A cruzada anti-identitária da Esquerda e a luta contra ‘todes’

Esse ensaio é uma reflexão que vem se desenhando ao longo dos últimos dois anos a partir de alguns eventos. O primeiro foi a reação ao trabalho de Tertuliana Lustosa dentro da universidade, na qual se chegou a propor a criação de um observatório nacional contra a violência sofrida por docentes – identificado Tertuliana com os ataques à universidade[i]. O segundo, a eleição do vereador Pedro Rousseff, sobrinho da presidenta Dilma, para quem o PT deveria abandonar o discurso “identitário”[ii]. Discurso que encontrou eco em posições do vice-presidente nacional do PT, Washington Quaquá, que atribuiu a derrota do Partido nas eleições de 2024 ao identitarismo[iii], em esteira com posições do novo presidente nacional do PT, Edinho Silva. Para utilizar uma metáfora militar, trata-se quase de uma ‘cruzada anti-identitária’.

É uma tentativa de dar forma ao que vejo como efeito deletério dos cruzados anti-identitários na esquerda. Designo por este nome a atitude social ou acadêmica de denunciar movimentos sociais pelos direitos de minorias (como o movimento negro, mas sobretudo o feminista e o LBTQIAPN+, e, dentro destes o de pessoas trans trans) como intrinsecamente deletérios ao debate público ao tentar impor as ditas ‘pautas dos costumes’[iv].  A maior parte dos cruzados anti-identitários, seja na academia, na política, ou no jornalismo, toma as redes sociais como lócus de análise. Os movimentos sociais, organizados ou não, são reduzidos a evidência anedótica ‘das redes’. O movimento LGBTQIAPN+, por exemplo, deixa de ter história prévia, e um papel relevante na construção de políticas de enfrentamento à AIDS e, nisso, na própria construção do SUS[v]. Todo movimento é oriundo ‘das redes’, e portanto, é primeiro enquadrado como identitários e, depois, medida sua relevância ou não. Primeiro se evidência e critica seu histrionismo e suposta violência, tornados intrínsecos quer aos movimentos sociais, quer a pessoas LGBT minimamente políticas em seus perfis. Apenas depois o mérito de suas reinvindicações, se existente, é analisado [vi].

Isso deixa de lado o papel dos algoritmos que engajam tendo por base afetos negativos. Num mundo de indignados, não há como o debate se dar num contexto despido de emoções extremistas, em geral marcados pela hostilidade[vii]. As plataformas privilegiam que o usuário veja conteúdos que lhe causem ultraje moral, e extraem dividendos – literalmente, dinheiro – da construção desta realidade partida em linhas antagônicas[viii]. Tomando o movimento LGBTQIAPN+, razão para indignação haveria, em quantidade: muito além de Tertuliana e de educar com o cu, os casos de violência contra este segmento da população entre 2022 para 2023 aumentou em 35% em geral, com expressivos 43% no caso de pessoas trans e travestis[ix]. Sob o império da cruzada anti-identitária, esse dado, ainda que numericamente relevante, desaparece sob o grito de “identitarismo”. Toda violência é backlash e frutos dos excessos dos movimentos sociais nas redes, que destroem pontes, corroem alianças. Se espera, aparentemente, que esses movimentos sociais que sejam mosteiros de estabilidade zen num mundo em volátil fragmentação. É preciso desdobrar isso em sua inteireza: a cruzada anti-identitária não analisa nem se propõe a citar qualquer papel das redes sociais em criar um ambiente tóxico e envenenado. Todo a toxicidade do debate é dos… identitários. São eles, pessoas físicas atrás dos perfis que destroem o ambiente digital. E não o ambiente digital que se construiu tendo como base este tipo de interação. Corolário disso, essas pautas ficam impossibilitadas, numa verdadeira falácia do reductio ad identitarium. A fala, qualquer que seja, se proferida por uma pessoa sexo-gênero diversa, é desqualificada de saída. Padece do pecado mortal do identitarismo.

Mas há mais. Os ditos identitários estão entre os grupos que, mais lealmente apoiam a esquerda no Brasil. Os cruzados anti-identitários, e neste caso eu falo de presidentes de partidos, ou de herdeiros de lideranças políticas – caso de Washington Quaquá, Pedro Roussef e Edinho Silva – vem promovendo o discurso de que os avanços parcos nos direitos civis desses coletivos se deram ao custo dos direitos dos trabalhadores e em detrimento da classe trabalhadora – e de seus ‘valores’, atualmente cristãos e conservadores. Afirmação falsa e perigosa. Assume, desmedidamente, que a classe trabalhadora seja oposta e antagônica dos movimentos se minorias, e não integrada também por mulheres e pessoas sexo-gênero diversas. E, além disso, deixa de lado a ideia de questionar ditos valores que não apenas são impostos como prejudiciais para coletividades. Há pouco mais de setenta anos a classe trabalhadora, ainda que maioritariamente formada por pessoas pretas e pardas, espelhava um racismo generalizado na sociedade brasileira. Nem por isso a luta contra o racismo é menos necessária, ou sequer antagônica com a luta pelos direitos da classe trabalhadora.

Mas o efeito mais perigoso dessa afirmação e de uma prática política que seja anti-identitária na é outro. Ele deverá vir na perda dos votos. Pesquisa eleitoral Datafolha de setembro de 2022, às vésperas da última disputada eleição presidencial, mostrou que o conjunto de eleitores que se declarava homo ou bissexual era o mais homogêneo na preferência por Lula, com 69%. Em detrimento de Bolsonaro (10%), de Ciro Gomes (9%)[x]. É uma margem confortável, em que a sobrevivência se sobrepõe a valores cristãos, uma vez que a eleição ocorre justamente num período de aumento da violência contra este segmento da população, como visto acima. Assim, numa contexto em que a Esquerda vem assumindo, de forma apressada e equivocada, um discurso anti-identitário, quer no afã de acenar para um eleitorado que já teve (trabalhadores e moralistas religiosos, no caso do PT) quer por uma posição misógina arraigada e generalizada, em algum momento poderá surgir um espaço para um movimento coletivo de pessoas sexo-gênero diversas abertamente identificado com a direita.

Isso ocorre difusamente com candidatos e políticos totalmente identificados com conservadorismo social e fiscal, e que, ainda assim, acenam a estes grupos em busca de uma adesão superficial e de algumas entregas menores de políticas públicas. Caso notório da vereadora de Dourados, Isa Marcondes, lésbica e bolsonarista[xi], ou o vereador Fernando Holiday; ou de Eduardo Leite, governador gay do Rio Grande do Sul, identificado com a direita e a extrema direita[xii], mas que adotou certas medidas pró diversidade – e que, neste sentido, é um passo adiante, além de representantes folclóricos no legislativo municipal.

Em tais condições, se uma figura desta lavra galvanizar a atenção coletiva, por uma retórica altamente baseada em redes, como Érika Hilton ou Nikolas Ferreira, é possível que os votos LGBTQIAPN+ migrem, e migrem em peso, dado que a esquerda não só deixa de dar opções como grita aos quatro ventos que é conservadora e anti-identitária. E levanta uma hipótese intrigante. Pesquisas na Europa sobre a adoção de políticas de austeridade por partidos de centro-esquerda mostram um caminho de crescimento limitado e fracasso. Os eleitores não se aproximam, antes se afastam mais destes partidos. É como se não interessasse um decalque dos discursos de direita por partidos de esquerda. O original superaria a cópia, que soa como uma farsa[xiii].

No caso do Brasil, onde os movimentos de direitos civis ainda ocupam a rua – muitas vezes de forma não só com coletivos, mas com pequenos grupos de amigos ou pequenos coletivos universitários ou da sociedade civil – talvez seja interessante perguntar quem vai ocupar o espaço das bandeiras do arco-íris. Vai ser possível finalmente descobrir se realmente os trabalhadores e religiosos que deixaram de votar na esquerda supostamente pelas ‘pautas identitárias’ como defendem os cruzados do  anti-identarismo, vão voltar a depositar seu voto na urna – ou se a esquerda como espectro político conseguiu, mais uma vez, se dividir, alheando outro público do seu eleitorado.

Há quem lembre que o identitarismo é o nome que se dá a dor do outro quando queremos desprezá-la, reflexão que me parece muito apropriada. Mas creio, também, que essa será a dor de toda a Esquerda quando, mais dia menos dia, aparecer um bem-sucedido movimento LGBTQI+ à direita, capaz de capturar votos para o outro campo do espectro político. Movimento social não é feudo, voto não é talha e eleitorado não é vassalo de campo político.


[i] Sena Júnior, Carlos Zacarias; Mano, Maíra Kubik; Conflitos transversas. In: A Terra é Redonda.  Disponível em:  https://aterraeredonda.com.br/conflitos-transversais/. Acesso em 17 nov, 2025.

[ii] Gayer, Eduardo. PT tem de mudar por dentro para ter sucesso em 2026, diz sobrinho de Dilma, vereador eleito. In: O Estado de São Paulo, 26/10/2025. Disponíve em: https://www.estadao.com.br/politica/coluna-do-estadao/pt-tem-de-mudar-por-dentro-para-ter-sucesso-em-2026-diz-sobrinho-de-dilma-vereador-eleito/?srsltid=AfmBOornuA71Ty5Aosrce1fBPgQ49MsGsbMn0_z4RHLDBWB_4jGpw3ex. Acesso em 17 nov 2025.

[iii] Capelli, Paulo. Pauta de costumes atrapalhou PT em 2024, diz vice-presidente da sigla. In: Metrópoles Coluna de 29 out. 2025 no Metrópoles. Disponível em:

https://www.metropoles.com/colunas/paulo-cappelli/pauta-de-costumes-atrapalhou-pt-em-2024-diz-vice-presidente-da-sigla. Acesso em 17 nov, 2025.

[iv] Para este texto, adoto o conceito de identidade proposto por Stuar Hall, para quem a identidade, na pós-modernidade, realizaria uma costura entre sujeito e os mundos culturais que habitam. Ver: Hall, Stuart. A identidade Cultural na Pós-modernidade. 11ª Edição. DP&A Editora, 2006.

[v] Fachini, Regina. Múltiplas e diferentes identidades LGBT. In: Revista Cult, 12 jun. 018. Disponível em: https://revistacult.uol.com.br/home/multiplas-identidades-lgbt/#:~:text=A%20partir%20de%20meados%20dos%20anos%201980,,e%20dirigida%20para%20os%20direitos%20de%20homossexuais. Acesso em: 17 nov. 2025.

[vi] Jorge, Mariliz Pereira. Esquerda refém do identitarismo. In: Canal Meio, 24 out. 2025. Disponível em: https://www.canalmeio.com.br/2024/10/24/esquerda-refem-do-identitarismo/. Acesso em 17 nov. 2025.

[vii] Tavares, Vítor. Como sua indignação nas redes sociais pode ter efeito contrário ao desejado. In: BBC News Brasil, 23 jul 2025. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/salasocial-53503478. Acesso em 17 nov. 2025.

[viii] Tavares, Pedro. Como os algortimos hackeiam a mente humana. In: Piauí [Festival Piauí de Jornalismo], 05 dez. 2023. Disponível em: https://piaui.folha.uol.com.br/como-os-algoritmos-hackeiam-mente-humana/. Acesso em 17 nov. 2025.

[ix] Fórum Brasileiro de Segurança Pública; Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. Atlas da violência 2025. São Paulo: FBSP; Rio de Janeiro: Ipea, 2025. Disponível em: https://www.ipea.gov.br/atlasviolencia/publicacoes/287/atlas-da-violencia-2024. Acesso em: 17 nov. 2025. Este dado é limitado por se referir a notificações oriundas do sistema de saúde, dado que as organizações de segurança não mantêm dados sobre violência por motivação explicitamente LGBTfóbica. A ausência deste dado não apenas impede uma estatística mais visível, como convenientemente ajuda a sugerir a menor importância do problema.

[x] Lula mantém 47% das intenções de voto, e Bolsonaro vai a 32%. In: Datafolha – instituto de Pesquisa. 19 ago. 2022. Disponível em: https://datafolha.folha.uol.com.br/eleicoes/2022/08/lula-mantem-47-das-intencoes-de-voto-e-bolsonaro-vai-a-32.shtml. Acesso em 17 nov. 2025.

[xi] ‘De zona eu entendo’: quem é a dona de boate lésbica e fã de bolsonaro. 21 out. 2024 In: Terra. Disponível em: ehttps://www.terra.com.br/noticias/eleicoes/de-zona-eu-entendo-quem-e-a-dona-de-boate-lesbica-e-fa-de-bolsonaro-eleita-vereadora-no ms,40de93d785543c60d8a5159f734f58b34b5zkcf3.html?utm_source=clipboard. Acesso em 17 nov. 2025.

[xii] Vick, Mariana. O que Eduardi Leite se assumir gay diz sobre a política nacional. In: Nexo, 02 jul. 2021. Disponível em: https://www.nexojornal.com.br/expresso/2021/07/02/o-que-eduardo-leite-se-assumir-gay-diz-sobre-a-politica-nacional. Acesso em 17 nov. 2025.

[xiii] Henley, Jon. Adopting rightwing policies ‘does not help centre left win votes’. In: The Guardian, 10 jan. 2024. Disponível em: https://www.theguardian.com/politics/2024/jan/10/adopting-rightwing-policies-does-not-help-centre-left-win-votes. Acesso em 17 nov. 2025.

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