Preconceitos e dores diferentes? racismo e homofobia

Uma versão de um ótimo quadro da atriz e comediante Wanda Sykes foi recentemente disponibilizado com legenda na Internet, dando espaço para uma discussão em alguns sites brasileiros sobre as particularidades do preconceito contra gays (a homofobia) e sua comparação com  o preconceito contra negros (o racismo). Aproveitando o questionamento no Sindrome de Estocolmo, fiz os comentários a seguir.

Assista o vídeo abaixo antes de ler.

Antes de tudo, é difícil comparar sofrimentos.

A persistente desigualdade social entre negros e brancos é cruel. Não há como aceitar que se minimize o sofrimento e prejuízo que o racismo ainda causa hoje, nem é essa a pretensão deste texto. O que podemos arriscar é tentar avaliar as modalidades e os aspectos em que as pessoas são atingidas por preconceitos diferentes. Nestes termos, acho que é possível observar que gays sofrem atualmente mais com as modalidades de agressão direta e de certos tipos de discriminação naturalizada e justificada socialmente.

Primeiro,  o espaço de convivência social, como trabalho e espaços públicos. Geralmente, negros são poupados de verbalizações racistas nem que seja por educação e hipocrisia, algo que não costuma acontecer entre homossexuais, cuja maioria está invisível (embora a visibilidade não seja garantia de deixar de ouvir esses comentários).  Quando alguém faz comentários racistas no trabalho ou outro espaço público costuma freqüentemente encontrar censura de pelo menos um ou de todos colegas, enquanto comentários homofóbicos são moeda corrente na maioria dos ambientes sociais, usados tranqüilamente para “quebrar o gelo” e reforçar a mensagem de que homossexuais não são bem-vindos ou inferiores. A interação em espaços públicos não se limita a verbalizações que minam a auto-estima e a disposição dos homossexuais que podem ser comparadas ao bullying, mas também práticas discriminatórias são extremamente comuns. É verdade que práticas discriminatórias ocorrem com negros também, mas há uma diferença importante em relação ao racismo: as pessoas ainda acham socialmente aceitável apresentar a sexualidade como um motivo justo para discriminar, enquanto o racismo precisa de desculpas indiretas e racionalizações para agir. É comum encontrar pessoas que acham natural não querer dividir um quarto em viagem de negócios com alguém homossexual, enquanto que uma justificativa semelhante usando a raça seria certamente caso de demissão. Até mesmo o atendimento em redes de saúde também é uma situação onde existem  relatos de profissionais que evitam e até mesmo se negam a atender homossexuais, enquanto os outros colegas de profissão discutem se essa é ou não uma atitude aceitável.

Como o vídeo de Wanda Sykes mostra de forma humorada,  negros geralmente podem contar com a família (igualmente negra ou inter-racial) para lhes fornecer amor, uma rede de apoio contra o preconceito e ajudar a construir uma auto-imagem positiva. Gays começam sua construção identitária solitários (em uma familia heterossexual, sem modelos de referência próximos e que ensina que ser gay é ruim e vergonhoso). Muitas vezes os jovens gays têm todo o apoio familiar retirado quando o assunto é trazido a tona: recebem menos investimento educacional depois da “decepção” dos pais ou mesmo acabam sendo expulsos (ou levados a sair) de casa. De modo geral, negros tem a possibilidade de construir sua identidade dentro de uma família  afetuosa enquanto gays só conseguem fazê-lo depois de abandonar ou afastar-se de sua comunidade original opressiva, muitas vezes sem levar nada consigo e sem saber onde encontrar e como inserir-se numa nem sempre disponível  ”comunidade gay/simpatizante” que o apoie e permita sociabilizar-se. Não por acaso, temos um alto índice de suicídio entre adolescentes e jovens gays. Existem também alguns trabalhos sobre gays adolescentes moradores de ruas nos EUA (muitos por terem sido expulsos ou levados a sair de casa) infelizmente  não conheço paralelo sobre o assunto no Brasil, mas podemos  intuir que uma situação semelhante acontece por aqui.

E por fim, como a o homossexualidade se apresenta na população geral e não por classe social ou etnia, ser gay e negro/pardo é extremamente comum.  Pode-se admitir perfeitamente que a maioria dos gays é pobre e portanto duplamente invisível para sociedade.  A vida da maioria gay/negra/lésbica/pobre/travesti é algo muito distante da imagem fashion e sofisticada dos gays na mídia (mesmo quando negativamente representados).  O que talvez mostre o quanto é injusto comparar preconceitos quando suas vítimas localizam-se entre tantas intersecções.

Onde está a homofobia?

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Além da homofobia violenta e explicita, aquela que é ameaça imediata a vida e a direitos básicos, existe a homofobia cordial, que estamos pouco acostumados a perceber mas que nos fins das contas, é a responsável por manter as coisas como estão.

Graças a conquista de leis antiracismo e anos de trabalho, as manifestações explícitas de racismo no Brasil de hoje estão à margem social. Embora nosso racismo esteja infiltrado em diversos aspectos de nossa sociedade, é difícil encontramos uma pessoa que encarne, para si e para os outros, o estereótipo do racista. Por isso mesmo, estamos cada vez mais atentos aos mecanismos que sutilmente mantém e reafirmam o racismo num pais em que “ninguém é racista”. O mesmo não acontece com a homofobia. Por mais que o quadro geral possa ter melhorado, ainda é socialmente comum encontrar pessoas proclamando em alto em bom som seu ódio aos homossexuais ou até mesmo dizendo “sou homofóbico mesmo”. Ora isso não é surpresa num pais onde 39,7% dos pais e mãe, segundo a pesquisa de UNESCO, adimitem que não gostariam que seus filhos tivessem colegas homossexuais nas escolas, ou que 45% dos brasileiros acha justo negar o direito à união civil a parte da população homossexual. Enfim, com esses números, não é difícil imaginar que todos devemos conhecer uma ou mais figuras que se aproximam da personificação do “homofóbico” ou “homofobo”.

O fato de direitos básicos se encontrarem ameaçados por inimigos tão explícitos e ferrenhos faz com que muitas vezes não tenhamos tempo para refletir sobre os mecanismos mais sutis da nossa cultura que no fim das contas, tal como funciona para o racismo, alimentam a lógica homofóbica. Mas basta pensar que este indivíduos raivosos não surgem do nada para começarmos a questionar onde está a homofobia na parte da sociedade que, como muito brasileiros dizem, “não tem nada contra” homossexuais. É um assunto muito amplo e vou deixar a responsabilidade com o leitor de refletir sobre toda a complexidade de atos que envolvem a reafirmação da homofobia em nosso cotidiano. Mas vou contar alguns episódios instantâneos de homofobia cordial a seguir:

Pedro “tem vários amigos gays”, simplesmente “os adora” e “não tem nada contra”. Mas quando o sangue sobe um pouco, qual o primeiro xingamento que lhe ocorre? Isso mesmo: bicha, veado.

Laura é amiga de infância de Suzanna, que é lésbica. As amigas de Laura decidem fazer um happy-hour e soltam algumas “brincadeiras sobre sapatão”, Laura dá um sorriso amarelo e decide não chamar Suzanna para a reuniãozinha, para “o próprio bem da amiga”.

Joana é amiga de Claudinho, que é gay. Diverte-se muito com ele e reclamava quando seu marido fazia referências homofóbicas ao seu amigo. Quando seu filho contou que era gay, Joana reagiu mal e pediu que ele mantivesse isso em absoluto segredo.

Quando Marcelo revelou que era gay, Augusto disse que não tinha problema algum e continuaram amigos. Um dia Marcelo não quis emprestar seu carro e Augusto ficou indignado, afirmando que Marcelo não era capaz de retribuir o “favor” que ele fez ao manter a amizade.

Leo é gay, mas acha o ambiente que trabalha machista demais para se revelar. Lá trabalha um rapaz de modos efeminados que todos costumam fazer brincadeiras pelas costas. Apesar de não ter nada contra o rapaz, Leo fica tão apavorado que também faz piadas sobre seu jeito feminino. No final do dia, sente-se culpado.

E você, reconhece ou até se reconhece em alguma dessas situações? Olhe ao redor e verá que não precisar andar com um cartaz “Morte aos Gays!” para alimentar a homofobia cotidiana.

Homossexual sim, boiola não?!

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Há alguns anos entrei no site do Grupo Gay da Bahia (GGB) e fiquei surpreso com algumas imagens de cervos ou veados que havia na página. Eram imagens animadas (GIF’s) que mostravam esses animais saltitando de um lado a outro. Aquilo me chocou. Também me incomodou muito. As perguntas que se repetiam na minha mente eram: “Como um grupo que defende os direitos dos homossexuais pode nos expor a uma situação tão ridícula? E por que acatar essa figura que a sociedade usa para representar os gays de forma tão pejorativa?”

Hoje reconheço que parte do meu espanto e do meu incômodo aconteceu porque não lidava direito com a minha homossexualidade. Até aceitava que alguém se referisse a mim como homossexual, gay, mas “viado”, “bicha”, “baitola”, ainda eram termos que incomodavam demais.

Com o tempo amadureci e me dei conta de que o problema não estava no termo usado, mas no modo como eu o encarava. Aprendi que não importa o nome de que me chamem, seja “frutinha”, “boiola”, todos eles representam o que eu sou. E eu me orgulho e muito do que sou, da minha condição, da minha orientação sexual e de tudo que está atrelado a ela. Quando alguém me chama de pederasta ou o que o valha, penso logo: talvez estejam querendo dizer com isso que sou sensível, que me sensibilizo com os sentimentos alheios; talvez queiram falar que não sou violento, que sou carinhoso, meigo; podem estar querendo dizer também que faço amizade fácil com as mulheres e me dou super bem com elas como muitos homens não conseguem fazer; quem sabe podem estar querendo dizer que sou apegado à minha mãe e à minha família; ou ainda podem estar querendo afirmar que sou capaz de amar um igual, que sou forte o suficiente para romper preconceitos, encarar vários obstáculos e ser feliz.

Quando tirei do meu coração e do meu ombro o peso negativo desses termos, o meu modo de encarar o mundo mudou. Inventem a palavra que quiser, em qualquer tom de voz, ela ressoará sempre de forma positiva, porque é assim que me sinto quanto ao que sou, quanto à minha forma legítima e genuína de amar.