontramos gravações reais da época inseridas no filme, o que o aproxima do documentário sem no entanto eliminar o espaço para criação artística. Mesmo que apresentado numa linguagem cinematográfica mais linear e palatável ao grande público que em seus outros filmes, mais experimentais, ainda encontramos os espaços e silêncios a serem preenchidos pelo espectador. Principalmente quando o filme investiga os momentos mais íntimos da vida de Milk e dá material para especularmos sobre suas motivações, contradições e limitações: Pean e Van Sant entregam-nos um herói humano, bem longe da idealização mas, por isso mesmo, admirável e inspirador.

Não apenas Sean Pean, com seu merecido Oscar de ator pelo filme, mas quase todo elenco traz atuações dignas. A exceção fica por conta de Diego Luna, pouco a vontade com um personagem que oferecia várias oportunidades interpretação. James Franco,  com um papel menos expressivo, faz uma atuação bem mais consistente e significativa. Josh Brolin é outro mérito do filme, dando ao seu Dan White nuances e complexidade para que este permaneça um mistério a ser levado pelo espectador após a sessão. Emile Hirsch, está de fato adorável (como Harvey descreve Cleve Jones,  seu papel no filme) ao mostrar talento em diversas cenas, desde o diálogo em seu primeiro encontro com Harvey Milk nas ruas de San Francisco.

É curioso que a maior oposição à Milk no campo do ativismo político não tenha ganho uma atriz, mas apenas em imagens da verdadeira Anita Bryant através de suas declarações em vídeo. Pode-se imaginar que a razão seja  que enfrentamento dos dois aconteceu por vias  indiretas, na arena política, mas acredito que há outras razões para esta escolha acertada: a oposição com fervor religioso que vemos no filme só não ganharia a acusação de ser caricata se exposta através dos protagonistas históricos daqueles fatos.

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A Aliança de Prata

Aliança

simbologia, relacionamento e sexualidade

Lendo a coluna do César, me chamou atenção um aspecto que, já a algum tempo, desperta a minha atenção: a aliança de prata. De fato, ao menos aqui em Salvador, ela se constitui como um símbolo e um elemento de identificação, ou do gay em geral, ou do gay que está namorando. Passa como um elemento de identificação daquele que faz parte dessa grande tribo que é a comunidade GLBT. Entretanto, creio eu, não é um símbolo compartilhado por todos. Nem todo gay ou lésbica usa aliança de prata, mas, quem usa, tem uma grande possibilidade de ser “do babado”.

Já me peguei algumas vezes olhando atentamente para as mãos de pessoas que me parecem “suspeitas” buscando identificar se está usando a bendita aliança.

Me dou conta, no entanto, que não é um artigo exclusivo dos gays, mas que é um elemento identificador, pelo menos, de que a pessoa que a usa é “alternativa”. Valendo, de certo modo, o sentido alternativo do relacionamento entre as pessoas que usam da mesma aliança. (Traduzindo: casais que usam aliança de prata são “alternativos”).

Conheço casais heterossexuais – até que se prove o contrário – que usam alianças de prata. São casais que não oficializaram a relação no cartório ou no religioso. Tempos atrás se diria que são “amigados”, “concubinatos”, ou, numa terminologia mais chula, “emancebados” (não sei se é assim exatamente que se escreve esse palavrão, mas eu bem poderia substituir pela opção dada pelo dicionário do Word: “emancipados”).

Em todo o caso, me parece que o uso da aliança de prata distingue a relação oficializada, socialmente, registrada e sacramentada, com véu, grinalda, padre e arroz. Os relacionamentos que seguem o script são agraciados com a aliança reluzente de ouro, que nunca mareia, que é eterna e brilhante, até que a morte os separe ou troque pelas alianças de bodas de prata, ouro, esmeralda ou diamante.

Os relacionamentos “alternativos” ficam com a de prata, que mareia, perde o brilho. Penso no valor desse símbolo e no que ele traz, em si, um sentido. É o símbolo ao mesmo tempo de uma transgressão, de um espírito alternativo e liberal, mas também pode ser compreendido como um símbolo de inferioridade quanto ao valor social do relacionamento, seja ele entre casais heterossexuais que não se casam oficialmente, seja pelos gays, lésbicas e LGBTs…

Fico refletindo nesse símbolo, que como os triângulos rosa, surge como um elemento de identificação dos gays, mais ou menos velados e explícitos, para aqueles que se valem desse adereço, e depositam nele um sentido, e para aqueles que identificam o significado nele depositado. Fico pensando comigo se também esse não seria um símbolo que nos distingue socialmente como uma classe menor. (Penso por exemplo no valor dado, décadas atrás, ao anel de formatura, que era um símbolo de distinção social e que fazia com que aquela pessoa que o portasse fosse socialmente reconhecido como um “bacharel”).

(Meu avô, reza a lenda familiar, era um vendedor ambulante, daqueles de porta em porta, que vendia confecções a prestação. Apesar do status social baixo, para o padrão da família, ex-soldado, semi-analfabeto, usada um anel de brilhante no dedo mínimo e tinha uma caneta Parker – símbolos de status na época.)

Reflito sobre esses pontos, em torno da aliança de prata, sem ser eu antropólogo, historiado ou ourives, penando no significado desse objeto, que ele ou dedos das mãos de diversas cores e sexos, servem como elemento de identificação do gay ou do casal homossexual ou “alternativo”. Fico pensando em nas possíveis alternativas que por ventura existam, diante de um atual contexto em que o relacionamento ainda não é reconhecido – às vezes ignorados verdadeiramente diante da sociedade, ou, em situações piores, discriminados com agressão e homofobia.

Penso também no valor que os próprios gays dão ao relacionamento, na confiança (ou desconfiança) diante da possibilidade de viver um relacionamento verdadeiramente nutridor e de parceria, que é ou pode ser eterno enquanto dura. Talvez alimentemos nós mesmos uma idéia de efemeridade das relações, marcadas pela transitoriedade e, por isso, temos um símbolo que não é duradouro em seu brilho. Talvez sejamos visionários, estejamos na verdade a frente de nosso tempo – que já é – e tenhamos nos dado conta de que o casamento é uma instituição falida e que o amor não é eterno. Mas, mesmo assim, lutamos pela legalização do casamento gay, seja pelos direitos civis dele decorrente, seja pelo sonho romântico que aspira uma casamento com véu, grinalda, arroz e aliança de ouro.

Talvez devêssemos prestar atenção em nossos sonhos e nossas atitudes, nos símbolos que criamos, nas crenças que reproduzimos em discursos e atos. No final das contas, falam sobre nós, sobre quem somos e quem desejamos ser.

Beijos, Carícias, Guetos e Lugares Públicos

Aqui em Salvador ainda é raro ver casais gays beijando em público e fazendo carícias, segurando as mãos, caminhando com os braços em volta da cintura do/as companheiro/as, mexendo nos cabelos do outro, olhando nos olhos… Quando vejo algo parecido sinto uma felicidade enorme, sinto que as coisas estão mudando, que essa nova geração está se criando com mais autonomia e espontaneidade, com menos medos.
Há sempre o risco de agressões e manifestações de homofobia. Muitas vezes é isso o que nos paralisa. Penso nos manejos do controle sutil da nossa sociedade. Deixamos de fazer as coisas, de expressar nosso amor e nosso carinho por medo de um fantasma sutil e implícito que não necessariamente existe de forma tão imediata. Embora agressões existam, elas não me parecem sistemáticas. Segurar a mão do/a namorado/a não necessariamente terá como conseqüência um xingamento ou uma agressão física.
Algumas vezes já presenciei coisas curiosas. Um dia dois amigos estavam caminhando pela Barra de mãos dadas, próximo aos bares que ficam no entorno do farol. As pessoas que estavam nos bares olharam com curiosidade, certo estranhamento, e riam. O rir pode parecer para alguns como uma resposta homofóbica, mas pode também ser uma reação diante do estranho, do novo, do que foge ao convencional. Sabe aquela risada nervosa de quando não sabemos ao certo como nos comportarmos numa situação nova? Pois é isso! Ver casais gays em público é estranho, por ser pouco comum, pelo simples fato de os gays não tornarem explicitas suas carícias.
Sou jovem. Tenho 22 anos. Convivo com gays de outras faixas de idade e é evidente os diferentes comportamentos. Creio que provavelmente sou muito mais conservador e temeroso em expressar meus afetos que um jovem gay de 15, 17 anos. Ao mesmo tempo em que me vejo menos contido que outros de 30, 35 anos. Talvez seja o “choque” de gerações. As mudanças sociais vem ocorrendo de forma muito rápida. Acredito que a sociedade está mudando, tanto por uma maior consciência e aceitação da diferença como por os gays estarem se mostrando mais.
Mostrar-se, tornar-se visível, entrar em cena, ao meu ver não tem nada a ver com militância, mas com atitude cotidiana. É caminhar pelas ruas como qualquer um, fazer o que qualquer pessoa faz, sem que o ser homossexual seja, necessariamente, um elemento primordial e definidor de atitudes. Ao meu ver, temos mais estranhamento sobre nós mesmos que os outros de nós. Idealizamos nossa auto-imagem e a partir dela nos comportamos. Agimos de acordo com nossas expectativas. Se esperamos sofrer agressões, agiremos de tal forma a nos protegermos o máximo possível delas, às vezes reprimindo nossos desejos e ansiedades, às vezes nos arriscando mais do que o necessário.
Os guetos – bares e becos GLS – nos parecem os locais mais seguros para demonstrar nossos afetos e carícias. Nos sentimos protegidos o meio de outros “iguais” a nós. Alguns freqüentam saunas por ser um local aparentemente em que o anonimato é garantido. Me pergunto se isso não é uma ilusão que construímos para nós mesmos.
Posso freqüentar bares, teatros, museus, cinema, praias, ruas, shopping centers, barzinhos como qualquer pessoa. Minha sexualidade não será o meu elemento definidor. Posso ser um transeunte, um consumidor, um sujeito, em todos esses contextos sem, necessariamente, se vítima de violência. Violência existe em qualquer lugar, e podemos ser vítima dela a qualquer momento sem, necessariamente que algo específico como nossa sexualidade seja elemento definidor e mais relevante.
Não quero dizer com isso que não existe homofobia e crimes contra homossexuais. Existe! Existe cotidianamente. E, creio eu, existe muito mais em nossos locais seguros, em nossas casas, nos nossos empregos, na faculdade, entre colegas, amigos e familiares, e entre nós mesmos. Somos nós mesmos, homofóbicos e preconceituosos. Olhamos para o “estranho” que existe no outro, rimos e sentimos desconforto, criticamos os excessos, o espalhafato, o estereótipo que, nós mesmos, rejeitamos em nós. Criamos nossos limites invisíveis e nos violentamos pela não aceitação de nós mesmos, de nossa forma de ser e sentir.
Sinto um grande carinho por quem eu amo. Nem sempre expressamos isso em público. Mas caminhamos lado a lado, olhamos nos olhos, almoçamos e tomamos sorvete juntos, vamos ao cinema, caminhamos pela cidade, um do lado do outro. Caminhar lado a lado é manifestação de afeto e intimidade. Às vezes nos tocamos nesse caminhar. Às vezes fazemos carícias. E o mais importante é não pensar sobre o que estamos fazendo, se, como, onde ou quando estamos fazendo. O importante é ser nós mesmos nesse caminhar e ter cuidado para não deixar que nossas fantasias e medos se realizem por torná-las mais reais do que são.