
Às vezes fico pensando sobre o meu lugar enquanto pessoa e profissional, no que diz respeito a minhas reflexões relativas às questões relacionadas à homossexualidade e à comunidade GLBT como um todo. Tendo a manter uma perspectiva que, para quem lê os artigos, está entre a vivência pessoal e o olhar do profissional, tentando me manter no campo da observação da vida cotidiana, vivida e relatada pelas pessoas com quem convivo nos meus diversos contextos. Ao adotar essa perspectiva, me coloco um pouco a margem do que se dá no campo da militância política e das discussões – e polêmicas – da comunidade GLBT, entretanto estou atento, recebendo e-mails de grupos de militância da Bahia, que discutem as questões que se dão no âmbito político na esfera nacional.
Considero importante refletir sobre a multiplicidade do fenômeno das “homossexualidades” em suas múltiplas dimensões: sociais, políticas, econômicas, ideológicas, culturais. Acho também de fundamental importância, considerar outros tantos fatores e contextos: as relações estabelecidas no âmbito da família, da escola, da comunidade, dos ambientes religiosos, dos espaços públicos. Acho importante considerarmos que as questões GLBT dizem respeito à vida cotidiana em suas mais diversas formas de manifestação e atualização. Em termos científicos, tentar abordar qualquer fenômeno seria praticamente uma tarefa impossível, mas se não for assim, estaremos sempre caindo em reducionismos arbitrários. Qualquer abordagem sobre a questão da(s) homossexualidade(s) deve levar em consideração a multiplicidade e diversidade do fenômeno, considerando-o múltiplo e multifacetado, dinâmico e, principalmente, existencial.
Os espaços da militância e da ciência talvez sejam os principais espaços de articulação de um discurso político e cultural que, esperamos, tenha repercussões sobre as práticas cotidianas, sobre a vida. O campo da vida, no entanto, é mais múltiplo e dinâmico que qualquer discurso, é a realidade se dando a cada momento, se ajustando, se fazendo, transgredindo e construindo formas de ser e existir. A militância e a ciência andam um passo atrás, são sempre menores que a vida, fazem parte dela, como uma das suas formas de acontecer. Às vezes os discursos que são construídos não condizem com nossa real forma de ser no mundo, são idéias e abstrações, que muitas vezes estão longe da nossa experiência. Porém a NOSSA experiência é a minha e a dos muitos outros. E esses outros caminham juntos a vida, cada um de sua forma, cada um experienciando de forma distinta a sua própria sexualidade, sofrendo e gozando dores e prazeres diversos.
Na vida, os homossexuais são mulheres, homens, transgêneros, ativos, passivos, ecléticos, travestis, brancos, índios, negros, asiáticos, estrangeiros, urbanos, interioramos, pobres, ricos, classe média, católicos, evangélicos, praticantes do candomblé, ubanda, espíritas, mulçumanos, ateus, operários, comerciantes, estudantes, cientistas, roqueiros, eruditos, pagodeiros, ecléticos, bichas, gays, lésbicas, bissexuais, HsH, queers, sapatões, sapatilhas, ursos, barbies, atléticos, sarados, magros, altos, baixos, bonitos, feios, “normais”, mães, pais, filhos, primos, tios, jovens, adultos, idosos, loiros, morenos, ruivos, asiáticos, etc… etc… Tamanha diversidade fala da diversidade do humano, e não diz respeito apenas à homossexualidade. A combinação desses múltiplos fatores compõe um campo de identidades múltiplas, um campo de experiências possíveis que se dão nas vivências do individuo comum.
Ao olhar para esse indivíduo comum, precisamos estar atentos à sua multiplicidade e sua totalidade, à sua universalidade e à sua localidade no espaço, num tempo, numa cultura e nas aberturas possíveis de troca e intercâmbio, de trânsitos que sempre se coagulam no singular universal. Pensar assim é talvez estar dentro-fora dos espaços da política e da ciência. Ambos, a meu ver, são espaços que visam respostas pragmáticas – embora nem sempre sejam úteis e efetivas – constroem ideais e saberes que visam a transformação de um mundo que está, já, sempre, em transformação constante. Lutar por leis, direitos, por novos significados e ressignificados da vida e da realidade, se dá um passo atrás da vida e da realidade. Vida e realidade se processam no agora de cada instante.
Certamente que dizer isso é procurar briga com cientistas e militantes, que reivindicarão seus devidos lugares e valores, como agentes de mudança e transformação dessa realidade e vida no aqui e agora. Eu mesmo, em parte, sou cientista e militante, e escrever esse texto é um exercício de reflexão política e científica, ao mesmo tempo que é uma ação. Pensar e refletir são ações sobre o mundo, ações na vida presente construindo realidade e atualidade. Assim retomo o começo deste texto, em que questiono meu lugar como pessoa e profissional. Esse é meu lugar, dentre tantos outros. Apenas mais um. Refletir sobre nosso lugar no mundo e na vida é o que nos cabe para vivermos e criarmos vida e lutar.