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	<title>Núcleo UNISex &#187; homossexualidade</title>
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	<description>Universalidade e Diversidade Sexual</description>
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		<title>Big Brother e Visibilidade GLBT</title>
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		<pubDate>Fri, 22 Jan 2010 00:45:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Fernando Calaça</dc:creator>
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		<description><![CDATA[senso comum ou um pouco mais&#8230; (Hoje, sem papo psi!) Não assisto Big Brother Brasil acho que desde a sua 3ª ou 4º edição&#8230; Não tenho muitas informações para fazer uma análise em retrospectiva de todas as edições, mas me arrisco a trazer algumas impressões iniciais deste primeiro momento, no iniciozinho da nova edição do [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-558" title="Big Brother" src="http://nucleounisex.org/wp-content/uploads/2010/01/bigbrother.png" alt="Big Brother" width="583" height="270" /></p>
<h3>senso comum ou um pouco mais&#8230;</h3>
<p><em>(Hoje, sem papo psi!)</em></p>
<p>Não assisto Big Brother Brasil acho que desde a sua 3ª ou 4º edição&#8230; Não tenho muitas informações para fazer uma análise em retrospectiva de todas as edições, mas me arrisco a trazer algumas impressões iniciais deste primeiro momento, no iniciozinho da nova edição do programa.</p>
<p>No início do BBB, como todo brasileiro viciado em televisão, acompanhava as edições, votava no site para colocar alguém pra fora, torcia e tinha meus favoritos e seguia o jogo, na dicotomia bem maniqueísta do “bem” contra o “ma”l. Sou da geração que foi criado na frente da telinha da TV e não na frente do computador, como essa nova geração do YOUTUBE, Orkut, Facebook e afins&#8230; e me envolvi, na condição de telespectador, nesse movimento cultural (inter)nacional que se tornou os reality shows, verdadeiras “caixas de Skinner” onde se experimenta como num laboratório, as múltiplas facetas da natureza humana – e suas “performances”.</p>
<p>Em alguma edições – não saberia dizer se em todas – havia pelo menos um representante gay, seja “assumido” ou não. Lembro-me do André Gabeh, que ficou meio “em cima do muro”. Tivemos o Jean Willys que foi, provavelmente o que ficou mais em evidência, até hoje sendo uma representação forte, por trazer consigo uma formação universitária e intelectual associada a um discurso de afirmação do direito ao respeito e à cidadania. Até hoje ele é uma representação importante aqui na Bahia.</p>
<p>Teve o psiquiatra “urso” Marcelo, que, se não me engano, acabou se destacando mais pela sua forma de jogar que pela sua orientação sexual. O que é interessante, se pensarmos no que significa ter uma ter uma “cota” de gays no BBB, assim como se tem cotas de negros, nordestinos, pobres&#8230; Ter GLBTs nas edições do BBB é uma questão de cotas? &#8211; pergunto eu. Sendo, tem um lado positivo, pois mostra o desejo geral da comunidade GLBT em se lutar pela inserção dos homossexuais nos espaços públicos, garantindo direitos iguais de oportunidades. Por outro lado, fica parecendo uma coisa tosca, meio politicamente correta, um tanto caricata, como sempre me parece essa questão de cotas. (Polêmica!!!)</p>
<p>A atual edição do BBB me desperta curiosidade, em pelo menos dois aspectos:</p>
<p>1)     Número “expressivo” de representantes assumidos da comunidade GLBT (2 gays e 1 lésbica).</p>
<p>2)     Por, desde o começo, já haver uma classificação em grupos (ou tribos):  coloridos, sarados, belos, cabeças, ligados&#8230;</p>
<p>No primeiro ponto, acho que talvez seja um passo importante no que diz respeito à questão da visibilidade, ao trazer um número maior de representantes em sua diversidade. Por outro lado, me faz parecer que a “cota” aumentou em representatividade e diversificou, incluindo o “L” do GLBT. O que está por traz desse aumento na “cota”? É realmente uma questão de dar visibilidade ao movimento GLBT? Objetiva fortalecer as discussões sobre a luta por direitos a casamento, adoção, à luta contra homofobia&#8230; ou será apenas mais uma jogada de marketing e uma tentativa de se ampliar as possibilidade de “análise combinatória de casais”, com direito a selinhos entre homens e mulheres, casais, <em>ménage</em>&#8230; Homens e mulheres super sexys e gays felizes para animar as festas&#8230;</p>
<p>Sérgio, paulistano, universitário, “emo” (ou algo do tipo, talvez um tanto transgênero&#8230;), que traz uma imagem do jovem feliz e “bem criado” que recebe o apoio dos pais, que curte moda, festas, que é “modernoso” e segue As da moda musical, fashion, e que cria um personagem para si mesmo, o Sr. Orgastic, que segue os passos de Andy Worhol em busca de seus 15 minutos de fama, ou do Michael Alig, do filme Party Monster,  da cultura clubber, kid club. Que vive a noite em busca de FAMA, SUCESSO e GLAMOUR.</p>
<p>Dicesar, maquiador, quarentão, maquiador, drag queen&#8230; Recentemente, ao trazer a experiência do primeiro bolo de aniversário aos 40 anos e ao falar da vinculação com a mãe, traz uma imagem menos glamourosa, (embora como drag seja um arraso!). A profissão de maquiador segue um pouco do imaginário coletivo de que homossexual ou é cabeleireiro, ou maquiador, quando não é travesti&#8230; Dicesar ao atuar como drag-queen traz um simbolo do movimento GLBT, marcado pelo  bom humor, pelo deboche, pela alegria gay. Ser drag é uma profissão, uma  performance artística, que às vezes é vinculada à imagem da travesti, ou da  transexual &#8211; estando no prisma &#8220;trans&#8221;, mas que traz consigo peculiaridades  próprias que é importante considerarmos.</p>
<p>Sérgio e Dicesar representam bem o protótipo gay do imaginário coletivo. Representação que certamente tem procedência, pois faz parte da diversidade que constitui a comunidade GLBT e suas mais múltiplas manifestações. Eles trazem representações da comunidade gay, a drag e o transgênero, que nos  apontam para formas antigas e novas, atualizações e releituras, no espaço  &#8220;entre&#8221; os sexos masculino e feminino, numa configuração híbrida do  homem-mulher, que geralemnte está presente no imaginário coletivo, nas  representações e estereótipos sociais sobre o homossexual.</p>
<p>Angélica, que ao que me parece é a primeira representante  lésbica assumida, jornalista e cheia de ideais de realização pessoal e profissional,    não segue o estereótipo “caminhoneira sapatão”. Uma mulher “normal” que, se não dissesse que era lésbica, aparentemente passaria batido. Invisibilidade lésbica? Talvez! Seja porque preferimos não ver o não querermos ver e que está na nossa frente, seja porque a homossexualidade não é algo sempre óbvio que está estampado em nossas testas.</p>
<p>No caso do lesbianismo, sua invisibilidade que trás consigo uma sutileza que talvez seja própria das mulheres, ou não! Uma forma se ser e se comportar que não coloca a sexualidade como principal rótulo identitário, por integrar mais facilmente a multiplicidade de papéis&#8230; Será? As mulheres não precisam afirmar o tempo todo sua feminilidade&#8230; Os homens precisam? As feministas provavelmente já devem discutir um bocado essa questão, ancoradas em categorias de gênero, papéis sexuais, opressor-oprimido, repressão sexual das mulheres, etc etc&#8230; Se até Freud admitia saber pouco da sexualidade feminina, é porque talvez tenha algo a mais que escapa a nossa compreensão&#8230; (Papo psi!)</p>
<p>O segundo ponto, os vários grupos, as várias tribos, constituídas a priori como que selecionando os grupos por características que, sinceramente, não dizem nada e são artificiais. Rótulos são artificiais e o movimento grupal é muito mais dinâmico e diverso que categorias classificatórias. O mais comum é que todos interajam e estabeleçam vínculos através de outros elementos, às vezes mais sutis e subliminares&#8230; Malhar um bocado pode ser um tema em comum entre os sarados, a homossexualidade e a homofobia pode ser um tema que emerja e traga consigo uma expectativa e um alerta, mas não necessariamente são elementos que norteiem uma identificação e constitua um elo, um laço forte de cumplicidade.</p>
<p>Participar de uma tribo não inviabiliza o trânsito nas outras. O transito é cada vez mais comum nos nossos tempos, em que nos vemos cada dia mais como estrangeiros e poliglotas. Falamos várias línguas, transitamos por vários contextos, encenamos vários papéis e somos múltiplos&#8230; somos uma unidade pluri-identitária, globalizado e aculturados, seguindo modas, modos e criando novidades.</p>
<p>Tanta novidade causa espanto e meio que nos desconcerta, quando esperamos que cada coisa esteja no seu lugar, cada um na sua casinha, de palha, madeira ou tijolo, como os porquinhos das histórias infantis. Vem o lobo mau e derruba tudo no sopro – ou no trator! Podemos adotar um pensamento como o do Dourado, que numa conversa na piscina com o Sérgio, de que heterossexual é heterossexual, homossexual é homossexual, e que homem que beija homem ou mulher que beija mulher não é heterossexual, ou precisa criar uma nova categoria – o que confunde as caixinhas e os rótulos&#8230;  E pensar na possibilidade de o primeiro casal gay da casa ser constituído por um homem e uma mulher! Que panacéia!!!</p>
<p>Nada nessa vida me surpreende e acho que tudo é possível nesse mundo cada vez mais incerto e cheio de dúvidas, pela ruptura cotidiana dos velhos modos definidos de ordenamento social. Dá nó na cabeça? Dá! Mas o que seria de nossos cérebros se não fossem o emaranhado de neurônios interconectados e sempre dispostos a novas conexões sinapticas?!</p>
<p>Esse meu papo nada a ver, beirando o senso comum, bem resenha do BBB&#8230; muita coisa a se pensar, sem dúvida. Sem teorias, mas com um olhar atento a essas novidades que a TV ainda nos mostra, construindo realidades fugazes e etérias, fantasias concretas que constroem estilos, tendências, gerações&#8230;</p>
<p><em>Beijo a todos e “me liga, tá?!” ;)</em></p>
<p style="text-align: right;"><a rel="nofollow" href="http://www.freedigitalphotos.net/images/view_photog.php?photogid=721">Imagem: renjith krishnan / FreeDigitalPhotos.net</a></p>
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		<title>Homossexualidade e Família</title>
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		<pubDate>Thu, 21 Jan 2010 16:39:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Fernando Calaça</dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunas]]></category>
		<category><![CDATA[família]]></category>
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		<description><![CDATA[A família é, sem sombra de dúvidas, o contexto primeiro de nossa construção identitária. É o contexto onde se dá nossos primeiros processos de socialização, os primeiros passos para nosso  desenvolvimento enquanto pessoa e cidadão. Em geral é na família que aprendemos e constituímos nossa personalidade, através da assimilação de valores, crenças e modos de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-561" title="Família" src="http://nucleounisex.org/wp-content/uploads/2010/01/familia.png" alt="" width="583" height="270" /></p>
<p>A família é, sem sombra de dúvidas, o contexto primeiro de nossa construção identitária. É o contexto onde se dá nossos primeiros processos de socialização, os primeiros passos para nosso  desenvolvimento enquanto pessoa e cidadão. Em geral é na família que aprendemos e constituímos nossa personalidade, através da assimilação de valores, crenças e modos de se comportar. Família essa que não se constitui apenas de pai, mãe e irmãos biológicos (família nuclear), incluindo também todo tipo de cuidadores, de educadores, de pessoas que nos ajudam a dar nossos primeiros passos na vida, nos ensina a falar, comer, nos vestir, caminhar.</p>
<p>Creio que um dos principais dilemas do homossexual em se “afirmar” como tal é o ter de se assumir diante da família, em busca de <strong>aceitação e apoio</strong>. Aceitação e apoio é o que espera, para que possa continuar caminhando e vivendo, enfrentando desafios e dilemas no mundo, nos outros contextos sociais. A “família ideal” é aquela onde encontramos apoio e confirmação, onde somos aceitos como somos, onde encontramos forças para continuar vivendo e crescendo. A “família real”, no entanto, nem sempre condiz com essa expectativa, constituindo-se também como um contexto de desafios e embates que, nem por isso, deixam de ter uma função de crescimento e aprendizado.</p>
<p>Em minha experiência clínica, no atendimento tanto de homossexuais como heterossexuais, me deparo pessoas que vivenciam cotidianamente conflitos familiares, que sentem o peso da falta ou do excesso de carinho, proteção, cobrança, etc, etc&#8230; Me dou conta de que não existe família perfeita. Todas as famílias são imperfeitas, assim como todos nós somos imperfeitos, frutos dessas famílias. Somos imperfeitos pois estamos sempre diante de impasses e dilemas e conflitos que nos requerem capacidade de adaptação e ajustamento, que nos obrigam a viver de forma dialética, negociando, fazendo escolhas e concessões, respeitando diferenças e tentando exercer a auteridade. A família é o outro que nos constitui e é constituída por nós. Ela nos cria através de seus ensinamentos, expectativas e vivencias, e se constitui por nós, por nossas ações e presença, e em nós, nos sentidos e significações que criamos dela.</p>
<p>Na família descobrimos os papéis de menino e menina, homem e mulher, pai, mãe, irmão, irmã, filho, filha&#8230; todos com seus respectivos repertórios correspondentes. Na família se configura as primeiras classificações e divisões de ocupação, os lugares de ser no mundo.  Entretanto, na vida, descobrimos que esses lugares não são fixos, e podemos transitar em diversos papéis, senão inteiramente, parcialmente. Os rótulos identitários não são mais tão rígidos, embora permaneçam como referenciais, como um modelo, um esquema básico, que nos ajuda a compreender um ordenamento do que seria uma “família”.</p>
<p>Assumir-se homossexual significa colocar em cheque algumas crenças em relação ao que “é” do homem e da mulher, o que é do esperado no ciclo “natural” da <strong>reprodução</strong> da vida – nascer, crescer, (casar), <strong>procriar</strong>, envelhecer, morrer -, ao que se espera sexualmente desses dois pares de papéis sociais sexuais. Assumir-se homossexual é romper, pelo menos provisoriamente, com o ideal de perpetuação de uma família constituída por pai, mãe, filhos. É romper com a concepção de casal constituído por homem e mulher, e com seus complementares passivo-ativo, caçador-coletor, matrizes arcaicas da socialidade. Essa compreensão de família que tem como fim a reprodução da espécie é posta em cheque, apontando-se para a “desnaturalização” do humano, para sua condição como ser de cultura e vontade, capaz de transgredir e reformular os modos de vida.</p>
<p>Afirmar-se gay ou lésbica é dizer, a princípio, que não viverá segundo o natural e o convencional, que irá experimentar uma forma nova de casamento e família, que não a esperada. Sim, experimentar uma <strong>nova forma de casamento e família</strong>.  Pois casar e constituir família não significa que os pares sejam de sexos diferentes. A matriz dessas duas instituições são – ou deveriam ser – o amor, o companheirismo, a aceitação e o apoio mútuo. Para se constituir um casal é necessário esses elementos. Para ajudar no cuidado, na criação e educação de uma outra vida – um filho – é necessário isso. A medida desses elementos pode variar, mas a presença desses elementos são essenciais.</p>
<p>Para um jovem homossexual se assumir, ele precisa desses elementos, precisam se sentir amados, aceitos, apoiados, acompanhados, para que não percam suas referências identitárias, para que não se sintam completamente desenraizados e sós, para que não entrem em desespero por ausência de referenciais. Entretanto, isso é um ideal, pois nem toda família é perfeita&#8230; Há famílias que não proporcionam a segurança, a aceitação e a confirmação para que se cresça e se saiba quem se é, de onde vem e para onde vai. Nem toda família serve como guia para a vida, e às vezes se precisa construir esses referenciais ao longo do caminho tortuoso da vida, abrindo caminhos no meio da floresta. Esse trabalho solitário pode ser vitorioso, mas deixa marcar profundas nas formas de viver, de amar, de apoiar, de cuidar de si e do outro, nas nossas formas de se construir em casal e família.</p>
<p>Vivemos hoje um mundo cada vez mais marcado pela solidão e pelo individualismo. Esse modo de vida é um sintoma de uma época cada vez mais presente, de uma conjuntura que nos aponta para a falta de raízes, de referências, de vínculos. Isso vale para todos que experimentam um desligar-se da vida em família.  Retorna-se a uma vivencia errante anterior à tribo, em que cada um se vê solto nas florestas &#8211; de asfalto – lutando pela própria sobrevivência individualmente. A família, idealmente, é o lugar do abrigo e da segurança, da constância, da acolhida. Longe da família, se é estrangeiro.</p>
<p>Assumir-se homossexual é correr o risco de se tornar estrangeiro, de desabrigar-se, de ir para a vida lutar pela própria sobrevivência. Esse risco pode ser extremamente importante para o crescimento e amadurecimento da pessoa, da aquisição de autonomia e exercício da liberdade&#8230; e deixa marcas.</p>
<p>Somos marcados na vida pela dialética entre ser individual e coletivo. A família é matriz da sociedade, é a escola onde aprendemos a ser humanos sociabilizados, educados para a convivência. Após um certo momento, somos jogados na vida coletiva para sermos indivíduos, livres e autônomos, em busca de nossa própria realização pessoal, e em busca de um encontro para vir a constituir uma nova família, nova matriz de sociabilidade, retomando o ciclo. Assumir-se homossexual é romper esse ciclo ou estar nele de outra forma, experimentando outros caminhos, criando novas matrizes, reconfigurando a sociedade.</p>
<p>Isso tudo é um ideal, e uma realidade. Assumir-se homossexual é correr o risco de viver outros caminhos e o mesmo caminho. Assume-se não apenas para si, mas para toda a sociedade, começando pela família. Assume-se uma nova forma de ser família, uma nova forma de ser homem e mulher, menino e menina, filho, filha, irmão, irmã&#8230; Tudo muda e continua sendo o que se é, numa transformação que nos dirige para o ser nós mesmos. Não podemos ser outra coisa senão nós mesmos e tentar ser outra coisa não é possível, a não ser encenando-se um papel que não nos assenta bem, que nos aperta e nos causa muito sofrimento.</p>
<p>Quem se assume homossexual espera apoio, amor, aceitação e respeito. A família é o primeiro lugar onde se espera isso, pois sempre será o primeiro lugar onde aprendemos a ser nós mesmos. Família que não é a nuclear e biológica, mas que é local de crescimento. Ao longo da vida podemos viver e construir famílias, vivenciar esse sentimento de vinculação e identidade. É o nosso movimento humano de ser e viver em grupo, em comunidade, em coletividade. Não esperamos nada além disso. <strong>Viver com</strong> o outro, <strong>conviver</strong> na multiplicidade de quem somos e escolhemos ser em nossos encontros no mundo.</p>
<div style="text-align: right;"><a rel="cc:attributionURL" href="http://www.flickr.com/photos/lusobelga/">Imagem: &#8220;Our family II&#8221; por lusobelga</a> no Flickr <a rel="license" href="http://creativecommons.org/licenses/by-nc/2.0/">CC BY-NC 2.0</a></div>
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		<title>Universalidade e Diversidade Sexual &#8220;entre&#8221; Militância, Ciência e Vida</title>
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		<pubDate>Thu, 14 Jan 2010 12:06:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Fernando Calaça</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p><strong> </strong></p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-563" title="GLBT" src="http://nucleounisex.org/wp-content/uploads/2010/01/glbt.png" alt="" width="583" height="270" /></p>
<p>Às vezes fico pensando sobre o meu lugar enquanto pessoa e profissional, no que diz respeito a minhas reflexões relativas às questões relacionadas à homossexualidade e à comunidade GLBT como um todo. Tendo a manter uma perspectiva que, para quem lê os artigos, está entre a vivência pessoal e o olhar do profissional, tentando me manter no campo da observação da vida cotidiana, vivida e relatada pelas pessoas com quem convivo nos meus diversos contextos. Ao adotar essa perspectiva, me coloco um pouco a margem do que se dá no campo da militância política e das discussões &#8211; e polêmicas – da comunidade GLBT, entretanto estou atento, recebendo e-mails de grupos de militância da Bahia, que discutem as questões que se dão no âmbito político na esfera nacional.</p>
<p>Considero importante refletir sobre a multiplicidade do fenômeno das “homossexualidades” em suas múltiplas dimensões: sociais, políticas, econômicas, ideológicas, culturais. Acho também de fundamental importância, considerar outros tantos fatores e contextos: as relações estabelecidas no âmbito da família, da escola, da comunidade, dos ambientes religiosos, dos espaços públicos. Acho importante considerarmos que as questões GLBT dizem respeito à vida cotidiana em suas mais diversas formas de manifestação e atualização. Em termos científicos, tentar abordar qualquer fenômeno seria praticamente uma tarefa impossível, mas se não for assim, estaremos sempre caindo em reducionismos arbitrários. Qualquer abordagem sobre a questão da(s) homossexualidade(s) deve levar em consideração a multiplicidade e diversidade do fenômeno, considerando-o múltiplo e multifacetado, dinâmico e, principalmente, existencial.</p>
<p>Os espaços da militância e da ciência talvez sejam os principais espaços de articulação de um discurso político e cultural que, esperamos, tenha repercussões sobre as práticas cotidianas, sobre a vida. O campo da vida, no entanto, é mais múltiplo e dinâmico que qualquer discurso, é a realidade se dando a cada momento, se ajustando, se fazendo, transgredindo e construindo formas de ser e existir. A militância e a ciência andam um passo atrás, são sempre menores que a vida, fazem parte dela, como uma das suas formas de acontecer. Às vezes os discursos que são construídos não condizem com nossa real forma de ser no mundo, são idéias e abstrações, que muitas vezes estão longe da nossa experiência. Porém a NOSSA experiência é a minha e a dos muitos outros. E esses outros caminham juntos a vida, cada um de sua forma, cada um experienciando de forma distinta a sua própria sexualidade, sofrendo e gozando dores e prazeres diversos.</p>
<p>Na vida, os homossexuais são mulheres, homens, transgêneros, ativos, passivos, ecléticos, travestis, brancos, índios, negros, asiáticos, estrangeiros, urbanos, interioramos, pobres, ricos, classe média, católicos, evangélicos, praticantes do candomblé, ubanda, espíritas, mulçumanos, ateus, operários, comerciantes, estudantes, cientistas, roqueiros, eruditos, pagodeiros, ecléticos, bichas, gays, lésbicas, bissexuais, HsH, queers, sapatões, sapatilhas, ursos, barbies, atléticos, sarados, magros, altos, baixos, bonitos, feios, “normais”, mães, pais, filhos, primos, tios, jovens, adultos, idosos, loiros, morenos, ruivos, asiáticos, etc&#8230; etc&#8230; Tamanha diversidade fala da diversidade do humano, e não diz respeito apenas à homossexualidade. A combinação desses múltiplos fatores compõe um campo de identidades múltiplas, um campo de experiências possíveis que se dão nas vivências do individuo comum.</p>
<p>Ao olhar para esse indivíduo comum, precisamos estar atentos à sua multiplicidade e sua totalidade, à sua universalidade e à sua localidade no espaço, num tempo, numa cultura e nas aberturas possíveis de troca e intercâmbio, de trânsitos que sempre se coagulam no singular universal.  Pensar assim é talvez estar dentro-fora dos espaços da política e da ciência. Ambos, a meu ver, são espaços que visam respostas pragmáticas – embora nem sempre sejam úteis e efetivas – constroem ideais e saberes que visam a transformação de um mundo que está, já, sempre, em transformação constante. Lutar por leis, direitos, por novos significados e ressignificados da vida e da realidade, se dá um passo atrás da vida e da realidade. Vida e realidade se processam no agora de cada instante.</p>
<p>Certamente que dizer isso é procurar briga com cientistas e militantes, que reivindicarão seus devidos lugares e valores, como agentes de mudança e transformação dessa realidade e vida no aqui e agora. Eu mesmo, em parte, sou cientista e militante, e escrever esse texto é um exercício de reflexão política e científica, ao mesmo tempo que é uma ação. Pensar e refletir são ações sobre o mundo, ações na vida presente construindo realidade e atualidade. Assim retomo o começo deste texto, em que questiono meu lugar como pessoa e profissional. Esse é meu lugar, dentre tantos outros. Apenas mais um. Refletir sobre nosso lugar no mundo e na vida é o que nos cabe para vivermos e criarmos vida e lutar.</p>
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		<title>O que eu procuro em você?</title>
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		<pubDate>Sun, 04 Oct 2009 15:36:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Fernando Calaça</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O igual e o diferente e a alteridade na relação a dois. Qual é o mais óbvio segredo dos relacionamentos? Sempre buscamos algo no outro. Buscamos no outro algo que idealizamos: carinho, amor, companheirismo, atenção, fidelidade, etc etc. Esperamos que o outro nos supra nossas necessidades de afeto, nossas carências e faltas. Esperamos que o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-560" title="Relação" src="http://nucleounisex.org/wp-content/uploads/2009/10/relacao.jpg" alt="" width="583" height="510" /></p>
<h3>O igual e o diferente e a alteridade na relação a dois.</h3>
<p>Qual é o mais óbvio segredo dos relacionamentos? Sempre buscamos algo no outro. Buscamos no outro algo que idealizamos: carinho, amor, companheirismo, atenção, fidelidade, etc etc. Esperamos que o outro nos supra nossas necessidades de afeto, nossas carências e faltas. Esperamos que o outro seja o príncipe ou a princesa encantados, que não tem defeitos, que está sempre disponível e que nos aceita incondicionalmente.</p>
<p>Se buscamos isso nas pessoas, jamais encontraremos alguém verdadeiramente humana, de carne e osso, e defeitos. Se idealizamos a perfeição, precisamos olhar com lucidez para nós mesmos e nos darmos conta de que somos sim imperfeitos, e ser imperfeito é o melhor que podemos ser, pois é o que somos.</p>
<p>Relacionamentos começam na grande empolgação do apaixonamento, em que mentes e corpos estão conectados quase que numa mesma sintonia. Esperamos do outro o complemento absoluto. Mesmos gostos, mesmos hábitos, mesmos valores, mesmo tudo. O outro não é nosso igual. Ele não é nosso espelho narcísico. E, se acontece de encontrarmos nossa alma gêmea, logo logo nos daremos conta de que o igual limita e nunca é absoluto.</p>
<p>Quando estamos num relacionamento homossexual já temos uma semelhança dada a priori – o mesmo sexo, o mesmo corpo e desejos que acreditamos ser os mesmos. Entretanto, o outro é sempre outro. Não podemos transpor para ele nossos próprios desejos e nossas formas de obter prazer. O outro não pensa igual a mim, não tem as mesmas expectativas de relacionamento, e se comporta diferente de mim.</p>
<p>Um relacionamento sem desestendimentos já traz um sinal de descompasso. Alguém está se anulando, fazendo mais concessões que o outro, para não ferir a imagem idealizada de relacionamento perfeito. Relacionamentos perfeitos não existem! E o pior de tudo é quando não nos damos conta disso. Quando culpamos o outro ou nos culpamos por as coisas não terem saído da forma como queríamos. Nos frustramos por criarmos expectativas impossíveis de serem satisfeitas.</p>
<p>Nem todo gay é liberal. Nem todo gay é promíscuo. Nem todo gay é independente. Nem toda lésbica é apaixonada. Nem toda lésbica é atenciosa. Nem toda lésbica é ciumenta. Nem todo todo é sempre o mesmo. E o mesmo sempre é diferente.</p>
<p>Precisamos aprender a perceber e valorizar a diferença, considerando-a não como um obstáculo para a relação, mas como uma oportunidade para o crescimento. Quem se apega sempre ao mesmo, vive num mundo restrito, cristalizado em torno de uma idéia, uma idealização, uma abstração criada que não necessariamente tem sustentação no real.</p>
<p>É importante também ter consciência de nossa imperfeição, não para nos subestimarmos, nem para justificar nossos erros, mas para termos a medida sobre o que podemos ou não oferecer ao outro, para que não esperemos do outro aquilo que não podemos retribuir. As relações não necessariamente precisam ser de trocas quase comerciais, num toma-lá-dá-cá em que sempre visamos um lucro, mas sim numa relação de interdependência, uma relação intersubjetiva, uma relação sempre ENTRE duas pessoas. Nesse entre as trocas favorecem o crescimento. E só há troca onde há o diferente – necessidades, recursos, sentimentos, desejos diferentes.</p>
<p>A perfeição é o impossível. Aprender a confiar e valorizar o possível talvez nos ajude a con-viver bem com o outro, VIVER COM. Essa é a essência de todo relacionamento, o viver com&#8230; E só podemos viver com aquele que nos é real, em seu possível, naquilo que ele realmente tem e pode nos dar de si. Senão, estaremos sempre nos relacionando com um ideal inexistente, com um fantasma que acreditamos ser o outro, com nossas expectativas e projeções. E, nesse estar sempre guiado pela ideal, buscamos também, nós mesmos, sermos perfeitos e ideais.</p>
<p style="text-align: right;"><a rel="nofollow" href="http://www.freedigitalphotos.net/images/view_photog.php?photogid=982">Imagem: djcodrin / FreeDigitalPhotos.net</a></p>
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		<title>Grupos de Encontro de Auto-conhecimento e Sexualidade</title>
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		<pubDate>Sun, 06 Sep 2009 19:48:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Núcleo UNISex</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Em 15 e 23 de Setembro iniciam os grupos de Encontro de Auto-conhecimento e Sexualidade em Salvador, organizados pelo psicólogo Luiz Fernando Calaça. Os grupos, formados por até 6 pessoas, irão trabalhar questões da sexualidade, como identidade e relacionamentos, etc. Luiz Fernando é gestalt terapeuta e os grupos serão encontros vivenciais, com experimentos terapeuticos e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Em 15 e 23 de Setembro iniciam os grupos de Encontro de Auto-conhecimento e Sexualidade em Salvador, organizados pelo psicólogo <a href="http://lfcalaca.com">Luiz Fernando Calaça</a>. Os grupos, formados por até 6 pessoas, irão trabalhar questões da sexualidade, como identidade e relacionamentos, etc.</p>
<p>Luiz Fernando é gestalt terapeuta e os grupos serão encontros vivenciais, com experimentos terapeuticos e de reflexão. Clique no cartaz para ver mais detalhes.<br />
<a href="http://nucleounisex.org/wp-content/uploads/2009/09/IRIS1.JPG"><img class="size-large wp-image-509" title="IRIS" src="http://nucleounisex.org/wp-content/uploads/2009/09/IRIS1-500x710.jpg" alt="IRIS" width="500" height="710" /></a></p>
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		<title>Homossexualidade e cura</title>
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		<pubDate>Fri, 07 Aug 2009 00:03:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Fernando Calaça</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Recentemente tem havido um movimento no meio GLBT pela punição da psicóloga Rozângela Alves Justino, que afirmava ter realizado curas de homossexuais, associando a homossexualidade a doença, posição que vai de encontro ao código de ética do Psicólogo e a Resolução do Conselho Federal de Psicologia, de 1999. Esse acontecimento me faz pensar sobre alguns [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-566" title="Notícias" src="http://nucleounisex.org/wp-content/uploads/2009/08/noticias.png" alt="Notícias" width="583" height="270" /><br />
Recentemente  tem havido um movimento no meio GLBT pela punição da psicóloga  Rozângela Alves Justino, que afirmava ter realizado curas de  homossexuais, associando a homossexualidade a doença, posição que vai de  encontro ao código de ética do Psicólogo e a Resolução do Conselho  Federal de Psicologia, de 1999. Esse acontecimento me faz pensar sobre  alguns aspectos que me parecem relevantes para discussão:</p>
<p>1) A vinculação da homossexualidade ainda  como doença;</p>
<p>2) A definição de cura;</p>
<p>3) A crença na onipotência do psicólogo.</p>
<p>Sobre o  primeiro ponto, considero que já é mais do que sabida a posição da  Psicologia atual sobre o fenômeno. Numa perspectiva  fenomenológico-existencial, a homossexualidade não se configura nem como  “doença”, nem de “escolha” ou “opção”, mas como condição existencial. A  pessoal não é nem homossexual nem heterossexual, pois ser algo  implicaria em conceber que isso faz parte da essência da pessoa, e por  isso, inato e imutável.</p>
<p>Particularmente  não acredito em nada que seja tão sólido e cristalizado que não possa  ser flexibilizado ou transformado. A homossexualidade é um estado de  existência, uma das muitas formas de ser no mundo, uma dimensão do todo  da existência de uma pessoa. Não é doença pois não pode ser contraída,  não é uma anomalia genética, nem social, nem cultural. É algo que  existe, está aí, sempre existiu e sempre existirá, pois é do humano, faz  parte de sua condição existência.</p>
<p>Homossexual  pode ser um comportamento, uma atitude, uma manifestação de expressão  de afeto. Pode ser um ato de amor e uma forma de se satisfazer afetiva e  sexualmente. A homossexualidade pode ser um meio pelo qual realizamos  um fim, o meio que encontramos para sermos felizes, vivenciarmos nossa  sexualidade, construir uma parceria, estabelecer laços de afeto. A  homossexualidade não é uma essência, mas uma manifestação da existência.  Não podemos precisar quando ou como se manifesta pela primeira vez, não  tem causa, nem é conseqüência. Se desenvolve ao longo da vida, pode se  configurar de diversas formas – ações, pensamentos, fantasias, emoções,  sentimentos – e pode ser vivida em diferentes graus de consciência e  aceitação.</p>
<p>Quando  trago esses dois últimos termos – consciência e aceitação – penso no ser  humano como um todo. Consciência de si e aceitação de si. Consciência  de si com o outro e aceitação do outro como outro. O adoecimento talvez  venha justamente da não consciência e da não aceitação – de si e/ou do  outro. Diante da não consciência e não aceitação, surge o sofrimento,  pela tentativa de ser diferente do que se é, ou pela tentativa de  transformar o outro em outra coisa, ou ainda, de tentar fazer o outro  aceitar aquilo que você acredita ser.</p>
<p>Havendo  sofrimento, abre-se espaço para a atuação da psicologia como “promessa  de cura”. Digo promessa por acreditar que a cura de um sofrimento emerge  do próprio sujeito, do seu processo de consciência e aceitação de si  mesmo. A psicologia, tendo a psicoterapia como recurso técnico, é apenas  um meio pelo qual se pode tentar alcançar um fim. O fim, geralmente é  aceitar quem se é, ou tomar consciência de formas de ser que, por muito  tempo deixaram de ser funcionais e passaram a causar sofrimento –  individual, social, corporal, existencial, espiritual&#8230; Nesse processo,  o terapeuta é apenas companheiro de viagem, é um Sancho Pança que  acompanha o Dom Quixote em sua jornada.</p>
<p>Nessa  jornada, pode-se fazer descobertas sobre si que muitas vezes são  dolorosas, prazerosas, pode-se rever crenças e expectativas introjetadas  a partir dos outros ou criadas por si mesmo, crendo que se trata de  algo que foi dito por outra pessoa “poderosa e opressora”. Muitas vezes  nos deparamos com nossos fantasmas e com monstros imaginários que nós  mesmos criamos. No caso da homossexualidade, essas “pessoas poderosas”,  esses “monstros” e “fantasmas” são pessoas de carne e osso – nossos pais  e amigos, nossos colegas de trabalho, dos quais tememos sofrer  preconceito e violência. E às vezes realmente sofremos, mas nem sempre.</p>
<p>Às vezes,  no entanto, esses monstros são nós mesmos, nosso medo de sermos nós  mesmos, de nos aceitarmos, por não conseguirmos dar conta das sensações e  sentimentos que emergem em nosso corpo, em nosso pensamento e que  chamamos desejo. Às vezes somos nossos próprios algozes, nos  martirizamos tentando dominar nossos “instintos”, nos punindo e  suplicando de Deus a absolvição de nossos pecados. Sofremos como nosso  próprio preconceito, com nossos julgamentos – projeções que antes  dirigidas ao outro se voltam sobre nós mesmos &#8211; , com nossa homofobia  internalizada.</p>
<p>Diante de  tamanho sofrimento buscamos a cura, criamos a ilusão de que poderemos  ser salvos por médicos, padres, pastores, e, por fim, por psicólogos.  Muitas vezes vamos ao consultório de um psicólogo desejando ser curados  de algo que nos atormenta – nós mesmos. A cura entendida como o  silenciar do corpo, do desejo, o controlar os instintos, o submeter-se à  privação, o deixar de ser o que se é. Empoderamos o psicólogo – assim  como a todos os outros “curadores” – de um falso poder que não existe  realmente e, mais cedo ou mais tarde, nos daremos conta de que realmente  não existe e que, o máximo que se pode fazer é aceitar quem se é, ou  melhor, <em>quem se está sendo.</em></p>
<p>Um homem  (ou mulher) “heterossexual” casado, com filhos, com desejos  homoeróticos, pode se tornar “homossexual”, separar-se da esposa, e  iniciar relacionamento com um outro homem. Um jovem, que teve namoradas e  até foi noivo, também pode. Uma mulher, lésbica, pode ter filhos, pelas  vias naturais ou por inseminação artificial. Um homem gay também pode  ser pai e engravidar uma mulher – é biologicamente saudável e nada,  fisiologicamente, o impede. Um homem gay, assumido, pode, um dia,  aparecer para a família e mostrar uma noiva, mulher com quem quer, a  partir de agora, compartilhar sua vida.</p>
<p>Em nenhum  desses casos houve doença ou cura. Qualquer um desses casos pode ter  envolvido algum nível de sofrimento individual ou social. Não  necessariamente o movimento heterossexual à  homossexual é, em si, saudável ou patológico, se pensarmos não em termos  de essências, mas em formas de ser no mundo.</p>
<p>Desejar uma  pessoa do mesmo sexo, vivendo socialmente – e afetivamente &#8211; uma  posição ou papel heterossexual, pode ser extremamente ansiogênico e  causar sofrimento, se não puder aceitar seu desejo e vivenciá-lo. Se a  pessoa “escolher” transitar nesses dois lugares – por exemplo, exercendo  a bissexualidade -, tendo relacionamentos tanto homossexuais como  heterossexuais, pode encontrar uma posição de saúde por conseguir  satisfazer suas necessidades sexuais e afetivas. Em algum momento, no  entanto, talvez precise se “definir” socialmente. Essa definição, por  pressão social ou pessoal, para atender a expectativas “externas” ou  “internas”, pode, então, gerar um novo impasse, retomando o sofrimento.  Ele pode se definir por uma coisa ou outra – ser heterossexual ou  homossexual – mas, qualquer definição que der, é sempre provisória.  Mesmo após um longo processo de consciência e aceitação de si mesmo,  nunca poderemos ter certeza de que somos algo e não outra coisa. A outra  coisa é sempre uma possibilidade que deixamos de escolher experienciar.</p>
<p>Socialmente  buscamos nos orientar de acordo com expectativas e papéis definidos a  priori – homem-mulher, heterossexual-homossexual, ativo-passivo,  dominador-dominado, vítima-algoz, etc. No momento atual de evolução ou  transformação histórica e cultural de nossa sociedade, estamos cada vez  mais vivendo processos de questionamento, relativização e flexibilização  desses pares dicotômicos. Hoje podemos ser homem e mulher,  heterossexual e homossexual, ativo e passivo, dominador e dominado,  vítima e algoz, e muito mais!</p>
<p>Um homem,  dito “homossexual”, pode ir a um consultório psicológico e, ao longo do  processo, “descobrir” que quer ser pai e ter uma esposa, que quer fazer  sexo com mulheres e/ou com homens, ter um relacionamento aberto,  experimentar outras formas de amar num lugar de fronteira – nem lá, nem  cá. Um lugar que é um AQUI, num momento AGORA, que pode se estender por  um DEPOIS.</p>
<p>Um dia, um  homem “heterossexual” pode ir a um consultório psicológico e, ao longo  do processo, “descobrir” que sente desejo por homens, que não suporta  mais viver uma “farsa”, sustentar uma “ficção”, e passar a se dizer  “homossexual convicto”.  Se ele renegar completamente sua  vivência anterior, opor-se à heterossexualidade que existia nele, adotar  uma postura reativa contra os heterossexuais, pode ainda estar em  sofrimento, não estar “curado”, viver em desequilíbrio com sigo e com o  mundo, por não ter consciência e não aceitar a si mesmo, o que foi, e o  que escolheu ser antes de ser e <em>estar sendo</em> algo diferente.</p>
<p>O  psicólogo, no final das contas, é uma testemunha desse processo de  tomada de consciência e de aceitação, do que foi, do que é, e do que  pode vir-a-ser. As “identidades” são rótulos e expectativas sociais e  pessoais sob os quais nos agarramos para ter uma sensação mínima de  segurança. São também uma ficção, uma farsa, uma verdade provisória. Há  pessoas que experimentam as várias dimensões do existir, da sexualidade,  sem se apegar a nada em definitivo, sem que isso, necessariamente  significa saúde ou doença, sofrimento ou cura. Há pessoas que vivem  muito bem suas identidades, não manifestam desejo nem necessidade de  experimentar estar sendo algo diferente. No final do caminho não há uma  forma única, nem melhor, nem mais bem adaptada, nem mais saudável.  Existe sim, a forma melhor, mais adaptada e saudável para cada pessoa,  em cada ponto – momento &#8211; da linha de sua vida.  A estrada  da vida, e da sexualidade, nem sempre é em via de mão única.</p>
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		<title>Você não está sozinho</title>
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		<pubDate>Fri, 13 Feb 2009 00:58:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Fernando Calaça</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O filme filme dinamarquês &#8220;Você não está sozinho&#8221; (Du Er Ikke Alene), de 1978, se passa numa escola dinamarquesa, onde funciona um internato de meninos. Ambientada na década de 70, o filme traz as primeiras descobertas da adolescência de um grupo de meninos, que começam a ter contato com bebidas, drogas, com o corpo e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5191&amp;tipo=25&amp;nitem=7027318"><img class="alignleft size-full wp-image-493" title="du-er-ikke-alene" src="http://nucleounisex.org/wp-content/uploads/2009/02/du-er-ikke-alene.jpg" alt="du-er-ikke-alene" width="240" height="338" /></a></p>
<p>O filme filme dinamarquês <a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=5191&amp;tipo=25&amp;nitem=7027318">&#8220;Você não está sozinho&#8221; (Du Er Ikke Alene)</a>, de 1978, se passa numa escola dinamarquesa, onde funciona um internato de meninos. Ambientada na década de 70, o filme traz as primeiras descobertas da adolescência de um grupo de meninos, que começam a ter contato com bebidas, drogas, com o corpo e a sexualidade.</p>
<p>Na escola os meninos têm aulas sobre política, sobre os efeitos de drogas e &#8220;vivências&#8221; que exploram o contato com o corpo e os impactos psicológicos das relações grupais de aceitação ou rejeição. Os professores adotam duas posturas: uma mais liberal, que favorece a reflexão e incentivam as descobertas da adolescência e uma mais conservadora, que prima pelo respeito aos professora e pela moral, submetendo os alunos a regras rígidas e primando pela &#8220;coerência na educação&#8221;. Apesar do formato laico – gerido por civis – a escola tinha aulas de religião, denotando um modelo tradicional de educação.</p>
<p>Numa das aulas, sobre política, em que se discute sobre regimes democráticos, um dos alunos questiona a participação dos jovens e idosos no regime democrático – considerados marginais nos processos decisórios. O professor, como justificativa, fala da &#8220;imaturidade política dos jovens&#8221;, legitimando a representação social de jovem como um &#8220;não lugar&#8221;, um &#8220;não-ainda&#8221;, um &#8220;por vir&#8221;.</p>
<p>Nas cenas envolvendo os garotos, evidenciam-se vários fenômenos &#8220;típicos&#8221; da adolescência e suas descobertas: o uso de drogas (desodorante), as práticas de masturbação, a leitura de revistas e livros eróticos, brincadeiras sexuais e brigas entre os meninos. As primeiras experiências sexuais se dão entre os próprios meninos ou com meninas da turma – ou mais velhas, que cuidam do refeitório &#8211; de forma delicada, num progressivo desvelar-se que transita entre a excitação da curiosidade o medo e de serem descobertos. Apesar dos controles exercidos pelos professores – em especial pela figura do diretor – os meninos encontram formas alternativas de &#8220;burlar&#8221; as regras e experimentarem clandestinamente, as primeiras experiências da adolescência.</p>
<p>Em destaque, tem-se a história amorosa de dois garotos – Kim e Bo – que vivenciam essas experiências entre si. Bo vem das férias na praia, em que teve um contato amoroso com um amigo e trás as dúvidas e curiosidades sobre a sexualidade. Kim, filho do diretor da escola, mais novo que Bo e da maioria dos meninos, que tem contato com eles e, progressivamente vai entrando em contato com a sexualidade e com o amor. Aos poucos vai se delineando um jogo de sedução entre Bo e Kim, em que ambos experimentam o contato e a intimidade, de forma lúdica , por meio de brincadeiras.</p>
<p>Algumas cenas traz bem nítida essa ludicidade que demarca a fase de transição da infância para a adolescência, como a brincadeira de índio, e o banho dos dois, em que o Kim brinca com a espuma do xampu. A descoberta da sexualidade, entre eles, se contrapõe com a &#8220;invasão de pornografia&#8221; que se dá na escola, pelos meninos mais velhos, mostrando uma via que mantém uma aura de &#8220;inocência&#8221; da infância – considerada característica &#8220;típica&#8221; da infância.</p>
<p>Em paralelo à relação entre Kim e Bo – protótipo desse amor inocente – tem-se as formas dos outros jovens de vivenciar de forma mais explícita as descobertas da sexualidade, por meio de piadas, brincadeiras eróticas e da externalização espontânea dessa sexualidade. Colocada em evidência, nas ações e na linguagem dos jovens, essa sexualidade é reprimida pelo diretor, quando tenta punir um dos alunos, responsáveis por prender fotos revistas pornográficas no banheiro dos dormitórios.</p>
<p>Diante da postura autoritária do diretor da escola e do corpo docente, alguns alunos se unem num movimento de &#8220;greve&#8221;, se recusando a freqüentar as aulas e organizando um movimento de protesto com faixas e com um documentário – com um apoio de uma professora (a que fala sobre drogas) que adota uma visão mais liberal. Nesse movimento, evidencia-se o ideal de coesão grupal e do movimento jovem, vivido de forma marcante nos fins da década de 60 e meados de 70 (Revolta de Maio de 1968 e o movimento de contracultura nos EUA e Europa com os hippies, beats, etc).</p>
<p>Uma referência ao movimento hippie também é feita, quando um grupo de alunos vai para o picnic no bosque. Lá eles experimentam um contato direto com a natureza, com a sensação de liberdade dionisíaca e de reconexão com o universo. Kim e Bo trocam carícias e experimentam a sensação de embriaguez– real e simbólica – do amor e do vinho.</p>
<p>A coesão grupal se faz presente também no movimento de defesa de Bo, quando ele é perseguido e humilhado por uma gangue de &#8220;meninos mais velhos&#8221;. Nesse conflito, o grupo vai a seu socorro. De forma subliminar, o sexo aparece reverenciado como uma forma de poder, quando, para pagar pelo crime de ter agredido Bo, um dos meninos da gangue é obrigado a beijar as nádegas de um dos meninos da escola, como forma de humilhação.</p>
<p>Ao fim do filme, o movimento de greve dos estudantes garante a permanência do colega que seria expulso. Há uma encenação de uma guerra, em que um dos meninos morre baleado. Monta-se o filme, em que o encontro entre Kim e Bo ilustra o mandamento cristão da &#8220;Amai ao próximo como a si mesmo&#8221;.</p>
<p>Nesse filme, poderíamos ensaiar alguns possíveis pontos de análise:</p>
<ol>
<li>A adolescência como fase de descobertas e experimentação;</li>
<li>Os conflitos de gerações e as diferentes formas de lidar com a passagens adolescência (liberal x conservadora);</li>
<li>A questão da coesão grupal e a importância da pertença x a solidão na adolescência;</li>
<li>O que se define, nas escolas, com educação sexual;</li>
<li>As primeiras experiências sexuais como experimentação e exploração da sexualidade ou como definidora de uma orientação sexual e futura identidade sexual (homossexual ou heterossexual);</li>
<li>A questão das drogas e uma possível função preventiva da educação;</li>
<li>Alienação x implicação dos pais na criação dos filhos – a questão do modelo de internato;</li>
<li>O contexto sócio-histórico da década de 70 (Contracultura, movimento hippie, movimento de liberação sexual – feminista e gay)</li>
</ol>
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		<title>Lançamento de livro: A Hierarquia da Invisibilidade</title>
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		<pubDate>Sat, 26 Apr 2008 12:49:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Núcleo UNISex</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A Cortez Editora lançou mais um volume da sua Coleção Preconceitos. O livro “Preconceito contra homossexualidades – A hierarquia da invisibilidade” (valor médio R$ 17,90), de Marco Aurélio Máximo Prado e Frederico Viana Machado. Marco Aurélio é doutor em Psicologia Social pela Pontifica Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e Frederico é um estudioso com [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="size-full wp-image-32 alignleft" style="float: left;" title="Serie Preconceitos" src="http://nucleounisex.org/wp-content/uploads/2008/04/capa_preconceitos.jpg" alt="" width="135" height="200" />A Cortez Editora lançou mais um volume da sua Coleção Preconceitos. O livro “Preconceito contra homossexualidades – A hierarquia da invisibilidade” (valor médio R$ 17,90), de Marco Aurélio Máximo Prado e Frederico Viana Machado. Marco Aurélio é doutor em Psicologia Social pela Pontifica Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e Frederico é um estudioso com experiência em Psicologia Social e Política, com ênfase em identidade coletiva, movimentos sociais e gênero. O livro possui 144 páginas onde é analisado o preconceito contra gays sob os pontos de vista histórico, político e social para demonstrar que a homossexualidade foi criada para ser mais um dos mecanismos de manutenção das classes dominantes.</p>
<p>A Coleção Preconceitos oferece em linguagem clara e acessível, novas abordagens que tratam, com rigor e objetividade, de questões que estão na raiz de várias injustiças sociais. Os preconceitos tentam naturalizar desigualdades sociais, multiplicando estereótipos que menosprezam a diversidade cultural, a diversidade de escolha, as marcas do corpo e a construção social das identidades culturais. Os autores traçam um panorama do desenvolvimento das opiniões públicas sobre elas através dos discursos históricos sobre a diversidade sexual com base em estudos de autores como o revolucionário Alfred Kinsey.</p>
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		<title>Roberto Piva: Literatura e (homo) sexualidade como transgressão, mística e resistência</title>
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		<pubDate>Sun, 13 Apr 2008 15:58:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Fernando Calaça</dc:creator>
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		<category><![CDATA[arte]]></category>
		<category><![CDATA[homossexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>
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			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://nucleounisex.org/wp-content/uploads/2010/01/glbt.png" alt="Colunas e Artigos" title="Colunas e Artigos" width="583" height="270" class="alignnone size-full wp-image-563" /></p>
<p>Numa madrugada de 2004, zapeando os canais de televisão, vi o anúncio de um documentário sobre o poeta paulista Roberto Piva, que seria exibido logo depois na TV Cultura. Desde os 11 anos eu passei a me interessar por literatura, comecei a escrever poemas em 2001 e sempre que possível eu assistia programas na TV sobre a vida de escritores ou sobre arte. Fiquei esperando e assisti ao documentário <em>Assombrações Urbanas com Roberto Piva</em>.</p>
<p>Tratava-se de um documentário feito sobre a visão da cidade de São Paulo a luz da poesia deste poeta. Nunca antes eu havia ouvido falar dele. Ao assisti, me apaixonei, tornando-me leitor e admirador de sua poesia, chegando a &#8220;catar&#8221; edições esgotadas de sua obra em sebos e dando pulos de alegria quando vi ser lançada os três volumes de sua Obra Reunida, pela Editora Globo: <strong><em>O Estrangeira na Legião</em></strong> (2006), <strong><em>Malas na mão &amp; asas pretas</em></strong> (2007) e o livro recém saído do prelo, <strong><em>Estranhos sinais de saturno</em></strong> (2008).</p>
<p>O que havia em sua escrita que me causou tanto interesse?</p>
<p>Primeiro: sua escrita, de explícita influência surrealista, tem forte cunho autobiográfico. Escrita delirante, em fluxo de consciência, pulsante e alucinada, de forma semelhante à que eu tateava em meus momentos de criação poética adolescente.</p>
<p>Segundo: Sua temática homoerótica, sexual e transgressiva, sem falsos moralismos e contestatária, anárquica e <strong>jovem</strong>.</p>
<p>Terceiro: Seu sincretismo religioso e estético e erudição. Sua escrita que ressignifica, através de uma apropriação pessoal, referências mil da literatura clássica e marginal, da filosofia existencialista, do cinema de vanguarda, das artes.</p>
<p>No documentário Assombrações Urbanas há vários depoimentos de intelectuais que viveram o contesto de produção da obra de Piva e reconhecem sua importância enquanto representante e ícone na literatura brasileira da temática e da expressão da sexualidade e do homoerotismo como forma de transgressão – ou transvaloração &#8211; de valores burgueses e da livre expressão da homossexualidade enquanto vivência e construção identitária.</p>
<p>Sua escrita, no entanto, não é militante, mas crítica. Segundo o próprio poeta, essa idéia de &#8220;se assumir&#8221; gay, lésbica é uma reprodução de um modelo bancário de sociedade, que tenta dividir as coisas, rotular para controlar. Dizer como cada um deve ser e se comportar. Sua afirmação da homossexualidade se dá pela primazia do sexo como manifestação e afirmação da potência de vida, exercício da liberdade sobre formas repressoras de controle social.</p>
<p>Em seu livro <strong><em>Coxas</em></strong> (1979) fica explícita essa apologia à vivencia plena da sexualidade como forma de desconstrução e afirmação de valores de liberdade, vitalidade e expressão plena da condição humana. O sexo, na maioria das vezes realizado entre jovens garotos, se dá de forma coletiva, em orgias, que na realidade traz consigo valores de &#8220;comunidade&#8221;. Jovens pederastas que vivenciam o sexo, os delírios e alucinações em grupo, em comunhão quase religiosa.</p>
<p>Ao longo de sua obra, Piva aborda a sexualidade de forma tal que se aproxima da experiência mística e religiosa. A religião, nesse sentido, remete a um sentido radical, de retorno às raízes ancestrais indígenas, aos rituais xamânicos e de conversão espiritual, possessão das formas da natureza, animalista. Assim, os jovens incorporam nomes de animais selvagens e seu sexo é expressão das forças e instintos da natureza. Tanto na obra Coxas (1979) quando em <strong><em>Ciclones </em></strong>(1997), quando seus poemas ganham formas mais solenes de reverência ao místico e as experiências xamânicas.</p>
<p>Essa relação com o mundo místico e religioso, agora, me faz lembrar da compreensão trazida por Peter Fry, em seu livro <em>O que é homossexualidade</em>, quando se refere à figura do – &#8220;homem-mulher&#8221; ou &#8220;mulher-homem&#8221; que ocupa um lugar de transgressão, por se situar no &#8220;não lugar&#8221; entre os papéis sociais e sexuais do masculino e feminino, geralmente associado a figuras de poder social ligado ao sagrado, como líderes espirituais, tanto no candomblé, como em outras práticas religiosas. Esse lugar, de certa forma é muitas vezes associado ao homossexual, quando se reproduz a crença e o esteriótipo de que são geralmente pessoas mais cultas, com sensibilidade artística e representantes da intelectualidade acadêmica ou religiosos – o que não deixa, em parte, de ter um quê de verdade.</p>
<p>Piva, não só em sua poesia, como em sua vida, incorpora esse lugar, tanto por ser um intelectual e erudito, conhecedor de arte, literatura e filosofia, quando por ser xamã, praticando rituais de cura. Mas, principalmente sua notoriedade enquanto representante dessa voz transgressiva e crítica é que se faz marcante, tanto em sua poesia, ao longo de 40 anos de produção marginal, quando na vivência e afirmação da homossexualidade, como forma de resistência e oposição ao moralismo hipócrito e opressão e repressão à livre vivência da sexualidade e dos direitos humanos.</p>
<p>Creio que hoje, mais de 40 anos depois da início de sua produção literária, Piva continua atual, num contexto social e político que ainda está muito aquém dos ideais de direito a igualdade e liberdade social do exercício da sexualidade, quando ainda se luta pelo direito à legalização da união civil entre gays e lésbicas, adoção e da presença da homofobia em nosso cotidiano. Como diria o <strong>João Silvério Trevisan</strong>, o Roberto Piva já era referência da livre vivencia da homossexualidade, num tempo em que ainda não se tinha nada em que o jovem pudesse se espelhar para construir sua identidade.</p>
<p>Abaixo, segue alguns poemas do poeta Roberto Piva:</p>
<p><strong>LIBELO</strong></p>
<p>Não mais trarei justificações<br />
Aos olhos do mundo.<br />
Serei incluído<br />
&#8221; Pormenor Esboçado &#8221;<br />
Na grande bruma.<br />
Não serei batizado,<br />
Não serei crismado,<br />
Não estarei doutorado,<br />
Não serei domesticado<br />
Pelos rebanhos<br />
Da terra.<br />
Morrerei inocente<br />
Sem nunca ter<br />
Descoberto<br />
O que há de bem e mal<br />
De falso ou certo<br />
No que vi.</p>
<p>(in: <em>Antologia dos Novíssimos</em>, 1961)</p>
<p>Eu vi os anjos de Sodoma escalando<br />
um monte até o céu<br />
E suas asas destruídas pelo fogo<br />
abanavam o ar da tarde<br />
Eu vi os anjos de Sodoma semeando<br />
prodígios para a criação não<br />
perder o ritmo de harpas<br />
Eu vi os anjos de Sodoma lambendo<br />
as feridas dos que morreram sem<br />
alarde, dos suplicantes, dos suicidas<br />
e dos jovens mortos<br />
Eu vi os anjos de Sodoma crescendo<br />
com o fogo e de suas bocas saltavam<br />
medusas cegas<br />
Eu vi os anjos de Sodoma desgrenhados e<br />
violentos aniquilando os mercadores,<br />
roubando o sono das virgens,<br />
criando palavras turbulentas<br />
Eu vi os anjos de Sodoma inventando a<br />
loucura e o arrependimento de Deus</p>
<p>(in: <em>Paranóia</em>, 1963)</p>
<p><em></em><strong>XVI</strong></p>
<p><strong></strong>abandonar tudo. conhecer praias. amores novos.<br />
poesia em cascatas floridas com aranhas<br />
azuladas nas samambaias.<br />
todo trabalhador é escravo. toda autoridade<br />
é cômica. fazer da anarquia um<br />
método &amp; modo de visa. estradas.<br />
bocas perfumadas. cervejas tomadas<br />
nos acampamentos. Sonhar Alto.</p>
<p>(in: <em>20 Poemas com Brócoli</em>, 1981)</p>
<p><strong>ALMA FECAL</strong><br />
Alma fecal contra a ditadura da ciência<br />
Rua dos longos punhais<br />
Garoto fascista belo como a grande noite esquimó<br />
Clube do fogo do inferno: Alquimistas Xamãs<br />
Beatniks<br />
Je vois l&#8217;arbre à la langue rouge (Michaux)<br />
Templo<br />
Procissão do falo sagrado<br />
Deuses contemplam nas trevas o sexo<br />
do anjo do Tobogã<br />
Felizes &amp; famélicos garotos seminus dançam<br />
como bibelôs ferozes<br />
Pedras com suas bocas de seda<br />
Partindo para uma existência invisível<br />
Tudo que chamam de história é meu plano<br />
de fuga da civilização de vocês<br />
Represa de Mariporã. 95<br />
(in <em>Ciclines</em>, 1997)</p>
<p><strong>Ritual dos 4 Ventos &amp; dos 4 Gaviões</strong><br />
para Marco Antônio de Ossain<br />
<em></em></p>
<p><em> &#8220;Eu trago comigo os guardiões<br />
dos Circuitos celestes.&#8221;</em><br />
- Livro dos Mortos do Antigo Egito -</p>
<p>Ali onde o gavião do Norte resplandesce<br />
sua sombra<br />
Ali onde a aventura conserva os cascos<br />
do vudú da aurora<br />
Ali onde o arco-íris da linguagem está<br />
carregado de vinho subterrâneo<br />
Ali onde os orixás dançam na velocidade<br />
dos puros vegetais<br />
Revoada das pedras do rio<br />
Olhos no circuito da Ursa Maior<br />
na investida louca<br />
Olhos de metabolismo floral<br />
Almofadas de floresta<br />
Focinho silencioso da sussuarana com<br />
passos de sabotagem<br />
Carne rica de Exú nas couraças da noite<br />
Gavião-preto do oeste na tempestade sagrada<br />
Incendiando seu crânio no frenesi das açucenas<br />
Bate o tambor<br />
no ritmo dos sonhos espantosos<br />
no ritmo dos naufrágios<br />
no ritmo dos adolescentes<br />
à porta dos hospícios<br />
no ritmo do rebanho de atabaques<br />
Bate o tambor<br />
no ritmo das oferendas sepulcrais<br />
no ritmo da levitação alquímica<br />
no ritmo da paranóia de Júpiter<br />
Caciques orgiásticos do tambor<br />
Com meu Skate-gavião<br />
Tambor na virada do século ganimedes<br />
Iemanjá com seus cabelos de espuma.</p>
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		<title>União civil homossexual: 53% dos brasileiros aceita a proposta</title>
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		<pubDate>Tue, 08 Apr 2008 11:04:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Núcleo UNISex</dc:creator>
				<category><![CDATA[Noticias]]></category>
		<category><![CDATA[casamento]]></category>
		<category><![CDATA[homossexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[uniao civil]]></category>

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		<description><![CDATA[Em recente pesquisa da datafolha a união civil de pessoas do mesmo sexo recebeu a oposição de apenas 45% dos brasileiros. Dos que aceitam a medida, 39% apoiam plenamente a proposta de união civil e 14% são indiferentes. Outro dado interessante é que o apoio à legalização sobe conforme a escolaridade aumenta: entre os que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignleft size-full wp-image-15" title="150207768_77c291a07e" src="http://nucleounisex.org/wp-content/uploads/2008/04/150207768_77c291a07e.jpg" alt="" width="150" height="200" />Em recente <a href="http://datafolha.folha.uol.com.br/po/ver_po.php?session=555">pesquisa da datafolha a união civil de pessoas do mesmo sexo</a> recebeu a oposição de apenas 45% dos brasileiros. Dos que aceitam a medida, 39% <strong>apoiam</strong> plenamente a proposta de união civil e 14% são <strong>indiferentes</strong>.</p>
<p>Outro dado interessante é que <strong>o apoio à legalização sobe conforme a escolaridade aumenta:</strong> entre os que só têm o ensino fundamental, 51% são contra e 32% a favor; entre quem tem ensino superior, 51% a favor e 34% contra.</p>
<p><em>Imagem: <a href="http://www.flickr.com/photos/bevw/150207768/">The Grooms</a> sob <a href="http://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/2.0/deed.pt">C.C.</a></em></p>
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