Big Brother e Visibilidade GLBT

Big Brother

senso comum ou um pouco mais…

(Hoje, sem papo psi!)

Não assisto Big Brother Brasil acho que desde a sua 3ª ou 4º edição… Não tenho muitas informações para fazer uma análise em retrospectiva de todas as edições, mas me arrisco a trazer algumas impressões iniciais deste primeiro momento, no iniciozinho da nova edição do programa.

No início do BBB, como todo brasileiro viciado em televisão, acompanhava as edições, votava no site para colocar alguém pra fora, torcia e tinha meus favoritos e seguia o jogo, na dicotomia bem maniqueísta do “bem” contra o “ma”l. Sou da geração que foi criado na frente da telinha da TV e não na frente do computador, como essa nova geração do YOUTUBE, Orkut, Facebook e afins… e me envolvi, na condição de telespectador, nesse movimento cultural (inter)nacional que se tornou os reality shows, verdadeiras “caixas de Skinner” onde se experimenta como num laboratório, as múltiplas facetas da natureza humana – e suas “performances”.

Em alguma edições – não saberia dizer se em todas – havia pelo menos um representante gay, seja “assumido” ou não. Lembro-me do André Gabeh, que ficou meio “em cima do muro”. Tivemos o Jean Willys que foi, provavelmente o que ficou mais em evidência, até hoje sendo uma representação forte, por trazer consigo uma formação universitária e intelectual associada a um discurso de afirmação do direito ao respeito e à cidadania. Até hoje ele é uma representação importante aqui na Bahia.

Teve o psiquiatra “urso” Marcelo, que, se não me engano, acabou se destacando mais pela sua forma de jogar que pela sua orientação sexual. O que é interessante, se pensarmos no que significa ter uma ter uma “cota” de gays no BBB, assim como se tem cotas de negros, nordestinos, pobres… Ter GLBTs nas edições do BBB é uma questão de cotas? – pergunto eu. Sendo, tem um lado positivo, pois mostra o desejo geral da comunidade GLBT em se lutar pela inserção dos homossexuais nos espaços públicos, garantindo direitos iguais de oportunidades. Por outro lado, fica parecendo uma coisa tosca, meio politicamente correta, um tanto caricata, como sempre me parece essa questão de cotas. (Polêmica!!!)

A atual edição do BBB me desperta curiosidade, em pelo menos dois aspectos:

1) Número “expressivo” de representantes assumidos da comunidade GLBT (2 gays e 1 lésbica).

2) Por, desde o começo, já haver uma classificação em grupos (ou tribos): coloridos, sarados, belos, cabeças, ligados…

No primeiro ponto, acho que talvez seja um passo importante no que diz respeito à questão da visibilidade, ao trazer um número maior de representantes em sua diversidade. Por outro lado, me faz parecer que a “cota” aumentou em representatividade e diversificou, incluindo o “L” do GLBT. O que está por traz desse aumento na “cota”? É realmente uma questão de dar visibilidade ao movimento GLBT? Objetiva fortalecer as discussões sobre a luta por direitos a casamento, adoção, à luta contra homofobia… ou será apenas mais uma jogada de marketing e uma tentativa de se ampliar as possibilidade de “análise combinatória de casais”, com direito a selinhos entre homens e mulheres, casais, ménage… Homens e mulheres super sexys e gays felizes para animar as festas…

Sérgio, paulistano, universitário, “emo” (ou algo do tipo, talvez um tanto transgênero…), que traz uma imagem do jovem feliz e “bem criado” que recebe o apoio dos pais, que curte moda, festas, que é “modernoso” e segue As da moda musical, fashion, e que cria um personagem para si mesmo, o Sr. Orgastic, que segue os passos de Andy Worhol em busca de seus 15 minutos de fama, ou do Michael Alig, do filme Party Monster, da cultura clubber, kid club. Que vive a noite em busca de FAMA, SUCESSO e GLAMOUR.

Dicesar, maquiador, quarentão, maquiador, drag queen… Recentemente, ao trazer a experiência do primeiro bolo de aniversário aos 40 anos e ao falar da vinculação com a mãe, traz uma imagem menos glamourosa, (embora como drag seja um arraso!). A profissão de maquiador segue um pouco do imaginário coletivo de que homossexual ou é cabeleireiro, ou maquiador, quando não é travesti… Dicesar ao atuar como drag-queen traz um simbolo do movimento GLBT, marcado pelo bom humor, pelo deboche, pela alegria gay. Ser drag é uma profissão, uma performance artística, que às vezes é vinculada à imagem da travesti, ou da transexual – estando no prisma “trans”, mas que traz consigo peculiaridades próprias que é importante considerarmos.

Sérgio e Dicesar representam bem o protótipo gay do imaginário coletivo. Representação que certamente tem procedência, pois faz parte da diversidade que constitui a comunidade GLBT e suas mais múltiplas manifestações. Eles trazem representações da comunidade gay, a drag e o transgênero, que nos apontam para formas antigas e novas, atualizações e releituras, no espaço “entre” os sexos masculino e feminino, numa configuração híbrida do homem-mulher, que geralemnte está presente no imaginário coletivo, nas representações e estereótipos sociais sobre o homossexual.

Angélica, que ao que me parece é a primeira representante lésbica assumida, jornalista e cheia de ideais de realização pessoal e profissional, não segue o estereótipo “caminhoneira sapatão”. Uma mulher “normal” que, se não dissesse que era lésbica, aparentemente passaria batido. Invisibilidade lésbica? Talvez! Seja porque preferimos não ver o não querermos ver e que está na nossa frente, seja porque a homossexualidade não é algo sempre óbvio que está estampado em nossas testas.

No caso do lesbianismo, sua invisibilidade que trás consigo uma sutileza que talvez seja própria das mulheres, ou não! Uma forma se ser e se comportar que não coloca a sexualidade como principal rótulo identitário, por integrar mais facilmente a multiplicidade de papéis… Será? As mulheres não precisam afirmar o tempo todo sua feminilidade… Os homens precisam? As feministas provavelmente já devem discutir um bocado essa questão, ancoradas em categorias de gênero, papéis sexuais, opressor-oprimido, repressão sexual das mulheres, etc etc… Se até Freud admitia saber pouco da sexualidade feminina, é porque talvez tenha algo a mais que escapa a nossa compreensão… (Papo psi!)

O segundo ponto, os vários grupos, as várias tribos, constituídas a priori como que selecionando os grupos por características que, sinceramente, não dizem nada e são artificiais. Rótulos são artificiais e o movimento grupal é muito mais dinâmico e diverso que categorias classificatórias. O mais comum é que todos interajam e estabeleçam vínculos através de outros elementos, às vezes mais sutis e subliminares… Malhar um bocado pode ser um tema em comum entre os sarados, a homossexualidade e a homofobia pode ser um tema que emerja e traga consigo uma expectativa e um alerta, mas não necessariamente são elementos que norteiem uma identificação e constitua um elo, um laço forte de cumplicidade.

Participar de uma tribo não inviabiliza o trânsito nas outras. O transito é cada vez mais comum nos nossos tempos, em que nos vemos cada dia mais como estrangeiros e poliglotas. Falamos várias línguas, transitamos por vários contextos, encenamos vários papéis e somos múltiplos… somos uma unidade pluri-identitária, globalizado e aculturados, seguindo modas, modos e criando novidades.

Tanta novidade causa espanto e meio que nos desconcerta, quando esperamos que cada coisa esteja no seu lugar, cada um na sua casinha, de palha, madeira ou tijolo, como os porquinhos das histórias infantis. Vem o lobo mau e derruba tudo no sopro – ou no trator! Podemos adotar um pensamento como o do Dourado, que numa conversa na piscina com o Sérgio, de que heterossexual é heterossexual, homossexual é homossexual, e que homem que beija homem ou mulher que beija mulher não é heterossexual, ou precisa criar uma nova categoria – o que confunde as caixinhas e os rótulos… E pensar na possibilidade de o primeiro casal gay da casa ser constituído por um homem e uma mulher! Que panacéia!!!

Nada nessa vida me surpreende e acho que tudo é possível nesse mundo cada vez mais incerto e cheio de dúvidas, pela ruptura cotidiana dos velhos modos definidos de ordenamento social. Dá nó na cabeça? Dá! Mas o que seria de nossos cérebros se não fossem o emaranhado de neurônios interconectados e sempre dispostos a novas conexões sinapticas?!

Esse meu papo nada a ver, beirando o senso comum, bem resenha do BBB… muita coisa a se pensar, sem dúvida. Sem teorias, mas com um olhar atento a essas novidades que a TV ainda nos mostra, construindo realidades fugazes e etérias, fantasias concretas que constroem estilos, tendências, gerações…

Beijo a todos e “me liga, tá?!” ;)

Imagem: renjith krishnan / FreeDigitalPhotos.net

Homossexualidade e Família

A família é, sem sombra de dúvidas, o contexto primeiro de nossa construção identitária. É o contexto onde se dá nossos primeiros processos de socialização, os primeiros passos para nosso  desenvolvimento enquanto pessoa e cidadão. Em geral é na família que aprendemos e constituímos nossa personalidade, através da assimilação de valores, crenças e modos de se comportar. Família essa que não se constitui apenas de pai, mãe e irmãos biológicos (família nuclear), incluindo também todo tipo de cuidadores, de educadores, de pessoas que nos ajudam a dar nossos primeiros passos na vida, nos ensina a falar, comer, nos vestir, caminhar.

Creio que um dos principais dilemas do homossexual em se “afirmar” como tal é o ter de se assumir diante da família, em busca de aceitação e apoio. Aceitação e apoio é o que espera, para que possa continuar caminhando e vivendo, enfrentando desafios e dilemas no mundo, nos outros contextos sociais. A “família ideal” é aquela onde encontramos apoio e confirmação, onde somos aceitos como somos, onde encontramos forças para continuar vivendo e crescendo. A “família real”, no entanto, nem sempre condiz com essa expectativa, constituindo-se também como um contexto de desafios e embates que, nem por isso, deixam de ter uma função de crescimento e aprendizado.

Em minha experiência clínica, no atendimento tanto de homossexuais como heterossexuais, me deparo pessoas que vivenciam cotidianamente conflitos familiares, que sentem o peso da falta ou do excesso de carinho, proteção, cobrança, etc, etc… Me dou conta de que não existe família perfeita. Todas as famílias são imperfeitas, assim como todos nós somos imperfeitos, frutos dessas famílias. Somos imperfeitos pois estamos sempre diante de impasses e dilemas e conflitos que nos requerem capacidade de adaptação e ajustamento, que nos obrigam a viver de forma dialética, negociando, fazendo escolhas e concessões, respeitando diferenças e tentando exercer a auteridade. A família é o outro que nos constitui e é constituída por nós. Ela nos cria através de seus ensinamentos, expectativas e vivencias, e se constitui por nós, por nossas ações e presença, e em nós, nos sentidos e significações que criamos dela.

Na família descobrimos os papéis de menino e menina, homem e mulher, pai, mãe, irmão, irmã, filho, filha… todos com seus respectivos repertórios correspondentes. Na família se configura as primeiras classificações e divisões de ocupação, os lugares de ser no mundo.  Entretanto, na vida, descobrimos que esses lugares não são fixos, e podemos transitar em diversos papéis, senão inteiramente, parcialmente. Os rótulos identitários não são mais tão rígidos, embora permaneçam como referenciais, como um modelo, um esquema básico, que nos ajuda a compreender um ordenamento do que seria uma “família”.

Assumir-se homossexual significa colocar em cheque algumas crenças em relação ao que “é” do homem e da mulher, o que é do esperado no ciclo “natural” da reprodução da vida – nascer, crescer, (casar), procriar, envelhecer, morrer -, ao que se espera sexualmente desses dois pares de papéis sociais sexuais. Assumir-se homossexual é romper, pelo menos provisoriamente, com o ideal de perpetuação de uma família constituída por pai, mãe, filhos. É romper com a concepção de casal constituído por homem e mulher, e com seus complementares passivo-ativo, caçador-coletor, matrizes arcaicas da socialidade. Essa compreensão de família que tem como fim a reprodução da espécie é posta em cheque, apontando-se para a “desnaturalização” do humano, para sua condição como ser de cultura e vontade, capaz de transgredir e reformular os modos de vida.

Afirmar-se gay ou lésbica é dizer, a princípio, que não viverá segundo o natural e o convencional, que irá experimentar uma forma nova de casamento e família, que não a esperada. Sim, experimentar uma nova forma de casamento e família.  Pois casar e constituir família não significa que os pares sejam de sexos diferentes. A matriz dessas duas instituições são – ou deveriam ser – o amor, o companheirismo, a aceitação e o apoio mútuo. Para se constituir um casal é necessário esses elementos. Para ajudar no cuidado, na criação e educação de uma outra vida – um filho – é necessário isso. A medida desses elementos pode variar, mas a presença desses elementos são essenciais.

Para um jovem homossexual se assumir, ele precisa desses elementos, precisam se sentir amados, aceitos, apoiados, acompanhados, para que não percam suas referências identitárias, para que não se sintam completamente desenraizados e sós, para que não entrem em desespero por ausência de referenciais. Entretanto, isso é um ideal, pois nem toda família é perfeita… Há famílias que não proporcionam a segurança, a aceitação e a confirmação para que se cresça e se saiba quem se é, de onde vem e para onde vai. Nem toda família serve como guia para a vida, e às vezes se precisa construir esses referenciais ao longo do caminho tortuoso da vida, abrindo caminhos no meio da floresta. Esse trabalho solitário pode ser vitorioso, mas deixa marcar profundas nas formas de viver, de amar, de apoiar, de cuidar de si e do outro, nas nossas formas de se construir em casal e família.

Vivemos hoje um mundo cada vez mais marcado pela solidão e pelo individualismo. Esse modo de vida é um sintoma de uma época cada vez mais presente, de uma conjuntura que nos aponta para a falta de raízes, de referências, de vínculos. Isso vale para todos que experimentam um desligar-se da vida em família. Retorna-se a uma vivencia errante anterior à tribo, em que cada um se vê solto nas florestas – de asfalto – lutando pela própria sobrevivência individualmente. A família, idealmente, é o lugar do abrigo e da segurança, da constância, da acolhida. Longe da família, se é estrangeiro.

Assumir-se homossexual é correr o risco de se tornar estrangeiro, de desabrigar-se, de ir para a vida lutar pela própria sobrevivência. Esse risco pode ser extremamente importante para o crescimento e amadurecimento da pessoa, da aquisição de autonomia e exercício da liberdade… e deixa marcas.

Somos marcados na vida pela dialética entre ser individual e coletivo. A família é matriz da sociedade, é a escola onde aprendemos a ser humanos sociabilizados, educados para a convivência. Após um certo momento, somos jogados na vida coletiva para sermos indivíduos, livres e autônomos, em busca de nossa própria realização pessoal, e em busca de um encontro para vir a constituir uma nova família, nova matriz de sociabilidade, retomando o ciclo. Assumir-se homossexual é romper esse ciclo ou estar nele de outra forma, experimentando outros caminhos, criando novas matrizes, reconfigurando a sociedade.

Isso tudo é um ideal, e uma realidade. Assumir-se homossexual é correr o risco de viver outros caminhos e o mesmo caminho. Assume-se não apenas para si, mas para toda a sociedade, começando pela família. Assume-se uma nova forma de ser família, uma nova forma de ser homem e mulher, menino e menina, filho, filha, irmão, irmã… Tudo muda e continua sendo o que se é, numa transformação que nos dirige para o ser nós mesmos. Não podemos ser outra coisa senão nós mesmos e tentar ser outra coisa não é possível, a não ser encenando-se um papel que não nos assenta bem, que nos aperta e nos causa muito sofrimento.

Quem se assume homossexual espera apoio, amor, aceitação e respeito. A família é o primeiro lugar onde se espera isso, pois sempre será o primeiro lugar onde aprendemos a ser nós mesmos. Família que não é a nuclear e biológica, mas que é local de crescimento. Ao longo da vida podemos viver e construir famílias, vivenciar esse sentimento de vinculação e identidade. É o nosso movimento humano de ser e viver em grupo, em comunidade, em coletividade. Não esperamos nada além disso. Viver com o outro, conviver na multiplicidade de quem somos e escolhemos ser em nossos encontros no mundo.

Universalidade e Diversidade Sexual “entre” Militância, Ciência e Vida

Às vezes fico pensando sobre o meu lugar enquanto pessoa e profissional, no que diz respeito a minhas reflexões relativas às questões relacionadas à homossexualidade e à comunidade GLBT como um todo. Tendo a manter uma perspectiva que, para quem lê os artigos, está entre a vivência pessoal e o olhar do profissional, tentando me manter no campo da observação da vida cotidiana, vivida e relatada pelas pessoas com quem convivo nos meus diversos contextos. Ao adotar essa perspectiva, me coloco um pouco a margem do que se dá no campo da militância política e das discussões – e polêmicas – da comunidade GLBT, entretanto estou atento, recebendo e-mails de grupos de militância da Bahia, que discutem as questões que se dão no âmbito político na esfera nacional.

Considero importante refletir sobre a multiplicidade do fenômeno das “homossexualidades” em suas múltiplas dimensões: sociais, políticas, econômicas, ideológicas, culturais. Acho também de fundamental importância, considerar outros tantos fatores e contextos: as relações estabelecidas no âmbito da família, da escola, da comunidade, dos ambientes religiosos, dos espaços públicos. Acho importante considerarmos que as questões GLBT dizem respeito à vida cotidiana em suas mais diversas formas de manifestação e atualização. Em termos científicos, tentar abordar qualquer fenômeno seria praticamente uma tarefa impossível, mas se não for assim, estaremos sempre caindo em reducionismos arbitrários. Qualquer abordagem sobre a questão da(s) homossexualidade(s) deve levar em consideração a multiplicidade e diversidade do fenômeno, considerando-o múltiplo e multifacetado, dinâmico e, principalmente, existencial.

Os espaços da militância e da ciência talvez sejam os principais espaços de articulação de um discurso político e cultural que, esperamos, tenha repercussões sobre as práticas cotidianas, sobre a vida. O campo da vida, no entanto, é mais múltiplo e dinâmico que qualquer discurso, é a realidade se dando a cada momento, se ajustando, se fazendo, transgredindo e construindo formas de ser e existir. A militância e a ciência andam um passo atrás, são sempre menores que a vida, fazem parte dela, como uma das suas formas de acontecer. Às vezes os discursos que são construídos não condizem com nossa real forma de ser no mundo, são idéias e abstrações, que muitas vezes estão longe da nossa experiência. Porém a NOSSA experiência é a minha e a dos muitos outros. E esses outros caminham juntos a vida, cada um de sua forma, cada um experienciando de forma distinta a sua própria sexualidade, sofrendo e gozando dores e prazeres diversos.

Na vida, os homossexuais são mulheres, homens, transgêneros, ativos, passivos, ecléticos, travestis, brancos, índios, negros, asiáticos, estrangeiros, urbanos, interioramos, pobres, ricos, classe média, católicos, evangélicos, praticantes do candomblé, ubanda, espíritas, mulçumanos, ateus, operários, comerciantes, estudantes, cientistas, roqueiros, eruditos, pagodeiros, ecléticos, bichas, gays, lésbicas, bissexuais, HsH, queers, sapatões, sapatilhas, ursos, barbies, atléticos, sarados, magros, altos, baixos, bonitos, feios, “normais”, mães, pais, filhos, primos, tios, jovens, adultos, idosos, loiros, morenos, ruivos, asiáticos, etc… etc… Tamanha diversidade fala da diversidade do humano, e não diz respeito apenas à homossexualidade. A combinação desses múltiplos fatores compõe um campo de identidades múltiplas, um campo de experiências possíveis que se dão nas vivências do individuo comum.

Ao olhar para esse indivíduo comum, precisamos estar atentos à sua multiplicidade e sua totalidade, à sua universalidade e à sua localidade no espaço, num tempo, numa cultura e nas aberturas possíveis de troca e intercâmbio, de trânsitos que sempre se coagulam no singular universal.  Pensar assim é talvez estar dentro-fora dos espaços da política e da ciência. Ambos, a meu ver, são espaços que visam respostas pragmáticas – embora nem sempre sejam úteis e efetivas – constroem ideais e saberes que visam a transformação de um mundo que está, já, sempre, em transformação constante. Lutar por leis, direitos, por novos significados e ressignificados da vida e da realidade, se dá um passo atrás da vida e da realidade. Vida e realidade se processam no agora de cada instante.

Certamente que dizer isso é procurar briga com cientistas e militantes, que reivindicarão seus devidos lugares e valores, como agentes de mudança e transformação dessa realidade e vida no aqui e agora. Eu mesmo, em parte, sou cientista e militante, e escrever esse texto é um exercício de reflexão política e científica, ao mesmo tempo que é uma ação. Pensar e refletir são ações sobre o mundo, ações na vida presente construindo realidade e atualidade. Assim retomo o começo deste texto, em que questiono meu lugar como pessoa e profissional. Esse é meu lugar, dentre tantos outros. Apenas mais um. Refletir sobre nosso lugar no mundo e na vida é o que nos cabe para vivermos e criarmos vida e lutar.

O que eu procuro em você?

O igual e o diferente e a alteridade na relação a dois.

Qual é o mais óbvio segredo dos relacionamentos? Sempre buscamos algo no outro. Buscamos no outro algo que idealizamos: carinho, amor, companheirismo, atenção, fidelidade, etc etc. Esperamos que o outro nos supra nossas necessidades de afeto, nossas carências e faltas. Esperamos que o outro seja o príncipe ou a princesa encantados, que não tem defeitos, que está sempre disponível e que nos aceita incondicionalmente.

Se buscamos isso nas pessoas, jamais encontraremos alguém verdadeiramente humana, de carne e osso, e defeitos. Se idealizamos a perfeição, precisamos olhar com lucidez para nós mesmos e nos darmos conta de que somos sim imperfeitos, e ser imperfeito é o melhor que podemos ser, pois é o que somos.

Relacionamentos começam na grande empolgação do apaixonamento, em que mentes e corpos estão conectados quase que numa mesma sintonia. Esperamos do outro o complemento absoluto. Mesmos gostos, mesmos hábitos, mesmos valores, mesmo tudo. O outro não é nosso igual. Ele não é nosso espelho narcísico. E, se acontece de encontrarmos nossa alma gêmea, logo logo nos daremos conta de que o igual limita e nunca é absoluto.

Quando estamos num relacionamento homossexual já temos uma semelhança dada a priori – o mesmo sexo, o mesmo corpo e desejos que acreditamos ser os mesmos. Entretanto, o outro é sempre outro. Não podemos transpor para ele nossos próprios desejos e nossas formas de obter prazer. O outro não pensa igual a mim, não tem as mesmas expectativas de relacionamento, e se comporta diferente de mim.

Um relacionamento sem desestendimentos já traz um sinal de descompasso. Alguém está se anulando, fazendo mais concessões que o outro, para não ferir a imagem idealizada de relacionamento perfeito. Relacionamentos perfeitos não existem! E o pior de tudo é quando não nos damos conta disso. Quando culpamos o outro ou nos culpamos por as coisas não terem saído da forma como queríamos. Nos frustramos por criarmos expectativas impossíveis de serem satisfeitas.

Nem todo gay é liberal. Nem todo gay é promíscuo. Nem todo gay é independente. Nem toda lésbica é apaixonada. Nem toda lésbica é atenciosa. Nem toda lésbica é ciumenta. Nem todo todo é sempre o mesmo. E o mesmo sempre é diferente.

Precisamos aprender a perceber e valorizar a diferença, considerando-a não como um obstáculo para a relação, mas como uma oportunidade para o crescimento. Quem se apega sempre ao mesmo, vive num mundo restrito, cristalizado em torno de uma idéia, uma idealização, uma abstração criada que não necessariamente tem sustentação no real.

É importante também ter consciência de nossa imperfeição, não para nos subestimarmos, nem para justificar nossos erros, mas para termos a medida sobre o que podemos ou não oferecer ao outro, para que não esperemos do outro aquilo que não podemos retribuir. As relações não necessariamente precisam ser de trocas quase comerciais, num toma-lá-dá-cá em que sempre visamos um lucro, mas sim numa relação de interdependência, uma relação intersubjetiva, uma relação sempre ENTRE duas pessoas. Nesse entre as trocas favorecem o crescimento. E só há troca onde há o diferente – necessidades, recursos, sentimentos, desejos diferentes.

A perfeição é o impossível. Aprender a confiar e valorizar o possível talvez nos ajude a con-viver bem com o outro, VIVER COM. Essa é a essência de todo relacionamento, o viver com… E só podemos viver com aquele que nos é real, em seu possível, naquilo que ele realmente tem e pode nos dar de si. Senão, estaremos sempre nos relacionando com um ideal inexistente, com um fantasma que acreditamos ser o outro, com nossas expectativas e projeções. E, nesse estar sempre guiado pela ideal, buscamos também, nós mesmos, sermos perfeitos e ideais.

Imagem: djcodrin / FreeDigitalPhotos.net

Você não está sozinho

du-er-ikke-alene

O filme filme dinamarquês “Você não está sozinho” (Du Er Ikke Alene), de 1978, se passa numa escola dinamarquesa, onde funciona um internato de meninos. Ambientada na década de 70, o filme traz as primeiras descobertas da adolescência de um grupo de meninos, que começam a ter contato com bebidas, drogas, com o corpo e a sexualidade.

Na escola os meninos têm aulas sobre política, sobre os efeitos de drogas e “vivências” que exploram o contato com o corpo e os impactos psicológicos das relações grupais de aceitação ou rejeição. Os professores adotam duas posturas: uma mais liberal, que favorece a reflexão e incentivam as descobertas da adolescência e uma mais conservadora, que prima pelo respeito aos professora e pela moral, submetendo os alunos a regras rígidas e primando pela “coerência na educação”. Apesar do formato laico – gerido por civis – a escola tinha aulas de religião, denotando um modelo tradicional de educação.

Numa das aulas, sobre política, em que se discute sobre regimes democráticos, um dos alunos questiona a participação dos jovens e idosos no regime democrático – considerados marginais nos processos decisórios. O professor, como justificativa, fala da “imaturidade política dos jovens”, legitimando a representação social de jovem como um “não lugar”, um “não-ainda”, um “por vir”.

Nas cenas envolvendo os garotos, evidenciam-se vários fenômenos “típicos” da adolescência e suas descobertas: o uso de drogas (desodorante), as práticas de masturbação, a leitura de revistas e livros eróticos, brincadeiras sexuais e brigas entre os meninos. As primeiras experiências sexuais se dão entre os próprios meninos ou com meninas da turma – ou mais velhas, que cuidam do refeitório – de forma delicada, num progressivo desvelar-se que transita entre a excitação da curiosidade o medo e de serem descobertos. Apesar dos controles exercidos pelos professores – em especial pela figura do diretor – os meninos encontram formas alternativas de “burlar” as regras e experimentarem clandestinamente, as primeiras experiências da adolescência.

Em destaque, tem-se a história amorosa de dois garotos – Kim e Bo – que vivenciam essas experiências entre si. Bo vem das férias na praia, em que teve um contato amoroso com um amigo e trás as dúvidas e curiosidades sobre a sexualidade. Kim, filho do diretor da escola, mais novo que Bo e da maioria dos meninos, que tem contato com eles e, progressivamente vai entrando em contato com a sexualidade e com o amor. Aos poucos vai se delineando um jogo de sedução entre Bo e Kim, em que ambos experimentam o contato e a intimidade, de forma lúdica , por meio de brincadeiras.

Algumas cenas traz bem nítida essa ludicidade que demarca a fase de transição da infância para a adolescência, como a brincadeira de índio, e o banho dos dois, em que o Kim brinca com a espuma do xampu. A descoberta da sexualidade, entre eles, se contrapõe com a “invasão de pornografia” que se dá na escola, pelos meninos mais velhos, mostrando uma via que mantém uma aura de “inocência” da infância – considerada característica “típica” da infância.

Em paralelo à relação entre Kim e Bo – protótipo desse amor inocente – tem-se as formas dos outros jovens de vivenciar de forma mais explícita as descobertas da sexualidade, por meio de piadas, brincadeiras eróticas e da externalização espontânea dessa sexualidade. Colocada em evidência, nas ações e na linguagem dos jovens, essa sexualidade é reprimida pelo diretor, quando tenta punir um dos alunos, responsáveis por prender fotos revistas pornográficas no banheiro dos dormitórios.

Diante da postura autoritária do diretor da escola e do corpo docente, alguns alunos se unem num movimento de “greve”, se recusando a freqüentar as aulas e organizando um movimento de protesto com faixas e com um documentário – com um apoio de uma professora (a que fala sobre drogas) que adota uma visão mais liberal. Nesse movimento, evidencia-se o ideal de coesão grupal e do movimento jovem, vivido de forma marcante nos fins da década de 60 e meados de 70 (Revolta de Maio de 1968 e o movimento de contracultura nos EUA e Europa com os hippies, beats, etc).

Uma referência ao movimento hippie também é feita, quando um grupo de alunos vai para o picnic no bosque. Lá eles experimentam um contato direto com a natureza, com a sensação de liberdade dionisíaca e de reconexão com o universo. Kim e Bo trocam carícias e experimentam a sensação de embriaguez– real e simbólica – do amor e do vinho.

A coesão grupal se faz presente também no movimento de defesa de Bo, quando ele é perseguido e humilhado por uma gangue de “meninos mais velhos”. Nesse conflito, o grupo vai a seu socorro. De forma subliminar, o sexo aparece reverenciado como uma forma de poder, quando, para pagar pelo crime de ter agredido Bo, um dos meninos da gangue é obrigado a beijar as nádegas de um dos meninos da escola, como forma de humilhação.

Ao fim do filme, o movimento de greve dos estudantes garante a permanência do colega que seria expulso. Há uma encenação de uma guerra, em que um dos meninos morre baleado. Monta-se o filme, em que o encontro entre Kim e Bo ilustra o mandamento cristão da “Amai ao próximo como a si mesmo”.

Nesse filme, poderíamos ensaiar alguns possíveis pontos de análise:

  1. A adolescência como fase de descobertas e experimentação;
  2. Os conflitos de gerações e as diferentes formas de lidar com a passagens adolescência (liberal x conservadora);
  3. A questão da coesão grupal e a importância da pertença x a solidão na adolescência;
  4. O que se define, nas escolas, com educação sexual;
  5. As primeiras experiências sexuais como experimentação e exploração da sexualidade ou como definidora de uma orientação sexual e futura identidade sexual (homossexual ou heterossexual);
  6. A questão das drogas e uma possível função preventiva da educação;
  7. Alienação x implicação dos pais na criação dos filhos – a questão do modelo de internato;
  8. O contexto sócio-histórico da década de 70 (Contracultura, movimento hippie, movimento de liberação sexual – feminista e gay)

Lançamento de livro: A Hierarquia da Invisibilidade

A Cortez Editora lançou mais um volume da sua Coleção Preconceitos. O livro “Preconceito contra homossexualidades – A hierarquia da invisibilidade” (valor médio R$ 17,90), de Marco Aurélio Máximo Prado e Frederico Viana Machado. Marco Aurélio é doutor em Psicologia Social pela Pontifica Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e Frederico é um estudioso com experiência em Psicologia Social e Política, com ênfase em identidade coletiva, movimentos sociais e gênero. O livro possui 144 páginas onde é analisado o preconceito contra gays sob os pontos de vista histórico, político e social para demonstrar que a homossexualidade foi criada para ser mais um dos mecanismos de manutenção das classes dominantes.

A Coleção Preconceitos oferece em linguagem clara e acessível, novas abordagens que tratam, com rigor e objetividade, de questões que estão na raiz de várias injustiças sociais. Os preconceitos tentam naturalizar desigualdades sociais, multiplicando estereótipos que menosprezam a diversidade cultural, a diversidade de escolha, as marcas do corpo e a construção social das identidades culturais. Os autores traçam um panorama do desenvolvimento das opiniões públicas sobre elas através dos discursos históricos sobre a diversidade sexual com base em estudos de autores como o revolucionário Alfred Kinsey.