Você não está sozinho

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O filme filme dinamarquês “Você não está sozinho” (Du Er Ikke Alene), de 1978, se passa numa escola dinamarquesa, onde funciona um internato de meninos. Ambientada na década de 70, o filme traz as primeiras descobertas da adolescência de um grupo de meninos, que começam a ter contato com bebidas, drogas, com o corpo e a sexualidade.

Na escola os meninos têm aulas sobre política, sobre os efeitos de drogas e “vivências” que exploram o contato com o corpo e os impactos psicológicos das relações grupais de aceitação ou rejeição. Os professores adotam duas posturas: uma mais liberal, que favorece a reflexão e incentivam as descobertas da adolescência e uma mais conservadora, que prima pelo respeito aos professora e pela moral, submetendo os alunos a regras rígidas e primando pela “coerência na educação”. Apesar do formato laico – gerido por civis – a escola tinha aulas de religião, denotando um modelo tradicional de educação.

Numa das aulas, sobre política, em que se discute sobre regimes democráticos, um dos alunos questiona a participação dos jovens e idosos no regime democrático – considerados marginais nos processos decisórios. O professor, como justificativa, fala da “imaturidade política dos jovens”, legitimando a representação social de jovem como um “não lugar”, um “não-ainda”, um “por vir”.

Nas cenas envolvendo os garotos, evidenciam-se vários fenômenos “típicos” da adolescência e suas descobertas: o uso de drogas (desodorante), as práticas de masturbação, a leitura de revistas e livros eróticos, brincadeiras sexuais e brigas entre os meninos. As primeiras experiências sexuais se dão entre os próprios meninos ou com meninas da turma – ou mais velhas, que cuidam do refeitório – de forma delicada, num progressivo desvelar-se que transita entre a excitação da curiosidade o medo e de serem descobertos. Apesar dos controles exercidos pelos professores – em especial pela figura do diretor – os meninos encontram formas alternativas de “burlar” as regras e experimentarem clandestinamente, as primeiras experiências da adolescência.

Em destaque, tem-se a história amorosa de dois garotos – Kim e Bo – que vivenciam essas experiências entre si. Bo vem das férias na praia, em que teve um contato amoroso com um amigo e trás as dúvidas e curiosidades sobre a sexualidade. Kim, filho do diretor da escola, mais novo que Bo e da maioria dos meninos, que tem contato com eles e, progressivamente vai entrando em contato com a sexualidade e com o amor. Aos poucos vai se delineando um jogo de sedução entre Bo e Kim, em que ambos experimentam o contato e a intimidade, de forma lúdica , por meio de brincadeiras.

Algumas cenas traz bem nítida essa ludicidade que demarca a fase de transição da infância para a adolescência, como a brincadeira de índio, e o banho dos dois, em que o Kim brinca com a espuma do xampu. A descoberta da sexualidade, entre eles, se contrapõe com a “invasão de pornografia” que se dá na escola, pelos meninos mais velhos, mostrando uma via que mantém uma aura de “inocência” da infância – considerada característica “típica” da infância.

Em paralelo à relação entre Kim e Bo – protótipo desse amor inocente – tem-se as formas dos outros jovens de vivenciar de forma mais explícita as descobertas da sexualidade, por meio de piadas, brincadeiras eróticas e da externalização espontânea dessa sexualidade. Colocada em evidência, nas ações e na linguagem dos jovens, essa sexualidade é reprimida pelo diretor, quando tenta punir um dos alunos, responsáveis por prender fotos revistas pornográficas no banheiro dos dormitórios.

Diante da postura autoritária do diretor da escola e do corpo docente, alguns alunos se unem num movimento de “greve”, se recusando a freqüentar as aulas e organizando um movimento de protesto com faixas e com um documentário – com um apoio de uma professora (a que fala sobre drogas) que adota uma visão mais liberal. Nesse movimento, evidencia-se o ideal de coesão grupal e do movimento jovem, vivido de forma marcante nos fins da década de 60 e meados de 70 (Revolta de Maio de 1968 e o movimento de contracultura nos EUA e Europa com os hippies, beats, etc).

Uma referência ao movimento hippie também é feita, quando um grupo de alunos vai para o picnic no bosque. Lá eles experimentam um contato direto com a natureza, com a sensação de liberdade dionisíaca e de reconexão com o universo. Kim e Bo trocam carícias e experimentam a sensação de embriaguez– real e simbólica – do amor e do vinho.

A coesão grupal se faz presente também no movimento de defesa de Bo, quando ele é perseguido e humilhado por uma gangue de “meninos mais velhos”. Nesse conflito, o grupo vai a seu socorro. De forma subliminar, o sexo aparece reverenciado como uma forma de poder, quando, para pagar pelo crime de ter agredido Bo, um dos meninos da gangue é obrigado a beijar as nádegas de um dos meninos da escola, como forma de humilhação.

Ao fim do filme, o movimento de greve dos estudantes garante a permanência do colega que seria expulso. Há uma encenação de uma guerra, em que um dos meninos morre baleado. Monta-se o filme, em que o encontro entre Kim e Bo ilustra o mandamento cristão da “Amai ao próximo como a si mesmo”.

Nesse filme, poderíamos ensaiar alguns possíveis pontos de análise:

  1. A adolescência como fase de descobertas e experimentação;
  2. Os conflitos de gerações e as diferentes formas de lidar com a passagens adolescência (liberal x conservadora);
  3. A questão da coesão grupal e a importância da pertença x a solidão na adolescência;
  4. O que se define, nas escolas, com educação sexual;
  5. As primeiras experiências sexuais como experimentação e exploração da sexualidade ou como definidora de uma orientação sexual e futura identidade sexual (homossexual ou heterossexual);
  6. A questão das drogas e uma possível função preventiva da educação;
  7. Alienação x implicação dos pais na criação dos filhos – a questão do modelo de internato;
  8. O contexto sócio-histórico da década de 70 (Contracultura, movimento hippie, movimento de liberação sexual – feminista e gay)

O problema hormonal da sexualidade

Colunas e Artigos

Sentado na platéia ouço um renomado médico baiano especialista em reprodução humana. Sinto-me como se estivesse acordado de um sonho. Na verdade não seria bem um sonho, mas uma espécie de despertar após um estado bestial de ingenuidade. Talvez o costume com discussões que questionam certos padrões de comportamento, combatem a discriminação, o machismo, por exemplo, tenham me feito esquecer que também e principalmente no meio acadêmico há ainda pensamentos que cultuam a manutenção dos princípios de uma sociedade hipócrita, discriminatória e preconceituosa.

Sua fama e seu alto conceito no mundo científico e na mídia principalmente é chamariz para um auditório lotado. O tema da palestra: Qualidade de vida. No início pensei que os organizadores pudessem ter se enganado com o convidado, mas depois tive certeza. O tema da palestra não era o mais adequado para o palestrante e logo nos primeiros minutos era perceptível que a sua fala não ia ser diferente do que estava acostumado a proferir, apesar do levíssimo esforço para se adequar ao propósito do evento.

E vamos as suas pérolas. O início aterrorizante sobre as doenças sexualmente transmissíveis é realmente de meter medo. E o problema é mesmo sério. Há de perceber certo olhar culpado e meio desconcertado dos ouvintes. Quem nunca num momento mais afoito ou instintivo não deu uma escorregada e não se cuidou num ato sexual? Aliás, instinto para ele é a essência do ser humano. Seu discurso é todo justificado no fato do homem ser um animal. E coitada das mulheres, não sentem desejo pelo sexo oposto. Todo aquele fogo pelo peitoral do Gianecchini, ou pelas pernas de algum jogador de futebol é apenas interesse, e interesse material.

A mulher é biologicamente incapaz de sentir desejo pelo homem. Seus níveis hormonais não lhe permitem isso. E nem adianta elevar o a testosterona, o hormônios que faz sentir desejo, o resultado seria a mulher sentir desejo por outra mulher. Sua função é procriar e aquelas que possuem ancas largas, seios fartos não precisa nem ser bonita, essas são as melhores e as mais desejadas, pois possuem melhores condições de oferecer um descendente forte e robusto para o macho, garantindo assim a perpetuidade dos seus genes. Alias é com as galinhas que elas se parecem. Segundo ele não existe comparação mais perfeita. Como as galinhas as mulheres só se preocupam em comer e ciscar no seu poleiro, o galo, o macho, é quem se interessa por copular e para a galinha só resta chocar os ovos. No momento do vamos ver a galinha nem olha para o galo, continua a comer.

A vontade que tive era de gritar bem alto: “Mulheres da platéia que se contorcem de riso, essas galinhas são vocês”. Será que elas não perceberam que isso tudo é uma nítida referencia a nossa querida e famosa Amélia? Que é um discurso científico disfarçado de piada validando tudo o que aquelas que queimaram seus sutiãs anos atrás lutaram contra e na atualidade as risonhas da platéia se enchem de orgulho vangloriando-se da independência feminina e de sua superioridade?

E não acabou o papel da Amélia. Para aquelas se sentem incomodadas com a falta de desejo o seu conselho é fingir. Revirem os olhos, gritem junto com ele na hora do clímax, acompanhe o ritmo do seu garanhão para que no final ele possa bater no peito e se sentir o máximo. Eles precisam mesmo é se satisfazer. Não conseguem resistir ao cheiro de uma fêmea. È uma imposição biológica.

Para a homossexualidade não há solução, só resta se conformar. O gay é um ser humano no corpo de homem que tem o gene gay desde o seu nascimento. Nas relações entre dois seres deste tipo não existe desejo sexual, porque eles não são machos e macho só sente desejo por fêmea. Aos casais gays com longo tempo de relacionamento não existe sexo. E se existe sexo um sempre tem o papel da mulher. No caso das mulheres se elas se sentem atraídas por outras mulheres o nível de testosterona de uma é muito alto e a outra provavelmente teve vários relacionamentos frustrados com homens, por isso aceita essa condição.

Por fim veio a grande propaganda do seu trabalho científico. Não sei quais foram os dados utilizados para isso, e tenho até medo de saber, mas o Doutor afirma que o seu trabalho com o planejamento família durante os últimos vinte anos na cidade de Salvador é o responsável pela diminuição da violência e marginalidade nesta cidade. Vem lançamento de livro por aí, aguardem. Também não tenho idéia de onde ele tirou que a cidade esta menos violenta, mas tenho idéia de onde vem o seu pensamento que o sujeito que é criado sem pai é um marginal em potencial. Diz o velho ditado que macaco não olha para o rabo, deve ser por isso, que este doutor que deve ter uma família exemplar, faz este tipo de afirmação.

Assim como as mulheres, fêmeas da platéia que riram e se divertiram ao serem chamadas de galinhas, muitos homens, machos devem ter se sentido muito confortáveis ao terem suas puladas de cerca justificadas por uma questão hormonal. Não sei em que planeta vive o palestrante, mas sei que sua palestra fere diretamente com tudo o que se tem lutado contra durante anos e vem se tentando modificar como, por exemplo, a história das mulheres que tem um longo período de submissão e anulação de sua vida, contra o direito de ser e amar, diferente dos padrões de uma sociedade que preza por valores e comportamentos para manter os interesses e privilégios de uns poucos. E tudo isso sobre o aval de algo que se tem como incontestável e mensurável: a ciência.

Além de não levar em consideração que o homem é um ser social e portanto fruto das relações construídas historicamente, ignora este processo histórico da humanidade onde essas relações se transformam e determinam por exemplo o modelo de família. Modelo de família idealizado ainda hoje e que não diz respeito a realidade de muitos, ou melhor da maioria. Sem contar na visão preconceituosa e machista sobre a mulher que sua única serventia é parir. O que prega este doutor é a manutenção de comportamentos como o de pendurar um lençol com mancha de sangue na janela dos recém casados para mostrar a todos que a jovem era virgem, sob pena de ser devolvida aos seus pais, como um objeto, se não houvesse sangramento.

Não sei se os direitos conquistados pelas mulheres tenham sido lá grande coisa, afinal ainda hoje o mundo é dominando pelos homens, ela continua sendo explorada, mão-de-obra barata, dupla jornada de trabalho, sustenta a casa e ainda tem que dar conta dos afazeres domésticos, tem seu corpo vendido como objeto sexual, é vítima dos padrões de beleza impostos pela indústria da moda, mas o que sei é que pensamentos retrógrados como estes devem ser combatidos com todas as forças não só por elas que sofrem na pele os estigmas de ser mulher, mas também pelos homens que sofrem as conseqüências da desadaptação as novas estrutura de família, e também pelos homens gays e mulheres lésbicas que tem suas vidas escondidas e camufladas para poderem serem aceitos dentro dos padrões irreais do que é ser homem, do que é ser mulher, do que é ser macho e do que é ser fêmea.

Os Sonhadores

Este filme de 2003, dirigido por Bernardo Bertolucci, conta a história de um jovem estudante americano em Paris que se envolve com dois irmãos Isabelle e Theo, com quem passa a morar junto na ausência dos pais dos doi.

A construção deste triângulo amoroso envolve, além  da experimentação da sexualidade, o gosto pelo cinema e o cenário político da 1968. Alias o momento político que se anuncia é a indicação de que o breve período que eles desfrutam de uma liberdade sem censuras não será definitivo apesar de marcar  suas vidas.

Assista ao trailer aqui. ( Disponível em DVD)