Responsabilidades desiguais e o ‘fardo’ da civilidade

As eleições de 2026 são uma pauta constante na minha casa. Meu pai, mais conservador, aos 59 anos, quer poder se aposentar. Minha mãe, eu e meu irmão, bastante progressistas – meu irmão e eu somos gays, minha mãe também quer se aposentar. Meu outro irmão e minha irmã, desde a Pandemia, podem ser caracterizados como antibolsonaristas, ainda que com variados graus de adesão ao progressismo ou ao conservadorismo.

Minha família extensa está partida ao meio. De um lado, primos e tios seduzidos pelo bolsonarismo em maior ou menor nível. O fio condutor comum dessas pessoas é o ressentimento. Entendo este como uma das modalidades de afeto que catalisa os eleitores do bolsonarismo, sobretudo os evangélicos[i].

Ressentimento pelo insucesso financeiro ou profissional. As promessas da sociedade capitalista, do individualismo e da cidadania com base no consumo são setoriais e limitadas. O seu fracasso, mais saliente nos contextos de crise, como a mundial de 2008 e a brasileira de 2014, colocou uma geração – a minha – em trabalhos precarizados e sem garantias de direitos. Acredito que meus parentes na faixa dos trinta e poucos estão nesse universo. Há um mal-estar, uma amargura em comparar o passado idealizado dos nossos pais com nosso presente de crise.

Ressentimento pela perda de centralidade. Apesar de, em muitos sentidos, ser uma família matriarcal, existe um machismo muito forte, parte do ethos da geração do meu pai e dos meus tios, que foi repassado para todas e todos nós, em maior ou menor grau. A colocação desses valores e desses comportamentos em xeque gerou mal-estar. Minha mãe nunca se conformou com esses comportamentos, minha tia idem. Minhas primas se insurgiram desde cedo. Eu sou o primo gay, então, uma vez fora do armário, fechar com o patriarcado era contraproducente.

Esse ressentimento foi apropriado pelas redes sociais, que têm como característica engajar pela indignação, oferecendo alvos fáceis. Na medida em que seus problemas podem ser reduzidos a explicações fáceis, em geral à existência de um outro – as cotas, o feminismo, o bolsa família, os gays, dentre outros – é fácil direcionar o ressentimento aos sujeitos que compõem esse Outro fantásmico e ameaçador, tão falso quanto poderoso social e politicamente.

O bolsonarismo viceja desses ressentimentos. Agrupa preconceitos, transforma grupos minorizados em inimigos públicos. Propõe uma nova linguagem para a política, calcada no ódio. Todo o conteúdo concreto é reduzido à forma tosca, elementar de comunicação, que despreza a existência subjetiva e concreta do Outro. O bolsonarismo é a celebração estética da extinção do Outro como afirmação do Eu.

 Daí que não seja possível conciliar bolsonarismo e democracia, na qual convivem tensões e disputas dentro de regras partilhadas. Para o bolsonarismo, essas regras funcionam como mera sugestão de conduta, sem papel coercitivo nem valor em caso de derrota. O bolsonarismo é, por definição, imoderado e golpista[ii]. Seu voto é, em grande parte, um voto de vingança: senão por privilégios, concretos ou imaginados, pela centralidade perdida.

Nesse quesito reside o erro da (quase inexistente) Direita Moderada brasileira. No Brasil, o campo da Direita tem uma história que só pode ser considerada como vergonhosa. Em resumo, foi transigente com violações de direitos humanos, truculenta na defesa das oligarquias, pouco disposta a ceder na construção de garantias mínimas de vida para a população, golpista em todas as circunstâncias que pôde. A comparação da Direita brasileira com a britânica ou com a alemã é complexa, porque lhe falta, em muitos casos, qualquer compromisso seja com a institucionalidade, seja com a manutenção da democracia.

Ainda assim, a Direita produziu alguns setores democráticos, a se julgar pela Constituinte de 1988, com uma frente progressista muito atuante, muitas vezes apoiada por políticos moderados e até conservadores. E, acima de tudo, produziu uma certa cultura política mediana, apoiada pela imprensa hegemônica brasileira. Esse setor, agregando alguns políticos e a imprensa, que um dia foi chamado politicamente de Tucanato, hoje está amorfo e quase não representado no congresso da legislatura de 2027-2031, no qual até o fisiológico Centrão (!!!!!) perdeu.

Este pensamento de Direita Moderada continua dominante na imprensa hegemônica. E vem fazendo um desserviço para a Democracia brasileira. É constante o movimento de criar equivalências entre o governo centrista de Lula, no máximo com momentos sociais-democratas, com as maiores barbaridades do bolsonarismo.

Um exemplo é a arenga contra uma tal ‘ausência de propostas’, atribuída aos dois lados. Ora, não há como se debater propostas com o bolsonarismo pela simples razão que ele não tem nenhuma! O que existem são chavões, preconceitos e mentiras, inviabilizando políticas públicas, e o desejo descarado de agradar setores do mercado financeiro. A Frente Amplíssima não pode jogar xadrez com pombos, porque pombos simplesmente cagam nas peças e voam.

O enquadramento dado à Frente Amplíssima em periódicos como o Meio, a Folha de S. Paulo, e o Estado de São Paulo quase sempre em registro crítico das ações do governo, parece deixar de lado sua principal virtude: trata-se de um governo plenamente democrático, e preocupado em salvaguardar as instituições, a constituição e a República. Criticam muito o governo Lula na área da segurança pública, ou da educação, enquanto ignoram o aumento da violência sob Tarcísio. Noticiam as ligações de Lulinha com Fraude do INSS, e falham miseravelmente em apresentar o caso Master como um grande esquema de corrupção comandado pelo bolsonarismo em conluio com os evangélicos da Igreja Batista de Lagoinha, e com o clã Bolsonaro a pretexto de um filme dedicado ao zerésimo pai – o Pangaré (Dark Horse).

O enquadramento talvez seja oriundo da ideia de que se trata de um governo de Esquerda, que precisa ser criticado por periódicos orientados à direita. No entanto, essa forma equivocada e socialmente irresponsável de produzir conteúdo noticioso termina não só por ajudar a normalizar o bolsonarismo, a política fundada nas formas letais do ressentimento público, como torna a civilidade um fardo da Esquerda[iii].

Em nenhum campo isso é tão forte como no das denúncias de corrupção. De fato, ocorreram casos em governos de Esquerda. De fato, isso cobrou um preço pesado do país. Contudo, isso só veio à tona porque se permitiu plena capacidade de investigação da Polícia Federal e do Ministério Público nos governos de Esquerda. As mesmas instituições que, sob Augusto Aras e Anderson Torres foram aparelhadas para atacar a liberdade de imprensa e viabilizar um golpe de Estado no país.

Em tal condição, paga-se pouco no Brasil por ser bolsonarista e golpista. Qualquer sinal de contrição, qualquer discrição na fala, sem ser acompanhado por gestos, leva a pessoa a ser saudada como a ‘Nova Direita’ que vai salvar o país da irresponsabilidade fiscal e do abismo econômico.

O fardo da civilidade que a esquerda carrega, de jogar pelas regras do jogo respeitando a institucionalidade existe também pela irresponsabilidade da imprensa hegemônica brasileira. O menoscabo da ameaça que o bolsonarismo representado, como uma modalidade contemporânea de fascismo brasileiro não deve nem pode ser naturalizada, por quantas colunas de equivocadas de opinião a Folha escreva, evocando o ‘bolsonarismo moderado’ e sugerindo que uma vitória de Flávio Bolsonaro seria bem recebida pelo mercado.

A civilidade se converte em um fardo esmagador quando responsabilidades assimétricas são atribuídas na esfera pública, dentro do debate político. Em tais condições, a normalização do bolsonarismo é um perigo corrói por dentro a democracia e a política brasileiras.


[i] Ver: Gracindo Junior, Paulo; Goulart, Mayra; Frias, Paula.“Os humilhados serão exaltados”:

ressentimento e adesão evangélica ao bolsonarismo” In: Cad. Metrop., São Paulo, v. 23, n. 51, pp. 547-579, maio/ago 2021. Disponível em:  http://dx.doi.org/10.1590/2236-9996.2021-5105. Acesso em 13 out. 2026. Adoto o conceito de forma provisória. Acho relevante a reflexão de Nietzchie sobre o tema, na medida em que aponta o papel das vinganças perpetuadas pelos ressentidos. De um ponto de vista psicológico, o ressentimento também residiria numa dificuldade de afirmação ante o mundo, seguido de uma submissão cínica. Ver: BUENO, S. F. Fascismo e ressentimento. In: O fascismo em dez lições [online]. São Paulo: Editora UNESP, 2022, pp. 67-74

[ii] Ver: Supremo Tribunal Federal. 11 set. 2025. STF condena os oito réus do Núcleo 1 da ação por tentativa de golpe de Estado. Disponível em:  https://noticias.stf.jus.br/postsnoticias/stf-condena-os-oito-reus-da-acao-por-golpe-de-estado/ . Acesso em 13 out. 2026.

[iii] Leite, Ana Gabriela Guerreiro Viola da Silveira. A normalização de Jair Bolsonaro pela mídia mainstream brasileira. Tese (Doutorado em Comunicação) – Universidade de Brasília/Université Libre de Bruxelles, 2023.

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